ANGOLA NO PERCURSO DE UM NACIONALISTA
Conversas com Adolfo Maria
Fernando Tavares Pimenta
Edições Afrontamento,
geral@edicoesafrontamento.pt

O 27 de Maio de 1977 (2)

Este excelente livro são relatos do percurso político de Adolfo Maria um ex-membro de Revolta Activa do MPLA. O livro tem copyrigt por isso, pedimos a compreensão e condescendência da editora e do autor porque ele não será facimente acessível ao pessoal de Angola. O tema que aqui transcrevemos já descrito anterioemente no nosso site (ver Índice Político) tem algumas lacunas as quais serão preenchidas aqui neste texto daí o interesse na sua publicação.

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Adolfo Maria (foto livro)

95 | F. P. - Bom, julgo que seria importante voltar ao relato da evolução política da Revolta Activa. Anteriormente, referiu que, logo a seguir aos Acordos de Alvor, a Revolta Activa procurou reintegrar-se no MPLA. Como é que decorreram as conversações tendentes a essa reintegração?

A. M. - Procurou-se chegar a um acordo entre a Revolta Activa e a direcção do MPLA. Refira-se que Agostinho Neto aceitou entender-se com a Revolta Activa, mas teve uma atitude muito diferente para com a Revolta de Leste. Esta apresentava-se como a facção armada do MPLA e a FNLA queria que Chipenda participasse nas eleições, mas nenhuma das outras partes aceitou. Aliás, a direcção do MPLA rapidamente tentou a sua destruição, atacando a delegação da Revolta de Leste em Luanda, ataque em que morreu o Comandante Valódia (da minha varanda, no 6.° andar, assisti a esse ataque feito de madrugada, pois a vivenda atacada ficava a poucos metros do prédio onde eu habitava, na Avenida do Brasil). Mais tarde, as autoridades portuguesas - baseadas nos Acordos de Alvor - exigiram que Chipenda desarmasse as suas hostes ou integrasse um dos três movimentos.

Mas estava eu a falar das conversações entre a Revolta Activa e a direcção do MPLA. Essas conversações começaram em Janeiro de 1975, numa casa do Bairro do Saneamento, em Luanda. Na primeira reunião fomos recebidos por Agostinho Neto, que nos apertou a mão e nos mandou reunir com a delegação da direcção. Essa delegação era constituída por Lúcio Lara, Iko Carreira e Nito Alves, enquanto a nossa era formada por Mário de Andrade, Amélia Mingas e eu.

A direcção propunha que nós fizéssemos uma autocrítica individual e depois poderíamos reintegrar o movimento; a nossa posição era a de criar uma plataforma de princípios básicos que serviriam à nossa integração no movimento. Afirmámos, inclusive, que queríamos entrar como militantes de base. Cada delegação expressou o seu ponto de vista e acordou-se que cada uma iria estudar as propostas da outra e depois seria realizada uma segunda reunião.

Ela realizou-se em Março e, depois, ainda houve uma terceira reunião - já com tiros em Luanda - mas sem resultados positivos. As composições das delegações variavam de reunião para reunião. Pela parte da direcção, além da participação de Lara, houve a participação de Pepetela, Bento Ribeiro (Kabulo). Pela nossa parte, eu deixei de participar, Mário de Andrade era um participante permanente e participaram Maria do Céu e Amélia Mingas.

Para a direcção do MPLA, as conversações connosco deixaram de ter qualquer importância, dado que estava empenhada no próximo aniquilamento da FNLA e da UNITA. As conversações foram interrompidas e a situação caiu num impasse.

Veio a batalha de Luanda, o MPLA expulsou a FNLA e a UNITA da capital, em Julho de 1975. Voltámos a insistir com a direcção do MPLA e realizou-se então uma reunião que decorreu na Vila Alice, na sede do MPLA, estando presentes Nito Alves e Dilolwa pela direcção e Gentil Viana, Monimambo e Adolfo Maria pela Revolta Activa. Nessa reunião, Nito Alves reiterou friamente e com um encolhido Dilolwa a seu lado que era necessário os membros da Revolta Activa fazerem uma autocrítica «perante as massas».


