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ACONTECIMENTOS TRANSCENDENTAIS


General Del Pino (2006) foto Net

Neste excelente livro o general Del Pino relata também minuciosamente o que se passou em Angola no 27 de Maio de 1977 e a razão política entre Cuba e URSS que o causou. Sugerimos vivamente a leitura deste livro a todos aqueles que estão interessados em saber a verdade sobre a descolonização de Angola. Como o livro tem copyright e não será fácil de adquirir àqueles que vivem em Angola, solicitamos a complacência da Editora e do autor. Obrigado.

(…) Pg. 241 – 345. De novo naquela oportunidade o Alto Comando voltou a engavetar as minhas informações e em vez de realizar uma análise serena dos nossos graves problemas de qualificação e treino, optou pela medida repressiva de despromover o chefe do regimento aéreo coronel Jorge Vilardel por ter permitido que se desse um encontro casual com a aviação sul-africana em lugar de empregar mais os aviões contra os guerrilheiros. Aquilo originou por parte dos oficiais mais capazes da Força Aérea o forte comentário de que nos tínhamos convertido no "marido cornudo que vende a cama para que a sua esposa não se deite mais com o amante".

Esta política de "avestruz" tinha a sua explicação. O facto de reconhecer o Alto Comando a nossa deficiente qualificação e nossa incapacidade para combater contra qualquer inimigo que nos fizesse um pouco de resistência, equivalia a reconhecer a ineficácia dos métodos de preparação e treino que recebíamos dos soviéticos e da sua doutrina militar.

A UNITA, por sua parte, continuava ampliando mais os seus territórios libertados, chegando a dominar dois terços de toda a área rural do país. Entretanto, as tropas fantoches das FAPLA viam-se obrigadas junto às nossas tropas de ocupação a concentrar-se cada vez mais nas grandes cidades e povoações importantes. Para essa data, o governo de Cuba já havia tomado a decisão de "angolanizar" a guerra. Com isto obrigaríamos as tropas fantoches a combater e assim podíamos reduzir o índice de baixas cubanas. As nossas tropas regulares ficariam encarregadas da protecção das principais cidades e objectivos, libertando dessa responsabilidade às FAPLA, que poderiam utilizar mais forças para combater a UNITA. Os cubanos interviríamos em casos extremos. A Força Aérea cubana seguiria levando todo o peso da guerra aérea contra os rebeldes.

Para obrigar as FAPLA a que combatessem e elevassem o seu moral, o governo criou um corpo de assessores militares que estariam distribuídos por todas as brigadas angolanas. Este corpo, denominado "Los Olivos", era independente das nossas tropas regulares e respondia somente às ordens recebidas de La Habana.

Como chefe dos "Los Olivos", enviou-se o general de divisão Raul Menéndes Tomasevich, velho combatente das guerrilhas contra o governo de Batista durante os anos que durou a campanha de Fidel Castro na Sierra Maestra. Também começaram a incorporar-se ao dito corpo velhos guerrilheiros que não tinham grandes responsabilidades em Cuba ou que tiveram problemas de desemprego dos seus cargos dentro do governo..

Aquela organização, além de criar dualidade de comando ao não estar subordinada à missão militar confrontou sérios problemas com o aconselhamento dos fantoches angolanos. Isto obrigou a La Habana a reconsiderar os seus planos nomeando um chefe único da missão militar tanto das tropas regulares como do corpo de assessores de "Los Olivos". Para dito cargo, Fidel Castro designou o general de divisão Leopoldo Cintra Frias e enviou de regresso a Cuba o general Tomasevich.

O problema fundamental no aconselhamento às FAPLA radicou em que apesar de que os oficiais cubanos para cumprir esta missão tinham combatido na Sierra Maestra junto de Fidel, e no seu tempo demonstraram ser audazes e aguerridos, tinham decorridos 24 anos desde as suas últimas acções de guerra irregular e por isso, tinham perdido toda a sua capacidade combativa e se encontravam cheios de limitações físicas e de ressentimentos. A maioria tinham sido tirados dos seus cargos e ministérios por ultrapassarem excessiva e abertamente os limites da corrupção. Neste caso encontrava-se Enrique Lussom ex-ministro dos Transportes, quem, depois do "trovão" como dizemos os cubanos, foi parar a Angola como chefe de Estado Maior dos "Los Olivos".

