Joost De Raeymaeker
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A CIDADE DE LUANDA
 

Sugerimos vivamente a quem quizer visitar Angola adquirir este excelente livro. Dado o seu conteúdo um pouco "polémico" certamente não será vendido facilmente em Luanda. Por isso solicitamos a compreensão e tolerãncia da editora e do editor pela publicação deste texto. Obrigado.

 

O Povo

Voltando às generalizações, há algumas caraterísticas gerais entre os angolanos que tornam a estada e as viagens pelo país bastante agradáveis. As pessoas têm habitualmente um fantástico sentido de humor e uma gargalhada nunca está longe. É muito refrescante encontrar um povo que sabe brincar com a sua própria situação. Essa relativização ajuda a ultrapassar as dificuldades do dia a dia e é um sinal de inteligência. O humor está presente em tudo à nossa volta, das conversas nos botequins às letras das músicas. Outra caraterística muito positiva dos angolanos é a hospitalidade. Ser convidado para casa de alguém acontece com muita facilidade. Daí a essa pessoa nos levar a casa de outra, e por sua vez outra e outra, é a coisa mais normal. Ninguém fica admirado por alguém aparecer com um estranho para o almoço, há sempre um prato a mais para qualquer eventualidade.

 

Como a maior parte dos africanos, os angolanos respeitam muito os mais velhos. Qualquer falta de respeito para com uma pessoa mais velha é muito mal vista. Geralmente são carinhosamente chamados de tio, tia, kota, mais velho, mais velha, avô ou avó. Existe uma hierarquia etária implícita nos contactos sociais. As crianças estão no degrau mais baixo e, à primeira vista, ninguém lhes parece ligar muito. Não costumam fazer patifarias nem falar muito quando estão acompanhadas por adultos. É perfeitamente normal ver uma criança sentada ao lado ou ao colo de sua mãe ou completamente sozinha, num transporte público qualquer durante uma viagem de muitas horas, sem se irritar e até sem falar. Não quer dizer que elas sejam acanhadas ou reprimidas. Basta reparar nessa mesma criança alguns minutos depois com os seus amigos na rua para a ver brincar, com um brilho nos olhos e às gargalhadas. Mas como são as pessoas que vamos encontrar em Angola, depois de sair do Aeroporto 4 de Fevereiro? Nos próximos parágrafos, segue uma curta descrição de alguns tipos de angolanos que encontrará de certeza.

 

O motorista de candongueiro

É fácil detetar esta personagem em qualquer parte de Angola. As carrinhas Toyota Hiace, pintadas de azul e branco, são omnipresentes. O motorista de candongueiro tem uma expressão facial praticamente imutável face a qualquer acontecimento. O stress do trânsito horrível de Luanda e os buracos do tamanho de um carro em algumas estradas na província não lhe afetam minimamente a calma. As regras de trânsito são para os outros, e não é em vão que se diz em Angola que só bate num candongueiro quem quer. Eles é que não param. É a nós que compete decidir se queremos amolgar o carro ou ser atropelados. A maior parte dos motoristas de candongueiro gosta de pôr a música muito alto. Geralmente só baixam o som para atenderem uma chamada, para se rirem de uma história de um passageiro ou para darem ou receberem instruções do cobrador.

 


(foto Net)

 

O cobrador de candongueiro

É a figura que grita o nome do destino do candongueiro em alta voz. «Congolenses praça, Congolenses praça», «Mutamba, Mutamba» ou «aeroporto, aeroporto» devem ser palavras que continuam a sair da boca desses indivíduos, mesmo durante o sono. Normalmente têm um maço de notas, bem ordenadas por valor, dobrado a meio ao longo da nota, entre o indicador e o anelar, passando por baixo do dedo do meio. Estas figuras estão habituadas a ficar em posições de fazer inveja a muitos contorcionistas entre a porta, as imbambas e os joelhos dos passageiros. São geralmente muito bem-dispostos e enérgicos, mas a boa disposição pode muito rapidamente dar lugar a ameaças e gritos se um passageiro se recusa a pagar ou não tem dinheiro. Felizmente, a má disposição nunca dura muito tempo. Instantes depois, o cobrador já está a rir-se ou a contar uma história qualquer (desde que o volume de som o permita). Geralmente também não é boa ideia chamar um candongueiro por esse nome. Nem o motorista nem o cobrador gostam. Preferem a palavra «táxi», mas pode dizer Hiace.