Agostinho Neto (foto Net)

96 | F. P. - Um momento, só um aparte. No contexto do avolumar dos combates entre os três movimentos, qual foi a vossa posição em relação à guerra civil?

A. M. - A Revolta Activa era frontalmente contrária à guerra civil porque estava ciente das suas terríveis consequências. No terreno, verificava-se que o MPLA não estava em perigo, até tinha uma posição favorável. Mantivemo-nos fora dessa guerra. Mas também é verdade que um ou outro militante da Revolta Activa, a título individual, combateu pelo MPLA contra a FNLA, durante a batalha de Luanda.

A nossa acção enquanto grupo político foi sempre em prol da paz. Por exemplo, durante a conferência de Nakuru, em meados de 1975, os dirigentes de alguns países africanos procuraram conciliar os três movimentos. Nós, então, conseguimos a publicação no jornal Comércio de Luanda de um documento que demonstrava os males que uma guerra civil traria a Angola e onde fizemos um apelo aos líderes políticos angolanos para que recorressem à nação, a fim de se encontrar o caminho para resolver os seus conflitos. O Comércio foi o único jornal que aceitou publicar o nosso apelo, todos os outros (Diário de Luanda, ABC e Jornal de Angola - ex. Província de Angola), tal como as estações de rádio recusaram-se terminantemente a publicá-lo (já estavam sob o total controlo do MPLA). Sublinhe-se que o documento publicado não era um documento da Revolta Activa, mas sim um apelo subscrito individualmente por alguns patriotas: Joaquim Pinto de Andrade, João Baptista, Maria do Céu Reis, Gentil Viana, Adolfo Maria, Amélia Mingas, Luís Carmelino (Jota) e Manuel Videira.

97 | F. P - Podemos continuar com a narração dos factos relativamente à Revolta Activa. Dizia-me que as reuniões entre os delegados da Revolta Activa e os delegados da direcção do MPLA não produziram resultados significativos...

A. M. - Não houve mais reuniões por largos meses. Mas, logo após a independência, para além dos constantes ataques na imprensa à UNITA e à FNLA, começaram os ataques contra os chamados fraccionistas do MPLA, os ditos «oportunistas» que se tinham levantado contra a direcção do MPLA e contra os quais seria movido um combate impiedoso.

Esses ataques visavam sobretudo os grupos de jovens que tinham ajudado a implantar o MPLA em Luanda, os dos Comités Amílcar Cabral - depois Organização Comunista de Angola (OCA) - e a Revolta Activa.

Nessa campanha do MPLA contra os ditos fraccionistas empenhavam-se raivosamente nos jornais os escribas oficiosos e oficiais como Ndunduma, enquanto nos comícios se empenhava Nito Alves, Ministro da Administração Interna, publicamente apostado na punição dos elementos da então ex-Revolta Activa. A campanha intensificou-se até ao paroxismo após a retirada das tropas sul-africanas de Angola, em Março de 1976.

As cadeias deixadas vazias pelo defunto regime colonial-fascista encheram-se com membros da FNLA e da UNITA que tinham escapado à liquidação física na «batalha de Luanda». Mas não só com estes.

O MPLA começava também a encarcerar nessas cadeias os seus próprios militantes. Os presos eram indivíduos que militavam nos Comités Amílcar Cabral e alguns nos Comités Henda (convém precisar que esta última organização forneceu a maior parte dos quadros que apoiaram Nito Alves na contestação da direcção de Neto).

Entre os presos, estavam os irmãos Rasgado, Manuel, Enes Ferreira, Castro Paiva, Graça Vieira Lopes, Leonel, Rosa da Silva, dos Comités Amílcar Cabral (ou OCA) e também os irmãos Fernando e Carlos Pacheco, Rui Ramos, Loló Kitumba, Aragão, Vasconcelos, Chico Zé (este viria a desaparecer aquando da maciça repressão desencadeada pelo regime, após o golpe de 27 de Maio). Da Revolta Activa estavam presos Rui Castro Lopo e Manuel Videira.