Dezenas de casos como o de Lusson foram a engrossar as fileiras de "Los Olivos". Efigénio Amegeiras, ex-vice ministro das Forças Armadas expulso da dita instituição e do partido em 1967; o general William Calvez, separado do seu cargo como presidente da Sociedade de Educação Patriótica Militar; o ministro das Comunicações, Celmes Fernanez, separado das suas funções por graves problemas morais e enviado para Angola como chefe de Comunicações. Todos os oficiais que se renderam sem combater em Granada, incluindo o seu chefe o coronel Tórtolo e o embaixador de Cuba nessa ilha durante os acontecimentos.

Este procedimento de começar a utilizar Angola como a Sibéria cubana o lugar de "limpar as manchas", além disso ao corpo dos "Los Olivos" se estendeu às chefias e cargos importantes no Estado Mayor da missão militar e das diferentes unidades regulares acantonadas em toda a extensão do país africano.

Dita situação, unida ao desenvolvimento com êxito das forças rebeldes, aumentou os revezes e descalabros tanto das FAPLA com seus assessores dos "Los Olivos", como das próprias tropas regulares cubanas e da sua Força Aérea.

Para te uma ideia até onde chegou esta situação, basta assinalar que em somente quinze meses, desde Abril de 1983 até Julho de 1984, tínhamos perdido seis pilotos de caças: os capitães Andrés Valle, Joge Moraies, Roberto Hernández Alvarez e Manuel Merino assim como o tenente José Pastrana. Além disso junto à povoação de Luau, fonteiriça com o Zaire, foi abatido o tenente coronel Henry Pérez, conseguindo salvar a vida e ser resgatado. Nesse mesmo período também perdemos muitos pilotos e tripulantes de helicópteros: o primeiro tenente Jesus Galindo, seu co-piloto e o engenheiro de voo; o major Policarpo Alvarez Pileta; o tenente coronel Albizu com o seu co-piloto, o engenheiro de voo e dois cubanos mais que se encontravam a bordo da aeronave..

É de destacar, que a investigação deste facto, levou que o tenente coronel Albizu no momento de ser alvejado pelo fogo antiaéreo do inimigo, se encontrava atacando uma povoação rural em território libertado pela UNITA empregando bombas químicas fabricadas experimentalmente pelos cubanos em Angola. Isto originou uma situação muito embaraçosa para a chefia da missão militar, porque eles não tinham o direito de realizar modificação alguma nem experimentar nas aeronaves sem ser aprovadas previamente pelo engenheiro principal da Força Aérea de Cuba ou pelo fabricante..

Quando informamos o chefe da missão militar dos resultados da investigação desta catástrofe e lhe demos as nossas conclusões de que a queda tinha acontecido por um impacto de um projéctil na bomba química experimental que não oferecia nenhuma segurança para a tripulação, este disse-nos:

- Eu assumo toda a responsabilidade pelo sucedido e podes informar disso La Habana ! Mas além disso, Del Pino, entre ti e eu...a UNITA me enlouquece e te juro se eu tivesse uma bomba atómica que a lançava.

- Compreendo-o general, mas ninguém tem o direito de brincar com a vida dos outros ! – disse-lhe serenamente e depois de ouvir algumas argumentações mais despedimo-nos.

La Habana deitou "terra" sobre o assunto e meteu na gaveta a informação e os únicos que sofreram as consequências daquela irresponsabilidade foram os seres queridos dos cinco cubanos mortos que jamais verão sequer os restos mortais dos seus familiares.