 


(foto Net)

A zungueira ou quitandeira

É a mulher que anda pelas ruas com um cesto na cabeça e geralmente com uma criança às costas, envolta num pano. O tamanho e o peso do cesto desafiam as leis da física e da resistência humana. As mulheres vendem peixe, fruta, livros, jornais, bolachas, resumidamente tudo que se pode vender e transportar num cesto. As zungueiras ambulantes gritam o nome daquilo que vendem. «É peixe, é peixe, é peixe» é um dos gritos muito ouvidos. Frequentemente as vogais são transformadas em «é» por permitir um som um pouco mais estridente. «Quérépéé» é carapau. O grito é outro, o peixe é o mesmo. Muitas também estão sentadas à entrada dos supermercados, ou em certos pontos da cidade, como nas arcadas da Marginal de Luanda. Zungar é um verbo. «A mana Zita zunga ginguba» quer dizer que a Zita vende amendoim.

 

O roboteiro

Os roboteiros não gostam do nome com que ficaram. Dizem preferir «trabalhador». Para um estranho, nenhum dos dois explica o que possam ser na realidade. São as personagens que ficam ao pé das paragens dos transportes com uns carros de mão artesanais, feitos com uma roda e um pneu de um carro, sobre os quais montam uma estrutura de madeira. Por umas dezenas de kwanzas transportam as nossas imbambas para casa ou para o próximo transporte.

 

O pastor da igreja carismática

No rasto da altamente lucrativa Igreja Universal do Reino de Deus, vulgo Igreja Universal, surge um sem fim de igrejas «carismáticas» brasileiras, um pouco por todo o país. Até uma imitação da Igreja da Cientologia vi no meio do Moxico, irrepreensivelmente chamada Igreja de Cristo Cientista. Os pastores dessas igrejas são muitas vezes angolanos, mas por uma razão que me ultrapassa, dirigem o rebanho com um portentoso sotaque brasileiro. É comum ouvi-los até do outro lado da rua a debitar a ladainha sobre o inferno.

 


(foto Net)

 

O vendedor ambulante

É o jovem que vende tudo e mais alguma coisa no meio das filas de trânsito da cidade ou em qualquer lugar onde os carros não conseguem andar com mais velocidade do que uma bicicleta. O vendedor ambulante resiste a tudo: chuvas torrenciais, sol abrasador e, provavelmente, o pior de tudo: gases de escape durante a maior parte do dia. Alguns vendem «sumos e água descartáveis» e cerveja, em enormes sacos de plástico transparente, cheios de pedras gigantescas de gelo. Ganham umas poucas dezenas de kwanzas por cada bebida vendida, e por isso é raro vê-los a beberem aquilo que vendem, mesmo nos dias mais quentes. Outros vendem todos os artigos imaginários, desde pentes e carregadores de telemóveis até quadros da Mona Lisa e armários inteiros. Pode não conseguir encontrar aquilo de que está à procura num determinado dia, mas seja qual for a sua necessidade, há de aparecer à venda nas ruas das cidades angolanas.

 

O novo-rico

Se lhe aparecer um carro que nunca viu em lado nenhum por ser demasiado caro, pode ter a certeza de que lá dentro vai um novo-rico. Fatos Armani, com colete, gravata, blazer e pochette, no calor tropical sufocante? Um novo-rico. Caixas de champanhe Veuve Ciiquot para o pequeno-almoço, ou pensando melhor, a qualquer hora do dia? Novo-rico. Este espécime gosta de dar nas vistas, de mostrar a «banga». O modo como ficou rico pode não ser o mais correto ou legal e a sua conduta pública às vezes irritante e desrespeitadora dos outros, mas é sempre bom ter alguns novos-ricos como amigos, nem que seja para aproveitar uma ou outra garrafa de champanhe ou um almoço daqueles de que nunca mais nos esquecemos.

 

O pato

Nos casamentos e nas festas, há sempre algumas pessoas não convidadas. Como é normal os padrinhos do casamento terem também direito a convidar um certo número de pessoas, é relativamente fácil passar-se por convidado. Basta ter lábia. Nas festas mais informais, é ainda mais simples, porque toda a gente tem o hábito de levar sempre mais pessoas. Apesar de um pouco incómodo, o pato é uma figura imprescindível em muitas festas enfadonhas. Os patos são os que dão mais espetáculo. Animam mais um casamento do que qualquer um dos convidados. Quando todos estiverem cansados ou sem vontade de dançar, é o pato que anima a pista de dança.

 

O polícia

Mais cedo ou mais tarde, será confrontado com a polícia angolana. Como turista, os momentos em que é mais provável ser-se confrontado com a polícia é no trânsito, se cometer alguma infração (real ou não), numa operação stop, ou se estiver a fotografar. É provável que lhe peça uma «gasosa» ou, mais recentemente, um «saldo» (um carregamento do telemóvel, que custa 900 kwanzas). Geralmente é mais barato e cómodo pagar a «gasosa» ou o «saldo» do que a multa. Pode sempre insistir na sua razão, mas o tempo que vai perder e a energia que vai gastar podem não valer a pena.