Os ataques públicos contra a Revolta Activa avolumaram-se desmedidamente, muito embora estivéssemos dispostos a retomar as conversações. O nosso mensageiro junto da direcção do MPLA era o médico Eduardo Santos. Este desligara-se da Revolta Activa, fazendo uma autocrítica escrita, que apresentou a Agostinho Neto. Hugo de Menezes fizera exactamente o mesmo. Eduardo Santos conseguiu que Neto recebesse Joaquim Pinto de Andrade. Este explicou-lhe que nós só queríamos reintegrar o MPLA como militantes de base e de modo algum queríamos pôr em causa a sua presidência. Disse-lhe que nem sequer queríamos discutir as questões que tinham levado à constituição da Revolta Activa, uma vez que vivíamos então outro momento histórico completamente diferente.

Por outro lado, crescia, no seio do MPLA, a luta entre Agostinho Neto e Nito Alves. Nesse combate, naturalmente que a Revolta Activa era um excelente instrumento para cada um deles. Aparentemente tinham posições diferentes sobre ela. Agostinho Neto quereria a nossa neutralização política e mesmo banimento, mas talvez não quisesse a nossa liquidação, até porque alguns de nós tinham um certo prestígio fora de Angola; daí que uma atitude menos dura em relação a nós pudesse funcionar positivamente para a sua imagem. Ao invés, Nito Alves queria a nossa liquidação, isto é, o nosso esmagamento político e físico. Naquele momento, a Revolta Activa havia perdido praticamente toda a sua influência e muitos dos seus elementos tinham-se aliado à direcção do MPLA. Neste contexto, um outro factor nos preocupava: víamos prevalecer o desejo de vingança pessoal por parte de alguns membros da direcção, sobrepondo-se ao interesse político ditado por uma resolução pacífica do diferendo.

98 | F. P. - Depois da independência, ainda houve conversações entre a Revolta Activa e a direcção do MPLA?

A. M. - Nos primeiros meses de 1976 (Janeiro ou Fevereiro) houve uma reunião em casa do médico Eduardo Santos entre uma delegação da direcção do MPLA, constituída por Nito Alves e Dilolwa, e membros da Revolta Activa: Gentil Viana, Jota, Amélia Mingas, Monimambo e eu próprio. Nito Alves disse que era forçoso que os membros da Revolta Activa fizessem publicamente a sua autocrítica. Mas alguns de nós responderam que isso não tinha sentido. Aliás, o próprio MPLA continuava a caluniar-nos e a acirrar a população contra nós, pelo que essa autocrítica em praça pública seria apenas o ponto de partida para o nosso linchamento.

Não havia também quaisquer razões para a autocrítica porque a discussão dos problemas tinha sido interrompida e aquele não era o momento para discutir as questões que estiveram na base do aparecimento da Revolta Activa. Perante a nossa resposta, a tensão subiu muito entre Nito Alves e Monimambo. Este, de dedo em riste e fuzilando com o olhar Nito Alves, disse-lhe mais ou menos isto: «Quem és tu, camarada, para exigir de mim uma autocrítica?! Mete na tua cabeça que nunca vais ter o prazer de ver-me fazer uma autocrítica perante ti!». De certa forma, Monimbambo, comandante do MPLA desde 1961, kikongo, ajustava contas com Nito Alves, que integrara aí a Região Militar como professor, vindo de Luanda, em 1969. Nito Alves tinha rapidamente ascendido a comissário político, substituindo Miro (Casimiro), que o Comando dessa lª. Região tinha feito enforcar, em 1970/1971 - Comando de que então Nito Alves já fazia parte. Os olhares de Monimambo e Nito Alves eram de profundo e mortífero ódio. Sentimos, pela expressão de Nito Alves, que o problema era insolúvel. Terminara a reunião, foi glacial a despedida.


Nito Alves (foto Net)

99 | F. P - O que sucedeu a partir daí?

