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27 DE MAIO DE 1977


General Del Pino (foto TV 2006)

Neste excelente livro o general Del Pino relata também minuciosamente o que se passou em Angola no 27 de Maio de 1977 e a razão política entre Cuba e URSS que o causou. Sugerimos vivamente a leitura deste livro a todos aqueles que estão interessados em saber a verdade sobre a descolonização de Angola. Colocámos a cor diferente as partes mais críticas para melhor localização. Como o livro tem copyright e não será fácil de adquirir àqueles que vivem em Angola, solicitamos a complacência da Editora e do autor. Obrigado.

Pg. 230/236. - Durante os anos de 1977 e 1978 as tropas cubanas tiveram que enfrentar não só as dificuldades da guerra irregular contra um inimigo que em cada dia se necessitava mais força e melhor organização mas que precisaram de intervir e impor a sua força para manter o governo de Agostinho Neto. Em 27 de Maio de 1977 uma facção pró-soviética do MPLA intentou tomar o poder por meio de um golpe de estado.

À cabeça desta conspiração estava o velho líder do MPLA Nito Alves, considerado por muitos como uma das mais influentes figuras dentro do governo. Uma grande parte dos principais chefes das forças armadas estavam convictos que Nito Alves possuía as melhores condições políticas para dirigir o país, não só pelo seu radicalismo mas por ter sido o principal condutor da guerra de guerrilhas nas selvas angolanas enquanto Neto se encontrava fora do país. Além disso, Nito Alves tinha sido um homem que conseguiu derrotar e expulsar de Luanda a FNLA meses antes da proclamação da independência e foi o ideólogo nas organizações dos Comités do Poder Popular nos musseques de Luanda que tão efectivamente ajudaram a consolidar o poder do MPLA.

Uma cópia do ocorrido na Argélia entre Boumediane e Ben Bela durante a década dos anos 60 surgia novamente neste país africano, só que desta vez os soviéticos, aproveitando as condições de Nito Alves, instigaram um golpe militar para radicalizar mais o governo e fazê-lo totalmente incondicional a Moscovo.

Esta conspiração da URSS sem o conhecimento de Cuba, criou fricções entre ambos os governos, pois ninguém podia compreender que sendo nós os melhores aliados em África, se pudesse intentar uma acção desta natureza sem a aprovação de La Habana. Moscovo considerava que Neto não era um homem de confiança e que uma vez consolidado o seu governo podia ocupar uma posição de aproximação ao Ocidente e mais tarde pactuar com o próprio Savimbi. Além disso estavam convencidos de que para poder enfrentar-se um líder tão carismático como o líder da UNITA, era necessário um homem forte como Nito Alves e não um intelectual como Agostinho Neto.

Os verdadeiros propósitos do golpe ficaram encobertos com o fingido descontentamento desta facção pela influência no governo dos intelectuais mestiços como Paulo Jorge, Lúcio Lara, Iko Carreira e outros.

No dia 27 de Maio de 1977 as tropas golpistas tomaram as principais unidades militares das FAPLA e as instalações de rádio da capital: Quase tinham conseguido os seus propósitos quando se deu um descalabro ao intervirem as tropas cubanas.

Os conspiradores pensaram que os cubanos permaneceriam neutros no conflito. Para eles, era lógico de supor que Moscovo tinha coordenado previamente com La Habana o desenvolver dos acontecimentos. No entanto, ao tomarmos de surpresa aquela situação e não sabendo realmente o que estava sucedendo, deram-se ordens imediatas para proteger o presidente e sufocar a revolta.

Os factos foram tão inesperados para a chefia cubana naquele momento que não dispúnhamos em Luanda uma só unidade militar regular para poder sufocar a rebelião. Tivemos que utilizar um grupo de tanques e carros blindados de um centro de treino sem projecteis de combate para marchar sobre os golpistas.

As tropas sublevadas não podiam suspeitar que os tanques e veículos blindados que irrompiam na capital iam desarmados e já para o entardecer do dia 27 as diferentes guarnições em poder dos rebeldes depunham as armas sem oferecer resistência.