 

O louco

Não se espante se de repente vir um indivíduo todo nu a atravessar uma praça qualquer, a falar consigo mesmo ou a exclamar frases incoerentes, sem que ninguém lhe ligue. Trata-se daquilo que se chama «os loucos» em Angola. São pessoas desenquadradas, geralmente sem abrigo, que vivem à margem da sociedade. As outras pessoas não se metem com os loucos e mantêm distância.

 

O lavador/arrumador/ guardador de carros

Ao estacionar, é normal que alguém o ajude e depois se proponha lavar e guardar o carro. A lavagem é relativamente barata, mas convém estabelecer o preço antes de concordar. Com a quantidade de poeira no ar, sobretudo no cacimbo, uma lavagem superficial pode ser muito útil. No que toca a guardar o carro, estes indivíduos não são tão eficazes e estão longe de ser uma garantia de não acontecer nada ao veículo.

Não há uma só Luanda, mas uma série de realidades diferentes dentro e fora da capital angolana. Há, por exemplo, a Luanda antiga: o centro colonial, com edifícios que datam, como os sobrados, de há dois séculos. Em grande parte da cidade, os reclamos luminosos do tempo dos portugueses ainda estão presentes. Deixaram de ser muito luminosos. Circular a pé nas ruas do centro antigo é um constante ziguezague por causa de passeios interrompidos e aparelhos de ar condicionado a pingar para a rua.

 

 

A imagem das ruas é marcada pela confusão no trânsito de candongueiros, Hiaces e táxis. Ainda dentro da Luanda antiga, surgiu recentemente uma série de edifícios modernos, arranha-céus e torres como a Torre do Ambiente. Neste momento, está em construção uma «nova» marginal, vários hotéis de luxo e sedes de empresas. Luanda foi considerada a cidade mais cara do mundo para expatriados pela segunda vez em 2011, mas apesar disso é possível estar em Luanda sem gastar rios de dinheiro.

A famosa baía de Luanda está a ser diminuída, e haverá mais faixas de rodagem na marginal antiga e a ampliação da ilha de Luanda. A diversão antiga na ilha está prestes a desaparecer, como já desapareceram as barracas no ponto final. Tudo será posteriormente concentrado numa outra zona da ilha.

Há quase sempre um trânsito infernal para entrar e sair da cidade, às vezes em momentos inexplicáveis, por controlo policial, um ou outro acidente, ou o presidente que vai a passar. A sul da parte antiga de Luanda, há uma nova área chamada Luanda Sul ou Talatona, com condomínios fechados, um centro comercial e casas caríssimas, mas na maior parte dos casos ainda sem ligação à rede elétrica e sem água ou esgotos. O centro comercial Belas Shopping tem várias salas de cinema. Aconselho vivamente assistir a um filme, porque ir ao cinema é sempre uma aventura, também pelos comentários das pessoas. Como qualquer centro comercial, há imensas lojas e restaurantes e também um supermercado.

Um novo centro comercial vai abrir na zona de Alvalade, numas torres novas. Terá o nome Mega. Também o Aeroporto 4 de Fevereiro será deslocado para longe da cidade dentro de poucos anos.

Em Luanda, as faltas de luz e água são perfeitamente normais e podem demorar alguns dias para serem resolvidas. Elevadores são por um lado uma coisa do passado e por outro uma coisa recente. Pelo menos os que funcionam. Muitos prédios têm um sistema com cartões para os condóminos que pagaram. Os outros que subam a pé.

A maior parte dos bairros na cidade e na periferia tem muitos musseques, bairros com construção mais frágil e descontrolada. Lá a vida é completamente diferente da vida na baixa ou nos condomínios.

 

Deslocar-se em Luanda

Há uma rede extensa de candongueiros, que vão basicamente para todo o lado. Veja a secção sobre transportes públicos para saber tudo sobre andar de candongueiro. O preço normal é 100 kwanzas, mas durante as horas de ponta pode ser necessário pagar 200 kwanzas. Nas paragens, o cobrador grita repetidamente o destino, tornando-se relativamente fácil apanhar o candongueiro certo. Para além dos candongueiros, há carros pequenos, os chamados turismos, que fazem percursos praticamente idênticos pelo mesmo preço. Se preferir conduzir em Luanda, tenha cuidado e tome em consideração as três principais regras de trânsito.

 

Luandense:

1-0 veículo maior tem sempre razão; 2 - Circule o mais à esquerda possível; 3 - A prioridade é sempre de quem chega primeiro ou com mais velocidade.

 

O que ver e fazer

Para efeitos práticos, dividimos esta secção em quatro partes: Centro (Baixa / Miramar / Cidade Alta), Ilha, Mussulo, Luanda Sul / Talatona.