A. M. - Nito Alves foi à União Soviética. Quando regressou fez um violentíssimo discurso contra nós no Comissariado Municipal de Luanda, onde afirmou que havia traidores no seio do aparelho de Estado, isto é, indivíduos da Revolta Activa, com empregos e benesses do Estado, cuja acção nefasta era preciso eliminar. Este discurso, feito a 28 de Março de 1976, foi profusamente retomado e difundido pelos jornais e rádio.

Perante esta declaração pública tão clara e explícita nas suas intenções, voltámos a contactar Agostinho Neto, alertando-o para o perigo que corriam as nossas vidas e para o desprestígio que a nossa liquidação traria ao MPLA. Por intermédio do médico Eduardo Santos e de Joaquim Pinto Andrade, Agostinho Neto respondeu-nos que devíamos enviar uma declaração ao Bureau Político, que reuniria a 10 de Abril de 1976 (num sábado). Reunidos em casa de Eduardo Santos, redigimos esse documento onde, em síntese, afirmávamos isto: estávamos dispostos a integrar o movimento na condição de militantes; não

existiam mais os pressupostos que tinham levado à nossa tomada de posição em Maio de 1974 e, tal como no passado, tudo faríamos para a defesa do MPLA na luta contra os seus inimigos.

O documento foi entregue numa quinta ou sexta-feira a Agostinho Neto. Na segunda-feira à tarde ainda não tínhamos obtido resposta, pelo que resolvemos telefonar ao Secretariado do Bureau Político. Lúcio Lara era o Secretário desse órgão, sendo sua secretária Elsa Sousa Almeida, mulher do Juju, que nos respondeu que teríamos a resposta no dia seguinte.

De facto, a resposta veio no dia seguinte! Na terça feira de manhã, dia 13 de Abril de 1976, a minha mulher irrompeu na repartição onde eu trabalhava e disse-me que António Jacinto (era então ministro da Educação) a chamara para lhe perguntar onde eu trabalhava. A informação seria para Hélder Neto (um dos responsáveis da DISA, a polícia secreta).Temendo a minha prisão, pediu à colega e amiga Rute Magalhães para levá-la de carro ao meu local de trabalho, a fim de me informar do que se estava a passar. Então, eu compreendi que vinham à minha procura para me prender. Dei instruções sobre o serviço e saí da repartição. Vi dois enormes indivíduos a falarem animadamente com uma funcionária do sector das cooperativas, a Clara (vim a saber muito tempo depois que eram os agentes que me deviam prender). Pedi à minha mulher para ir avisar Gentil Viana e Joaquim Pinto de Andrade. Eu também me dirigi de carro a casa do Joaquim, que morava num bairro perto do Hospital Maria Pia. Não estava em casa. Voltei a encontrar-me com a minha mulher que vinha com a Rute no carro avisar o Joaquim. Informaram-me que o Gentil Viana não estava na repartição onde trabalhava, o que me inquietou. Soube depois que ele fora levado pela DISA, na sequência de uma ordem de prisão assinada por todos os membros do Bureau Político.

100 | F. P - Então, em Abril de 1976, houve uma ordem de prisão para vários membros da Revolta Activa. Pode descrever como é que se desenrolou o processo de prisão ou de fuga dessas pessoas? O que é que lhe aconteceu?

A. M. - Na rua, despedi-me da minha mulher e da Rute, sabendo que tudo me poderia acontecer! Dirigi-me sozinho ao local de trabalho do Edmundo Gonçalves, na CAOR Em nome do nosso passado e amizade pedi-lhe para me levar para casa dele, na Vila Alice (ou Vila Clotilde), que estava vazia. Pedi-lhe também para contactar a minha comadre, Helena Morais, a qual me tinha dito que havia uma casa vazia onde poderia ficar, uma vez que a dona estava de férias em Portugal. Refira-se que eu já estava há alguns meses a dormir fora de casa, tal como Gentil Viana, Paiva e outros - nós já conhecíamos bem o MPLA. Edmundo Gonçalves fechou-me na sua casa e avisou a Helena e o Alfredo Morais, os quais me levaram escondido no seu carro para um apartamento, situado no fundo da ferradura do antigo liceu Salvador Correia, em frente à COOPETROL.

