NEGÓCIOS

Sexta Feira, 27 de Fevereiro de 2008.

Modernização. Luanda pretende relacionar-se com as maiores economias do mundo e conta com Portugal entre os prinicipais parceiros no processo de desenvolvimento diz ministro adjunto do primeiro-ministro. A reforma fiscal vai avançar ainda este ano.

Angola quer ser potência tecnológica "a curto prazo"


Aguinaldo Jaime Ministro Adjunto
   do Primeiro-Ministro de Angola

O crescimento económico de Angola contrasta com os elevados índices de pobreza do país.
Má redistribuição da riqueza é evidente

Governante angolano jantou em Lisboa com empresários portugueses

ANA TOMÁS RIBEIRO

Angola quer diversificar as suas parcerias e relacionar-se, "numa base de igualdade", com as principais economias do mundo. O objectivo é ser "uma potência tecnológica, num futuro breve". Quem o disse foi Aguinaldo Jaime, ministro adjunto do primeiro ministro angolano, em declarações ao DN.

"Queremos ter acesso às melhores tecnologias, a capitais e a know-how. Fundamentalmente porque Angola quer ser uma potência tecnológica", afirmou. Por isso, o país "fez um grande esforço" para regularizar as suas dividas com o Clube de Paris (que tem como membros permanentes Alemanha, Austrália, Áustria, Bélgica, Canadá, Dinamarca, Espanha, Estados Unidos, Finlândia, França, Holanda, Irlanda, Japão, Noruega, Reino Unido, Rússia, Suécia e Suíça), normalizando assim as suas relações com economias tão importantes como a francesa, inglesa, japonesa e espanhola. E já o tinha feito, mas numa base bilateral, com a Alemanha, Portugal e Polónia", explicou o governante.

Além dos membros do Clube de Paris, "temos outros parceiros importantes como o Brasil, Israel e a China", disse Aguinaldo Jaime, que esteve há duas semanas na capital portuguesa para participar numa conferência organizada pela Associação Comercial de Lisboa (ACL) sobre a internacionalização da economia angolana.

Na véspera, Aguinaldo Jaime jantou, no Ritz, com o presidente da ACL, Bruno Bobone, e alguns empresários e gestores portugueses, entre os quais Américo Amorim, na qualidade de accionista da Galp, e o presidente executivo da petrolífera Manuel Ferreira de Oliveira, Mário Mosqueira do Amaral, do Banco Espírito Santo, Fernando Ulrich, do BPI, e Filipe Soares Franco, da OPCA.

Durante o jantar discutiram-se questões relacionadas com os processos de internacionalização das empresas portuguesas para aquele mercado. Segundo fontes que participaram no encontro, Aguinaldo Jaime ter-se-á manifestado receptivo à ideia de criar um tribunal arbitrai em Luanda para dirimir eventuais conflitos entre empresas portuguesas e angolanas.

24% é o crescimento estimado para a economia angolana para este ano

Depois da situação regularizada com os membros do Clube de Paris, Angola, um país com muitos problemas ainda por resolver, entre os quais o da pobreza, pode agora contar com vários parceiros no seu processo de diversificação económica - um passo fundamental para reduzir a taxa elevada de desemprego (ver caixa). Um processo no qual Portugal tem um papel fundamental, considera o governante. E que também poderá contribuir para uma melhor redistribuição da riqueza, outro dos seus calcanhares de Aquiles.

Uma política fiscal mais justa, diz Aguinaldo Jaime, é outra das prioridade do Governo para este ano e uma das respostas para os problema da redistribuição da riqueza. "Temos em preparação uma reforma fiscal em discussão com a sociedade civil e as organizações socioprofissionais. Esta reforma poderá estar pronta ainda este ano", adiantou o ministro. A reforma fiscal poderá contar também com maiores receitas se o plano que o Governo tem em curso para integrar a economia informal tiver sucesso.*

10% é a taxa de inflação esperada para este ano. Já era a meta para 200?, mas ficou nos 11,7%

ECONOMIA CRESCE COM DESEMPREGO EM ALTA

Os principais indicadores macro-económicos de Angola são positivos, mas o país tem muito a fazer em matéria de redistribuição da riqueza. A inflação continua a sua marcha decrescente, mas ainda está alta. No ano passado, situou-se em 11,7%, embora o Governo tivesse como meta os 10% "Falhámos em 1,7 pontos, mas isto não nos parece significativo porque a economia está a crescer muito bem, acima de 18% no ano passado e este ano deverá subir ainda mais, acima de 24%", diz Aguinaldo Jaime. Para este ano, o Governo mantém o mesmo objectivo para a inflação, 10%. Agora temos grandes desafios. O primeiro deles é continuar o processo de diversificação da economia angolana, de modo a que não fique refém dos sectores petrolífero e diamantífero, porque estes são de capital intensivo e não promovem uma oferta maciça de empregos, tão necessários para combater uma taxa de desemprego elevada que, segundo estimativas, anda entre 20% a 25%", reconhece.

"China mostrou pragmatismo que outros não"

A parceria entre a China e Angola está a correr bem?

Sim. A China só ganhou uma certa predominância porque revelou um pragmatismo que outros países não tiveram.

A que pragmatismo se refere?

Angola teve sempre contratos de fornecimento de crude que amparavam linhas de crédito com Espanha, Portugal, Brasil e outras economias. Mas no momento em que Angola estava confrontada com um relacionamento difícil com as instituições financeiras internacionais, Banco Mundial e Fundo Monetário Internacional (FMI), um pouco antes de se iniciar o seu processo de paz, foram os chineses que, percebendo isso, vieram propor-nos que lhe cedêssemos petróleo em troca dos fundos de que necessitávamos para reabilitar e modernizar as infra-estruturas. Puseram à nossa disposição um pacote de dois mil milhões de dólares contra o fornecimento de crude, sem nenhum condicionalismo político e com condições de empréstimo muito competitivas. Hoje, Angola já é um dos maiores fornecedores de petróleo da China e os chineses estão a recolher os dividendos desta cooperação. Por isso, quando me vêm falar do fantasma da China, eu respondo que Angola virou-se para aquele país porque não teve alternativas. Se a conferência de doadores se tivesse realizado, se a comunidade internacional não fosse tão inflexível para um país saído de um conflito, se calhar a trajectória teria sido outra.

Que papel poderão ter a Rússia e os Estados Unidos no desenvolvimento da economia angolana?

Os Estados Unidos já têm um papel muito importante no sector petrolífero. No não petrolífero começam a expandir-se, mas sinto que a sua presença noutros sectores já poderia ser mais significativa e não o é por causa de alguma percepção que ainda existe sobre Angola, de um país com doenças endémicas e pouca segurança. Quanto à Rússia, a sua relação com Angola passa mais pelo sector privado do que pelo público. Contudo, a Rússia tem um grande mercado, mas as longas distâncias que separam os dois países, aliadas à publicidade negativa sobre Angola, fazem com que os empresários russos ainda não tenham visto o mercado angolano como prioritário para os seus investimentos.*