O abastecimento de água a Luanda

Por: Manuel da Costa Lobo Cardoso

Da públicação: "São Paulo da Assunção de Luanda

(Apontamentos para a sua história)

Edição do Múseu de Angola de 1950


Desde o início da ocupação que o abastecimento de água a Luanda, - «a quem a Natureza denegou Fontes a athé poços de água doce e saudável» - tem sido considerado a «causa da cidade.

As referências que a este respeito, no decorrer dos séculos, encontramos sobre a capital de Angola, proclamam, dum modo geral, as suas precárias condições de salubridade, atribuindo-se à falta de elemento tão necessário à vida, como é a água, a dificuldade com que sempre deparou para se tornar um centro urbano importante.

Por mais de uma vez, para ocorrer a esta necessidade, foram tentados empreendimentos, que ficaram, na sua maioria, sem resultado.


A "MAYANGA DO POVO"
Existente nos subúrbios de Luanda e que durante séculos abastecendo
de água potável as classes pobres de Luanda.

Os primeiros datam de 1645, do tempo dos holandeses, no curto período da invasão, ao pretenderem trazer à cidade as águas do Cuanza, através dum canal que projectaram e que parece viria desembocar a mais de uma légua de Luanda.

Posteriormente, ao Governador Tristão da Cunha, é recomendado pelo Governo, no regimento que lhe deu em 10 de Abril de 1666, que - «velasse pelo concerto e reparo da lagoa dos Elefantes (onde se encontram os «Poços da Maianga»), como quem sabia o muito que importava ao abastecimento da população».

Mais tarde, em 1753, o Governador D. António Álvares da Cunha, Conde da Cunha, estuda, pessoalmente, o problema da canalização das águas do Bengo e Cuanza.

Por sua vez, D. Francisco Inocêncio de Sousa Coutinho nas cisternas do Penedo, S. Miguel e do Terreiro,- «deixa evidente a prova de que não teve em menos conta a grande necessidade de Luanda».

Em 1813, o Governador José de Oliveira Barbosa, aproveitando as - «supostas aptidões do degredado político José da Cunha e Sousa Alcoforado, encarrega-o do estudo e imediato seguimento da construção de um canal de Calumbo a Luanda».

Goradas, quase sempre, todas estas iniciativas em que os poderes públicos se empenharam, sómente em 1865 é que o estudo da questão renasceu.

Sob a égide do Engenheiro Angelo de Sárrea Prado, foi planeada a constituição de uma companhia por acções, a fim de abastecer a cidade com água do rio Bengo, tendo sido, para o efeito, convidados os habitantes de Luanda a subscreverem-se com as quantias que entendessem, por não estar ainda fixado o valor de cada acção.

Esta companhia não se chegou a formar, - os subscritores de Angola conseguiram ainda inscrever-se com importâncias que atingiram 55.150$000 (Boletim Oficial n.° 8, de 29/2/1869),- pelo que a concessão que lhe fora outorgada, em 1874, foi declarada sem efeito, em 1885 (Boletim Oficial n.° 6, de 8/2/1886).

O referido Engenheiro Sárrea Prado, fez, no entanto, um curioso reconhecimento do rio Bengo e estudo dos vários aspectos ligados ao assunto, como consta do relatório que elaborou e vem inserto no Suplemento ao n.° 2 do Boletim Oficial de 13 de Janeiro de 1869.

Várias outras empresas surgiram posteriormente, requerendo a respectiva concessão, mas sem que fossem atendidas.

O próprio Governo da Colónia, em 1877, e a Câmara, em 1880, no intuito de apressarem a solução do problema, solicitaram do Ministro do Ultramar autorização para levantarem empréstimos de 900 e 500 contos respectivamente, destinados às obras de canalização da água do rio Bengo para Luanda.