Cerca das três horas da tarde desse dia, eu já estava sozinho, bem escondido, mas numa enorme angústia, sem saber o que se passava lá fora. Mais tarde vim a saber que a rusga geral começara às 10. 00 da manhã - o Gentil Viana foi preso mais ou menos a essa hora; depois foram presos os Pinto de Andrade: Vicente, Justino e Merciano, o Talangongo, Capita, Rafael (cunhado de Manuel Jorge), Lukamba, Tito Gonçalves, Brooks. Dois dias depois é preso Fernando Paiva. Dessa rusga geral escaparam, por se terem escondido, Jota Carmelino, Menezes (irmão de Talangongo) e Adolfo Maria. Os nossos camaradas presos foram todos encaminhados para a antiga prisão da PIDE, na Vila Alice, excepto Gentil Viana que ficou à guarda dos cubanos, creio que na antiga fortaleza do Penedo, na Boavista. Na prisão (a antiga cadeia da PIDE), os primeiros encontraram outros membros da Revolta Activa que já tinham sido presos muito tempo antes: Rui Castro Lopo e Manuel Videira. Depois de preso, Gentil Viana entrou em greve de fome, pelo que foi transportado em coma para a clínica D. João III, no bairro Prenda. Voltou a sair da clínica depois de ter ficado cego de uma vista e de ter debelado uma grave infecção numa costela. Uma semana depois da rusga, Jota Carmelino resolveu apresentar-se. Nove meses depois de estar escondido, Menezes fez saber da sua existência e foi preso. Antes disso, foi alvo de uma tareia monumental, possivelmente dada por homens da DISA (a polícia secreta do regime). Quanto a mim, estive escondido desde Abril de 1976 a Novembro de 1978, mais de dois anos e meio, na mais absoluta clandestinidade, da qual viria a sair mais tarde, porque entretanto Agostinho Neto tinha amnistiado os antigos elementos da Revolta Activa.

101 | F. P. - E onde é que estão os outros grandes expoentes da Revolta Activa? Estou a referir-me a Joaquim Pinto de Andrade, Mário Pinto de Andrade, Maria do Céu Carmo Reis, e outros...


Mário Pinto de Andrade (foto Net)

A. M. - Maria do Céu Carmo Reis e Mário Pinto de Andrade estavam ausentes de Angola desde meados de 1975, por razões académicas. Joaquim Pinto de Andrade estava em Angola, mas não foi objecto de prisão, creio que pelo prestígio internacional de que gozava. No entanto, durante o período que foi director do Instituto Pedagógico, foi duramente enxovalhado, através de panfletos colados nas paredes, denunciando-o como traidor, e chegou a ser levado para uma esquadra.

Quando se deu a prisão de Gentil Viana, Joaquim Pinto de Andrade escreveu uma carta a Agostinho Neto. É um vigoroso documento de apelo à razão, com várias frases em latim, alertando o Presidente para o que podia cair sobre ele próprio - Cônsul coveont! (Cuidado Cônsul!), isto é, estás a fazer o que pode vir a acontecer-te. Monimbambo deve ter feito algum acordo com Agostinho Neto ou então Neto não quis afrontar a forte corrente kikongo, mas o que é certo é que ele foi enviado para a Jugoslávia, para frequentar um curso de Altos Estudos Militares. Amélia Mingas não foi presa, possivelmente porque membros da sua família pertenciam à equipa do poder, nomeadamente o seu irmão Saydi Mingas, que era Ministro do Planeamento. Manuel Jorge estava em Portugal, estava em Portugal onde se encontrava desde 1975, a concluir o seu curso, tendo depois ido para França, onde hoje é advogado e professor universitário.

105 | F. P - O período da sua clandestinidade correspondeu a um momento muito conturbado da história do novo Estado angolano. Refiro-me aos acontecimentos que estiveram em torno do golpe de 27 de Maio de 1977. A partir do seu isolamento conseguiu acompanhar a evolução política dopais?