Outros importantes líderes do MPLA e chefes militares das FAPLA estavam implicados na intentona golpista. José Van Dunem comissário político das Forças Armadas; o comandante Jacob João Caetano, chefe de operações das FAPLA, conhecido também como "Monstro Imortal", o ministro do Comércio Interior, David Aires Machado e vários outros ministros e personalidades do MPLA. Estes cabecilhas foram capturados posteriormente, uns pelos cubanos e outros pelas forças leais a Neto. Nito Alves refugiou-se na Missão Militar Soviética e permaneceu escondido nela até ao mês de Julho em que foi detectado pela Inteligência Cubana.


Nito Alves (foto Net)

As conversações secretas posteriores entre La Habana e Moscovo conduziram à entrega do líder rebelde às tropas cubanas por parte dos soviéticos. Fidel Castro ganhava mais uma vez a gratidão do presidente angolano oferecendo-lhe em bandeja de prata o seu principal inimigo. Mais tarde deixava de existir diante do pelotão de fuzilamento. Dezenas de chefes oficiais das FAPLA que apoiaram Nito Alves foram passados pelas armas nas purgas que se sucederam nos meses posteriores ao fracassado golpe de estado.

Não obstante as discrepâncias com a União Soviética por não terem consultado os planos do derrube de Agostinho Neto, o governo de Cuba estava consciente de que devia evitar por todos os meios que se agudizassem as contradições entre a URSS e o MPLA. Em primeiro lugar porque a economia cubana dependente por inteiro da enorme ajuda financeira da URSS podia colocar-se em perigo e em segundo lugar porque sem esse suporte Cuba tão pouco podia enfrentar o enorme custo que representa ter um exército expedicionário a milhares de quilómetros da ilha. Desta maneira, La Habana ocultou a Neto os segredos da conspiração e fez-lhe ver que a participação dos soviéticos no complot se limitava única e exclusivamente a uma actuação liberal do embaixador, sem orientação alguma de Moscovo. Depois de cumprir o seu papel de bode expiatório o diplomático foi retirado discretamente, regressando à União Soviética.

No entanto, o tempo se encarregou de demonstrar aos cubanos o grande erro cometido ao apoiar Neto, ficando evidenciada a sua capacidade de avaliar situações políticas complexas. Os factos posteriores provaram que a inteligência tinha avaliado com maior profundidade o perigo que Neto representava. Os aprendizes caribenhos se deram conta uma vez mais do grande trecho que mediava entre eles e os seus mestres.

Neto não era o líder carismático que sempre foi Savimbi nem tinha a força de carácter de Nito Alves. Não obstante a sua grande inteligência permitia-lhe compreender que uma nação não podia fundar-se de igual maneira que se organiza um acampamento e que as soluções políticas resolviam problemas que não podiam ser resolvidos com canhões e bombas. Que a única paz que o enorme exército expedicionário cubano podia trazer era a dos sepulcros e a sua permanência em Angola somente acrescentaria o interminável derramamento de sangue. Além disso, Neto compreendia que o modelo económico cubano, sustentado sobre uma fictícia economia apoiada custosamente pela URSS, não podia resolver os problemas de Angola.

Assim, desde o princípio de 1978 o MPLA começou uma aproximação dos países ocidentais, incluindo os Estados Unidos e França.

Em Fevereiro desse ano, iniciou conversações oficiais com representantes do governo sul-africano na Ilha do Sal em Cabo Verde tratando de encontrar uma solução pacífica para a independência da Namíbia. Ao mesmo tempo isso lhe facilitaria a retirada das tropas cubanas, cuja presença em Angola era defendida por La Habana com o pretexto da ameaça sul-africana.

No entanto, este esforço de paz não podia de forma alguma ir separado da procura de um entendimento com a UNITA. Nessa data as tropas cubanas todavia levavam com o peso das acções contra as forças de Savimbi ainda que aumentavam aceleradamente os efectivos e o treino das FAPLA para tratar de "angolanizar" a guerra. A retirada das tropas cubanas naquele momento podia significar o colapso do MPLA e Neto desejava chegar a um entendimento com a UNITA mas não numa posição desvantajosa.


Agostinho Neto (foto Net)

Sob esta apreciação, seis meses depois de iniciadas as conversações com a África do Sul, Neto solicitou ao Presidente do Senegal durante a Reunião Cimeira da Organização dos Estados Africanos celebrada em Monrovia, Libéria, em Julho de 1979, para servir de mediador para entrevistar-se com Savimbi no mes de Setembro.

