ANGOLA: país rico, povo pobre

24 de Julho de 2003.

Cerca de um milhão de barris de petróleo exportados por dia, multinacionais petrolíferas que vão a render 20 mil milhões de dólares em cinco anos, diamantes em abundância pareceriam suficiente para dar bem estar aos angolanos. No entanto, a quase totalidade do crude desaparece imediatamente para as refinarias do Texas e Luisiana, seguindo a antiga rota dos escravos. A corrupção e a guerra somaram sequelas. Hoje, 83% da população vive abaixo do nível da pobreza. Os jornalistas Serge Michel e Serge Engerlin, do Le Temps, que fizeram uma grande investigação durante cinco meses sobre a rota do ouro negro, desde o Texas ao Iraque, estiveram em Angola e dão uma visão desse país.

Por: Serge Michel e Serge Enderlin

Que procuram? Petróleo? Bernardo Azevedo, um negro magro e barbudo, obstruiu a estrada. Forma parte da gente que mede a sua importância segundo o problema que pode criar. Será necessário muitas conversa, recomendações angolanas e internacionais, para acabar com o seu procedimento vaidoso. O caminho desce ao longo dos do antigos depósitos da época portuguesa. Sobre a praia, as mulheres procuram mexilhões (mabangas) na areia. Bernardo Azevedo assobia aos homens que estão perto. Pede-lhes que cavem na areia a seus pés. Depois de algumas pazadas, a areia fica negra. Uns minutos mais tarde, vindo não se sabe de onde, um óleo escuro brota do fundo do buraco. Um miúdo contente enche ali um garrafa de Coca Cola americana, que mostra rindo-se. Ouro negro a 50 centímetros de profundidade? Bendito seja o povo do Eldorado! Afortunados angolanos. Que outra terra se mostra tão generosa?


Plataforma petrolífera na Baía de Luanda (foto Net)

No entanto, ao levantar a cabeça, só há desolação. Na margem, uns restos decompõe-se no meio de imundícies que flutuam. Do lado da cidade estende-se numa pendente suave o precário bairro da Boavista. Os mais afortunados vivem em barracas no cume, exactamente por baixo do cimo do Miramar, porque as embaixadas alinhadas ali no alto, deitam-lhe cada noite o lixo sobre a cabeça, no qual há sempre algo para comer e suprir o que lhes falta. Na Boavista, não há água corrente nem electricidade. Tudo pára quando cai a noite. Faz pouco tempo, os seus habitantes vinham buscar o crude à praia, para iluminar as cubatas de terra e plástico.

Frente a este perigoso precedente, ao ver a povoação aproveitar-se do "seu" petróleo, as autoridades proibiram a extracção artesanal com o pretexto de que se refinava mal e causava explosões. Em troca, deram poder a um punhado de aproveitadores, como Bernardo Azevedo. "O sector que dirige estende-se desde aqui para a esquerda, até um montão de lixo, ali à sua direita", diz com orgulho o nosso pequeno explorador. Com a sua equipa, faz uns quinze barris de 200 litros por dia, transporta-os em carros puxados por mulas e vende-os a 8 dólares por peça na refinaria Total, ao fim da enseada.

Angola em síntese: país rico, povo pobre. Cerca de um milhão de barris exportados por dia, multinacionais petrolíferas que vão a render 20 mil milhões de dólares em cinco anos, diamantes em abundância. Mas aqui, o petróleo é "off shore" (extra territorial), extraído por plataformas que multiplicam os recordes a grande profundidade. A quase totalidade deste crude desaparece imediatamente para as refinarias do Texas e da Luisiana, do outro lado do Atlântico, seguindo a rota do escravos.

"Off shore" são também as contas bancárias do regime de Dos Santos, alimentadas com os pagamentos ocultos das companhias de tráfico de armas. Quanto aos 12 milhões de angolanos comuns, eles estão aqui. Com um terço das crianças que morrem de doenças ou com fome antes dos 5 anos, 83% da povoação por baixo do umbral da pobreza e 70% sem acesso a água potável, 10 milhões de minas anti pessoais na terra 500.000 mortos numa guerra civil que terminou o ano passado com a morte do chefe dos rebeldes da UNITA, Jonas Savimbi.

Enclave de Cabinda

O padre Jorge Casimiro Congo celebra a sua missa cedo. O Sol levanta-se apenas neste domingo, quando a sua igreja, à beira do mar, se enche de fiéis. São várias centenas, sentados até no pátio. Dentro, um grupo de mulheres cobertas com panos azuis cantam e dançam a Avé Maria. Depois de estudar em Roma e em Friburgo, o padre Congo voltou ao seu torrão natal. As suas denúncias frequentes das injustiças sofridas pelo povo de Cabinda, as tentativas de intimidação e inclusivamente de ameaças de morte que tem recebido e a sua simpatia pela luta que conduz a Frente de Libertação do Enclave de Cabinda (FLEC) contra o governo de Luanda fazem que cada semana os seus sermões sejam um grande movimento político.

Esta manhã, depois de alguns minutos puramente bíblicos, a homilia deriva: "Somos os filhos da misericórdia de Deus. Liberta as almas dos corpos, dos povos, das nações". Antes de entrar simplesmente no cerne da questão: " Deus não pode aceitar o que vivemos. O governo mata-nos e oprime-nos. Trata-nos como se fossemos vacas que pastam no seu campo de petróleo".