A. M. - Sim, consegui acompanhar a vida política angolana porque recebia semanal ou quinzenalmente (para além de géneros alimentares) jornais e informações do exterior do meu abrigo, que analisava. Aliás, eu próprio enviava para o exterior informações, escritas em letra miudinha, contendo dados biográficos dos presos políticos, para se fazer campanha em Portugal pela sua libertação.

O ano de 1976 caracterizou-se pela consolidação do MPLA no poder: as tropas sul-africanas tinham retirado do Sul de Angola em Março, por instruções de Kissinger; as forças da FNLA, da UNITA e dos seus aliados pareciam ter sido esmagadas; os contestatários da linha política seguida pela direcção do MPLA, isto é, a OCA e a Revolta Activa, estavam presos e aparentemente parecia haver todas as condições para que o MPLA exercesse tranquilamente o poder.

No entanto, não era assim. Através dos jornais e dos noticiários verifiquei que se agudizava a surda luta pelo poder no interior do MPLA, entre Nito Alves e Agostinho Neto. Em Junho de 1976, deu-se já um confronto, visível na campanha das eleições para o poder popular, onde se decidia a escolha dos elementos das comissões de bairro, autarquias, etc. Até apareceu no jornal um poema de Hélder Neto, um delirante hino ao chefe (o Presidente), onde se dizia em óbvia alusão que Neto se escreve com e. Nito Alves apostava fortemente na vitória dos seus elementos nessas eleições e o facto de ser Ministro da Administração Interna favorecia a sua acção. Apesar disso, não conseguiu inteiramente os seus intentos, porque Agostinho Neto e Lúcio Lara mobilizaram fortemente o aparelho do movimento afecto a eles. Mas Nito Alves foi colocando elementos seus nas Forças Armadas e na DISA, preparando o assalto ao poder.

Embora os órgãos de comunicação reproduzissem cada vez mais o pensamento único do MPLA, havia diversas cambiantes, pelo que era possível apreender, através delas, as tensões que perpassavam pelo MPLA. Conforme uma ou outra parte tinha mais influência num ou noutro órgão, trocavam-se acusações do tipo: «as atitudes radicais podem trazer prejuízos para o povo!», «os que propagam o radicalismo actuam criminosamente!» ou «a revolução proletária não se faz com a pequena burguesia» e «há que levar a revolução até às últimas consequências». A partir dos finais de 1976, sente-se que está eminente uma qualquer acção ou reacção, seguramente violenta. Entretanto, Agostinho Neto conseguia o controlo quase total dos meios de comunicação, colocando os seus homens nos lugares chave, o que lhe deu uma vantagem substancial em relação a Nito Alves. No geral, a rádio e a imprensa passaram, a veicular as ideias da direcção do MPLA, embora a facção de Nito Alves conseguisse ter alguma expressão nalguns órgãos, nomeadamente a Rádio Nacional e o Diário de Luanda.

106 | F. P. - Então, o golpe de 27 de Maio de 1977 não foi uma surpresa para si?!

A. M. - O que aconteceu em 27 de Maio não foi de modo algum uma surpresa para mim, quanto à sua essência. Pela minha experiência e vivência no MPLA, via que algo de grave iria acontecer, embora não pudesse prever a forma que tomou o desfecho.

Já há muito que esperava um confronto, sobretudo conhecendo as personagens: a ambição de Nito não tinha limites, Neto não perdoava a disputa do seu poder. Portanto, a tensão dos primeiros meses de 1977 nada mais era que o preparar de um golpe final por cada uma das partes disputando o poder: a facção de Nito Alves e a da direcção do MPLA, presidida por Agostinho Neto.

O aparelho de propaganda do MPLA desencadeara uma contínua e violenta campanha contra os chamados fraccionistas. Fora assim antes da proclamação da independência (último trimestre de 1975),visando alguns membros dos Comité Henda, mas sobretudo os do Comité Amílcar Cabral, transformados depois em OCA. Fora assim no período que antecedeu as prisões de membros da Revolta Activa (Março e Abril de 1976). Agora, desde pelo menos o início de 1977, os editoriais do Jornal de Angola, do Costa Andrade (Ndunduma), e a propaganda da Rádio Nacional de .Angola falavam da necessidade de castigar severamente os candidatos a novos fraccionistas.