O governo cubano ao conhecer através da sua Inteligência os diferentes passos dados por Neto sem o conhecimento de Fidel Castro, começaram em La Habana as acusações de traição ao líder do MPLA. À medida que começaram a deteriorar-se as relações entre ambos os governos começou a espalhar-se uma vasta campanha política dentro das tropas cubanas em Angola com o duplo propósito de demonstrar ao MPLA o nosso desinteresse e também preparar o terreno para uma possível retirada do corpo expedicionário.

Em frente a todas as unidades cubanas ordenou-se colocar placards com a efígie do ministro das Forças Armadas, general Raul Castro e junto da mesma, fragmentos de alguns dos seus discursos em que fazia menção sobre a presença cubana em Angola. O mais difundido foi: "De Angola não queremos nem o seu petróleo, nem os seus diamantes, nem o seu cobre, nem nenhumas das suas riquezas. Estaremos em Angola até que o governo do MPLA o deseje. E, quando nos formos somente levaremos os nossos mortos que deram o seu sangue por esta terra".

Resultava evidente que aqueles placards colocados fora das unidades militares e que podiam ser lidas por qualquer transeunte que passasse, estavam dirigidas a contra-restar os sentimentos de hostilidade contra a presença cubana em Angola que começava a manifestar-se entre a população e entre as esferas do governo de diferentes comandos militares.

A través da poderosa maquinaria propagandística do Partido Comunista dentro das forças armadas cubanas, desenvolveu-se uma vasta mas velada campanha a fim de criar um sentimento desfavorável à figura de Agostinho Neto.

Os que conhecemos perfeitamente os métodos de agitação e propaganda do Partido Comunista, prontamente nos apercebemos de que algum acontecimento importante estava a ponto de acontecer. Era totalmente fora do comum que os trabalhadores políticos nas tropas não contestaram os comentários e opiniões hostis que se diziam acerca do governo. Entre os coronéis e generais cubanos falava-se abertamente na traição de Neto e a sua aproximação ao Ocidente. A assinatura de diversos contratos com empresas francesas, suíças e holandesas para aquisição de tecnologia militar, incluindo grandes quantidades de helicópteros Allouette e aviões anti-guerrilha serviu para reafirmar os constantes rumores que se propagavam entre as tropas.

No meio deste clima de incerteza nos primeiros dias de Setembro, o mês em que pensava reunir-se com Savimbi em Dakar, Neto viajou para a União Soviética para receber assistência médica devido a uma doença surgida nas vias digestivas. Dois dias depois de internado num hospital moscovita se recebeu a notícia do seu falecimento.

Os factos que precederam a morte de Neto, as obscuras circunstâncias da sua morte repentina, o estranho personagem que o substituiu na chefia do MPLA e a significativa viragem da sua política interna e externa nos levaram à conclusão de que nesta oportunidade não existiu a falta de coordenação entre Moscovo e La Habana que um ano antes frustrara o intento para mudar a chefia do Estado Angolano.

Nós nunca tivemos acesso às especulações que pudessem ter surgido nos círculos políticos e jornais do Ocidente à volta da morte de Neto. No entanto os que conhecíamos a causa da rebelião de Nito Alves, a viragem política empreendida por Neto até à sua repentina morte, a inexplicável separação do seu médico pessoal uma vez internado num hospital moscovita, a dirigida e velada campanha política que o Partido Comunista empreendeu dentro das tropas cubanas para criar sentimentos desfavoráveis à política de Neto, a ascensão ao poder de uma figura nova que vinha passando sobre prestigiados fundadores do MPLA, educada nas universidades de Moscovo e tendo como esposa uma cidadã soviética, fez-nos compreender perfeitamente a lição mostrada pelo velho diabo aos seus alunos cubanos: "Sempre podiam aparecer novos e mais refinados métodos para alcançar um objectivo. O fim justificava os meios".

Anos mais tarde, numa das minhas frequentes viagens a Angola fui convidado para uma recepção oficial oferecida pelos assessores militares soviéticos pelo motivo da Revolução Socialista de Outubro. Concluída a actividade protocolar, à insistência de altos chefes militares soviéticos que se encontravam também de visita à capital angolana, permaneci na missão para continuar ao estilo russo a parte não oficial da celebração.

Em poucas horas, a vodka e a kalbasa se tinham imposto ao juízo e discrição. Não sei qual das diferentes versões que escutei era a verdadeira. Mas o que ficou claro para mim, foi que todas as nossas lógicas e fundamentadas deduções estavam certas. Agostinho Neto tinha sido assassinado..