Sob diferentes pretextos, estes pedidos não foram, porém, considerados tendo resultado improfícuos todos os empreendimentos que se tentaram, com razão podia, em Fevereiro de 1886, o Ministro Pinheiro Chagas, afirmar: «... Luanda continua hoje a morrer à sede entre dois rios, cujas águas podiam há muito correr a jorros nas ruas da capital da província...».

De facto, nessa altura o abastecimento de água potável à população de Luanda, era feito, como trezentos anos atrás, pêlos chamados Poços da Maianga, conjuntamente com a água trazida do Bengo em pipas, transportadas por barcos.

A situação apresentava-se de tal forma angustiosa, pois com o aumento da população da cidade, a água ia-se tornando insuficiente, subindo, por vezes, a preços tão exorbitantes que, no seu relatório, de 2 de Janeiro de 1886, a Câmara, chegou ao ponto de propor a seguinte solução: «... Finalmente, porque a calçada a construir (que partiria do Bungo) vai entroncar no aqueduto da estrada do Cacuaco, fixando o mesmo aqueduto, para obrigar as águas pluviais, que, pelo declive, vem hoje para o Bungo a passarem todas para a lagoa de Quinaxixi, a qual, em anos de chuva, receberá água para alimentar a cidade toda para mais de um ano, depois de limpa e rodeada com um pequeno muro...».

Tem-se noção exacta do que representava tal medida, ao saber-se que a referida lagoa, que ficava por trás do edifício dos Serviços de Agricultura, no Largo dos Lusíadas, - «fora mandada abrir pêlos antigos frades do Carmo para receber as águas da chuva que se destinavam ao seu gado vacum, que tinham nos seus currais, perto daquele sítio» - conforme informa José Pontes Pereira em artigo publicado no Jornal de Luanda de 27/1/1879. Sómente em princípios de 1886, ao celebrar-se o contrato entre o Governo e Alexandre Peres para o - «abastecimento de Luanda dentro dum prazo de três anos com águas do rio Bengo, tomadas em Quifangondo ou nas suas imediações», o assunto veio a ser encarado com carácter definitivo.

As principais condições estabelecidas neste contrato encontram-se resumidas nos seguintes passos do discurso que o Capitão de Engenharia Pedro Folque, como representante, do concessionário, proferiu no acto da inauguração de água à cidade: «... O Estado apenas emprestou para ser amortizado em 99 anos um capital simplesmente representado pelo direito senhorial da cunhagem de 550 contos de moeda de cobre, entregues em Luanda ao concessionário.

O preço do metro cúbico de água é proporcional ao consumo entre os limites de 500 e 350 reis, além da valiosa vantagem para o Estado e para o Município de haverem 20 % de abatimento no preço da unidade, quando o seu consumo especial exceda 25 metros cúbicos por dia».

Os trabalhos, executados de harmonia com o projecto elaborado em 1877, pelo director das Obras Públicas de Angola, Major Arnaldo de Novais Rebelo, foram entregues, por empreitada geral, à Compagnie Générale dês Conduites d'eaux de Liége, tendo sido dados por concluídos "três anos depois: - em 2 de Março de 1889.

Nesse dia, pelas 10 horas da manhã, no local onde se achavam construídos os reservatórios destinados aos depósitos das águas, e depois destes terem sido benzidos pelo Bispo de Angola e Congo, D. António Leitão e Castro, foram pelo Governador-Geral, Conselheiro Guilherme Augusto de Brito Capelo, abertas as adufas, correndo as águas imediatamente para o encanamento da cidade.

Deste modo, ao fim de 313 anos, contados desde a data da sua fundação, em 1576, via Luanda resolvido o problema de fornecimento de água à sua população, o que, no dizer do Prelado Diocesano, na alocução que proferiu, a devia transformar - «num deleitoso jardim, num oásis encantador, à margem da baía sorridente e calma, onde as águas transparentes do Atlântico vêem repousar dos tormentosos embates do mar alto, embaladas pela fiel briza loandense, que tanto refrigera os estos do litoral».

http://www.casadeangola.org/RATO/agua%20luanda/agua%20luanda.htm