Entretanto reunia o Comité Central do MPLA e nomeava uma comissão de inquérito para apuramento das «actividades fraccionistas». Tempos depois, em 21 de Maio, em reunião para análise das conclusões dessa comissão, o Comité Central suspendeu das suas funções os seus membros Nito Alves e José Van Dunem. Parece que muitos pensaram que Nito Alves tinha sido neutralizado politicamente. Mas a verdade é que ele decidiu passar à acção e desencadeou o golpe militar em 27 de Maio de 1977. Não se supunha uma capacidade de acção militar tão grande por parte de Nito Alves, mas a verdade é que ele tinha consigo muitos elementos das FAPLA (o exército) e da DISA (a polícia política).

O golpe fracassou, mas foi sangrento. Foram mortos alguns quadros importantes fiéis à direcção do MPLA, nomeadamente Nzaji, Saydi Mingas, Eurico, Dangereux. Os «nitistas» chegaram a apoderar-se da cadeia de S. Paulo, onde Hélder Neto - comandando as forças da DISA defensoras da cadeia - se suicidou no momento em que entraram. Libertaram quase todos os presos e agruparam para o fuzilamento os membros da Revolta Activa ali detidos, que se salvaram in-extremis. De facto, o pelotão de fuzilamento que se estava a formar debandou ao ouvir o som dos blindados cubanos. Eu só soube disto dias depois, mas, ainda na manhã desse dia, vieram-me contar, em sobressalto, que tinha havido um golpe e que os tanques estavam na rua. Até comentei que se calhar isso era bom. Mas estava profundamente enganado e apercebi-me disso quando vim a saber o que se tinha passado na cadeia de S. Paulo e tive outros pormenores dessa acção.

No entanto, julgo que nada justificava a posterior fúria sanguinária de vingança decretada por Agostinho Neto, no fim da tarde de 27 de Maio de 1977, quando afirmou que não haveria perdão. A repressão foi multirracial: militantes e quadros negros, mestiços e brancos foram fuzilados. Só nos primeiros dias subsequentes ao golpe foram fuziladas mais de dez mil pessoas, no conjunto das várias cidades angolanas...

107 | F.P.- Onde é que foi buscar esses números?

A. M. - Repare, em Malange foram fuziladas logo mais de mil pessoas e no Moxico, no Huambo, no Lobito, em Benguela, no Uíge e em Ndalatando aconteceu exactamente o mesmo. No Bié foram mortas menos, cerca de trezentas pessoas. Em Luanda os fuzilamentos prosseguiram durante meses e meses, incluindo pessoas que foram presas por outras razões. As liquidações físicas começaram por ser ordenadas superiormente e depois muitas delas foram feitas arbitrariamente pelo próprio pessoal da DISA, muitas vezes por meros ajustes de contas. Foi o caso, entre muitos outros, de um amigo meu, Bogalho, que trabalhou comigo na Angola Combatente, aderiu à RA e depois do Congresso tornou-se chipendista. As cadeias eram sucessivamente cheias e sucessivamente esvaziadas, desaparecendo as pessoas. No total, calcula-se que foram mortas mais de trinta mil pessoas. Entretanto, também eram criados campos de concentração no Cuanza-Sul e no Moxico e reactivados os do tempo colonial.

109 | F. P. - Essas afirmações são muito graves. Quais são as suas provas?