A Cabinda Gulf Oil, propriedade dos norte americanos de Chevron Texas com participação da Total e Agrip, produz 420.000 barris por dia (60% do petróleo angolano) em Cabinda, pequeno enclave de 160.000 habitantes, localizado entre a República Democrática do Congo (RDC, ex Zaire) e o Congo Brazzavile, separado do resto de Angola por uma estreita franja de terra. Consta de três territórios bem distintos. Na parte costeira, está a base onde se produz o petróleo. No sector continental, uma floresta onde se combate. Entre os dois, uma cidade, uma estrada e algumas povoações (kimbos) miseráveis.

Comecemos pela base, inaugurada em 1968 num local chamado Malongo. Os expatriados vivem ali como nos Estados Unidos, com o seu próprio aeroporto, uma pequena refinaria para as suas necessidades imediatas, uma central eléctrica, supermercados. Impossível entrar. Pode-se somente ladear a fortificação de 12 quilómetros, com dupla camada de arame farpado.


Malongo (foto Cabinda Site)

Que se passa dentro? Escutemos Ernesto Rodrigues, antigo empregado no serviço de pessoal. Descreve uma sociedade a três velocidades, dominada por 500 expatriados anglo saxões e portugueses, secundados por 1500 angolanos de Luanda alguns mestiços e servidos por 900 cabindenses (cozinheiros, condutores, criados). Ele ganhou reputação de activista por ter denunciado actos de racismo ordinário e intentando convencer a base interessar-se pelo enclave. "Consegui que Chevron construísse uma escola e uma povoação. Mas quando propus uma segunda, respondeu-me: O nosso negócio é o petróleo, não as escolas"

De facto, os dirigentes da Cabinda Gulf Company tem tão pouca intenções de manter a menor relação com os selvagens que os rodeiam que a cada renovação do parque informático, destroem centenas de computadores e os enterram no mato em vez de doá-los às escolas de Cabinda.

O mato é outra história. Junto aos Congos, alberga 2000 guerrilheiros da FLEC divididos em duas facções, a Flec-Renovada e a FLEC-FAC. Em Outubro de 2002, 10.000 soldados governamentais lançaram uma grande ofensiva contra eles, uma vez que ficaram "disponíveis" para reprimir o separatismo cabindense depois da paz assinada em Abril com a UNITA. Uma tremenda informação publicada por uma das fundações do financiador e filantropo norte americano George Soros enumera as atrocidades cometidas pelas tropas de Luanda (massacres, execuções sumárias, violações de mulheres e jovens, tortura, deportação de povoações inteiras, saques, destruição de colheitas) e pela guerrilha (sequestro de estrangeiros e cobrança de um imposto de guerra; aos que não pagam contam-lhe o nariz e as orelhas).


Porto americano de Malongo (foto Cabinda Site)

Fica o povo, entalado entre os exploradores do petróleo e os combatentes. A sua miséria começa a 300 metros da entrada da base, na povoação de Futila. É ali que Chevron esteve de acordo, faz oito anos, em construir uma escola primária. Mas é ali também onde o petróleo sai das velhas instalações e se espalha pela praia, causando a ruína dos pescadores e sérias intoxicações nos habitantes. "Organizámos em Dezembro de 2002 uma marcha de protesto contra a contaminação – diz um habitante de Futila - . Éramos 200 pescadores. Vieram a dispersar-nos em helicóptero. "Na cidade de Cabinda, 70% dos habitantes não tem acesso a água potável. É necessário estar cindo horas na fila para obter combustível na única estação de serviço do enclave que fornece gasolina a tantos automobilistas norte americanos.

Luanda, a capital

Os ricos da capital amontoam-se em Miami Beach. Este restaurante situa-se quase no final da Ilha, uma franja de terra em frente à capital. Esta tarde, todas as cadeiras de praia estão ocupadas e guardadas por homens armados e não há nenhuma mesa livre na sala aberta à sombra dos coqueiros. Num país sem de petróleo, tais clientes, capazes de gastar a metade de um salário médio numa refeição e uma garrafa de vinho, seriam industriais, banqueiros o profissionais de alto gabarito. Mas em Angola, basta ser um depredador, quer dizer, um beneficiário das generosidades de um dos três centros de poder: Futungo, como se chama aqui a presidência; Sonangol, a companhia petrolífera nacional ou o exército.


Miami Beach na Ilha de Luanda (foto Net)

O sistema, que tem por único objectivo a manutenção no poder do regime, consiste em alimentar um número limitado de privilegiados e reprimir todos os demais. Foi chamada "a república dos dominantes" Algumas centenas de famílias podem assim enviar os seus filhos a estudar para Inglaterra, comprar bons automóveis com ar condicionado, telefones celulares e produtos de marca em lojas discretas, tão bem fornecidas como perfeitamente impossíveis de encontrar para quem não conhece a direcção e a contra senha que permitirá abrir a porta.

A corrupção perverteu a economia do país e fez de Luanda uma das cidades más caras do mundo. Devora cada mês milhões de petro dólares. A organização londrinense Global Witness revelou em Março de 2002 que faltavam nas contas do Estado em 2001, 1,4 mil milhões de dólares. Quanto ao processo Elf e o "affaire" de Angolagate, de que se agarram a Justiça francesa e a Suiça, dizem que o presidente José Eduardo dos Santos não se esqueceu de encher os seus bolsos – é o cidadão mais rico do país – e que as petrolíferas ocidentais se dedicam em grande ao jogo dos pagamentos ocultos.

Fonte: Le Temps, diário suíço surgido da fusão, em 1998, de Noveau Quotidien, Journal de Geneve e Gazette de Lausanne. É um importante meio de informação, com boas investigações sobre temas internacionais.

Tradução livre.

http://www.cubafar.com/forum75/forum_posts.asp?TID=339
http://www.letemps.ch/