Enquanto a UNITA continuava consolidando o controle dos territórios libertos, as tropas cubanas, e em particular a Força Aérea, prosseguiam os seus descalabros. Em somente cinco dias, desde 8 até 13 de Setembro de 1984, a Força Aérea cubana perdia em Angola três mig-23 e um mig.21 BIS tripulados pelo major António Rojas Marrero e os capitães Pedro Zequeira Moreno, Alberto Olivares Horta e Pausides Heredia Hechevarria. O mais vergonhoso e imoral deste descalabro é que as perdas aconteceram não só pelos problemas de qualificação e treino vistos anteriormente, mas também pela responsabilidade do chefe e segundo chefe da Força Aérea, coronéis Tomás Benitez Martinez e Ernesto de la Paz Palomo, ao planear missões irracionais e descabeladas.

A partir desta data a Força Aérea cubana em Angola também tinha começado a sofrer as consequências de converter-se num lugar de castigo para chefes incapazes e com problemas. O coronel Tomáz Benítez tinha chegado a ser chefe da DAAFAR de Cuba, cargo que conseguiu como protegido do general de divisão Francisco Cabrera Çonzáles. Como todo o improvisado, não demorou em iniciar a sua carreira descendente, primeiro como segundo chefe, depois como depois como chefe de Estado Maior, mais tarde como chefe de uma unidade em Holguín e por último foi parar à longínqua África.

Em 8 de Setembro, dois dias depois de ocorrido o primeiro descalabro com os três mig-23, fui enviado para Angola para investigar o sucedido. No mesmo voo em que eu seguia para o país africano viajavam centenas de novos recrutas que cumpririam ali o seu serviço militar durante dois anos..

Em 15 de Setembro, encontrando-me no aeródromo de Luena realizando a investigação, comunicaram-me que numa aldeia próxima tinham morrido treze soldados cubanos. Algumas horas depois aterrou na pista de Luena um avião AN-26 para recolher os cadáveres e levá-los para Luanda. Ao chegarem os corpos mutilados daqueles soldados, tive a curiosidade de levantar os lençóis que os cobriam e qual não seria a minha surpresa ao reconhecer os rostos jovens de vários dos rapazes que fazia só seis dias tinham chegado de Cuba comigo no mesmo avião.

Oh, meu Deus! Como é possível que enviem para o combate jovens que acabam de chegar, que nem sequer conhecem as características do terreno, da povoação, os métodos de ataque do inimigo? Até quando vai durar esta matança absurda, pensei cá para mim, contemplando aqueles corpos quase infantis perfurados pelas balas. Pensei nas suas mães, nos seus pais e irmãos. Quanta dor!

A minha indignação cresceu muito mais ao conhecer pela boca dos próprios oficiais que investigaram o facto, que o maior culpado daquela matança tinha sido o incapaz e irresponsável general Valle Lazo, chefe da brigada de tanques de Luena. Valle Lazo, era outro dos muitos oficiais problemáticos enviados para a África a expiar as suas culpas. O dito general, um homem exageradamente obeso, de umas quatrocentas libras de peso, não tinha encontrado outro objectivo na sua vida que comer que nem uma besta.

Regressei a Luanda com o estado de ânimo por terra. Durante as duas horas de voo até à capital não me saiam da mente aqueles jovens que tinham sido enviados para a morte. Quanto engano e hipocrisia, pensei. Agora vão às suas casas, comunicam aos seus familiares que morreram heroicamente em combate pelo internacionalismo e jamais lhe devolvem os seus cadáveres. Até quando vai durar este pesadelo?

Em 17 de Setembro regressei a Cuba.

Como sempre, toda a informação sobre os resultados da investigação realizada foram parar à gaveta. O Alto Comando não tomou nenhuma medida e como de costume, foram esquecidas as rencomendações que evitariam a repetição de casos análogos. Aquilo já não me surpreendia, mas o que me tirou do sério foi saber que o general Valle Lazo tinha sido exonerado de toda a responsabilidade da morte dos treze infelizes recrutas. Meses depois, concluía a sua missão em Angola; era condecorado pelos seus "méritos" militares e colocado num cargo importante no Corpo de Milícias Territoriais da Cidade de La Habana. O governo cubano se encarregava de reafirmar o velho refrão crioulo que diz: "o morto à cova e o vivo ao frango". (...)

Tradução livre.