A. M. - As provas são os relatos dos meus camaradas que estiveram na prisão e viram as pessoas a entrar e a sair, não mais voltando a aparecer. As pessoas da OCA e da Revolta Activa sabem bem que, durante meses, as cadeias se enchiam e se esvaziavam rapidamente. Para além disso, há os relatos de fuzilamentos das pessoas que vieram de Malange e de outras cidades e o próprio Ndozi confidenciou à minha mulher que estava a morrer muita gente. E ainda hoje há uma reivindicação das famílias das pessoas desaparecidas, que exigem que as autoridades apresentem, pelo menos, as certidões de óbito. Só que Angola não é a Argentina nem o Chile... Outra prova é o persistente e pesado silêncio do regime de Luanda e dos cúmplices desta monstruosidade.

Também é triste, nisto tudo ocorrido após o 27 de Maio de 1977, saber-se que alguns intelectuais angolanos colaboraram com o regime nos interrogatórios dos presos!

109 | F. P. - Pode descrever a situação política, social e económica de Angola no período subsequente ao golpe do 27 de Maio de 1977, tal como a apreendeu através dos jornais e das informações que lhe chegavam do exterior?

A. M. -1977 é um ano de profunda cisão no interior do MPLA, nas famílias apoiantes do movimento e no conjunto da sociedade angolana. Dou-lhe um entre muitos exemplos: na família Mingas, o Saydi foi uma das primeiras vítimas dos «nitistas»; o seu irmão, Zé, que era agente da DISA e «nitista», foi preso e desapareceu depois, levado de noite da cadeia para a morte; a irmã, Amélia, era da Revolta Activa, o seu marido, Jota (membro da RA) fora preso pelo regime e escapara de ser fuzilado na cadeia pelos «nitistas».

O ano de 1977 é também um ano de imenso luto e de profundo temor, sobretudo em Luanda. O MPLA ficou muito desfalcado de quadros porque muita gente instruída - sobretudo jovens - estava com o Nito Alves. Simultaneamente, houve um fortalecimento da atitude repressiva do poder, numa conjugação de acções do partido, dos órgãos de informação, da polícia política e das forças armadas. A DISA e as FAPLA foram objecto duma purga enorme, por via da liquidação física dos «nitistas» — ou suspeitos de o serem! O critério principal era eliminar os indivíduos que mais se distinguiam - os quadros que já estavam mais ou menos identificados com o «nitismo». Mas a repressão foi muito para além disso. Não havia perdão para todo e qualquer indivíduo que fosse denunciado num interrogatório, desde que pertencesse às FAPLA ou à DISA.

No início de 1978 o país estava finalmente (ou aparentemente) em paz: era a paz dos cemitérios e do medo colectivo! Mas o aparelho económico estava totalmente desorganizado; as carências alimentares e de abastecimento à população eram enormes (havia escassos supermercados só para a nomenclatura, enquanto nos chamados armazéns do povo não havia pão, sal, açúcar, óleo, sabão e outros bens básicos); as populações estavam desiludidas com os frutos da independência a ponto de alguns populares lamentarem a própria independência em declarações feitas em reportagens. Essas declarações feitas a órgãos de comunicação social submetidos a férrea censura do director podem espantar, mas elas apareciam porque eram arma de arremesso de uns dirigentes contra

outros, em vésperas de remodelações (esse filme já eu conhecia há muito). Aliás, foi e continua a ser a prática corrente do regime angolano.

Mas voltemos a descrever o que se passava. Havia as maiores carências económicas, os estratos populares sofriam com a falta de tudo, géneros aumentares, cuidados de saúde, água potável, energia eléctrica, etc. Entretanto, continuava a crescer o aparelho de Estado — polícia, exército, funcionalismo das empresas estatais — o que trazia benesses a numerosas famílias. Isto significa que o aparelho de Estado começava a ser fonte de privilegiado sustento de numerosos responsáveis. As diferenciações sociais manifestavam-se cada vez mais e de várias maneiras, desde moradias a carros atribuídos a responsáveis políticos ou do Estado, em proporção com a hierarquia dos cargos. Tal prática consubstanciava-se assim em comentários populares: «O professor pede ao aluno para conjugar o verbo devolver. O aluno conjuga: eu de Volvo, tu de Lada, eles a pé!». Casos de corrupção começavam já a ser notórios. A situação interna era, portanto, muito difícil para o regime do MPLA. (...)