TempoLivre - Nº169 2006  www.inatel.pt

ANGOLA

O país do futuro

Em Angola, a esperança saiu à rua nas semanas a seguir ao 30º aniversário da Independência do país e ao apuramento da selecção nacional de futebol para o Mundial de 2006 onde, curiosamente, vai ter a sua estreia num jogo frente a Portugal. Vive-se uma sensação de optimismo, de que há mercado para todos neste país em crescimento económico acelerado, mas em que o poder de compra de alguns aumenta em contraste com a miséria que ainda grassa nas ruas.

Luanda está povoada de vendedoras de fruta, peixes e legumes, que descem à cidade vindas do mercado Roque Santeiro (um dos maiores mercados a céu aberto do mundo), com alguidares à cabeça recheados de suculentas mangas, ananases ou carapaus. Ao fim da tarde, quando aumenta o trânsito nas ruas congestionadas da capital e não há lugar para estacionar e ir à padaria, surgem os convenientes sacos de pão fresco para levar para casa. Todos estes vendedores são geralmente afáveis e humildes, sem assediarem demasiado os passantes, como em certos países do Norte de África. Apenas não gostam que lhes tirem fotografias, por medo de represálias por parte da polícia, que passa o dia a persegui-los de um lado para o outro. Só as vendedoras de frutas e legumes beneficiam de alguma tolerância e condescendência.


Kitandeiras (foto TempoLivre)

Milhares de desempregados encontram na venda ambulante uma solução de recursos para os seus problemas de sobrevivência. Estão, na sua maioria, ao serviço de comerciantes libaneses, indianos e chineses, que os abastecem a partir dos seus armazéns. Tudo se vende e tudo se compra nas ruas de Luanda: cabides de plástico ou de madeira, malas com as ferramentas mais diversas, acessórios de automóveis, bicicletas para criança, isqueiros para o fogão, sapatos desportivos, jornais e revistas, tapetes, candeeiros de quarto, tábuas de passar a ferro, malas de viagem e os inevitáveis relógios e óculos de sol.


Avenida Marginal (4 de Fevereiro) foto TempoLivre

Surpreendentemente, quase não se vê artesanato à venda na rua. Num país que ainda recebe muito poucos turistas, a oferta de artesanato é limitada a dois ou três mercados na Ilha e nos arredores de Luanda e a uma ou duas lojas no centro.


Av. Marginal (4 de Fevereiro) foto TempoLivre

Apesar de estarmos num dos países mais pobres do mundo, ninguém se surpreende com os modelos topo de gama que circulam em Luanda: dos Porsche, Mercedes e BMW, aos novíssimos Hummer e jipes japoneses importados directamente do Dubai por 50 mil dólares. Por força do afluxo de capitais decorrente das vendas de petróleo e diamantes, Luanda tornou-se numa cidade estupidamente cara - ao nível das mais dispendiosas do mundo - onde não é possível comer num restaurante por menos de 50 dólares por cabeça, (se o estabelecimento for tipicamente angolano, esse valor ronda os 15 dólares).


Ilha de Luanda (foto TempoLivre)

Ligada à Marginal por um aterro, a Ilha de Luanda converteu-se na "cidade dos ricos": aqui se concentra a melhor oferta de bares e restaurantes, com magníficas esplanadas viradas para a baía ou para o mar.

MUSSEQUES A PERDER DE VISTA

Mas o mais impressionante para o viajante que aterra em Luanda, é a extensão a perder de vista dos bairros de musseques nos arredores da capital. Este mar de favelas foi crescendo desordenadamente e sem o mínimo de condições de salubridade durante os anos de guerra, à medida que as populações do interior procuravam refúgio dos combates e da fome na grande cidade. Hoje, vivem em Luanda mais de quatro milhões de habitantes (cerca de um terço da população do país), a grande maioria dos quais são jovens sem qualquer tipo de raízes nas províncias de origem dos seus pais e avós.


Musseque - Praia do Bispo - Samba (foto Net)

O trânsito, como é de esperar numa cidade africana, é caótico. Impera a lei do mais forte nos cruzamentos - há um privilégio tácito para os jipes e veículos de gama alta - e quem circula nas rotundas não tem necessariamente prioridade. As ultrapassagens fazem-se pela esquerda, como pela direita e todos os espaços livres são preenchidos num afã por chegar mais cedo. Esta prerrogativa esbarra inevitavelmente nos constantes engarrafamentos que ocorrem nas ruas de Luanda a qualquer hora do dia - apenas de manhã, bem cedo (6h00) se consegue circular sem constrangimentos da Baixa para o aeroporto. Mas, a esta hora, todos os cuidados são poucos e o risco de acidentes é redobrado.


Musseque (foto Net)

Caminhar pelas ruas pode ser uma experiência angustiante para os viajantes habituados a andar de carro com motorista, da saída do hotel ao restaurante ou ao escritório. Como não há turistas e todos os expatriados que trabalham em empresas instaladas em Luanda usam carro próprio, não há praticamente táxis. A cidade é dominada pelos chamados "candongueiros", carrinhas Hiace de cor azul e branca, com condutores que correm como loucos pelas ruas, servindo os bairros periféricos não cobertos pelos transportes públicos oficiais.


Lojas de musseque (fotos Net)

A maior dificuldade para quem circula a pé é atravessar as ruas. Escasseiam as passadeiras e os sinais luminosos que, no entanto, são respeitados ao contrário do que sucede noutros países africanos. Outro desafio é o de evitar pôr "a pata na poça" dos esgotos a céu aberto que correm nalguns passeios ou conseguir traçar o seu caminho no dédalo de carros estacionados em cima do passeio, evitando as crateras causadas pela degradação dos mesmos ou a ausência de tampas nos buracos de esgoto (só os que estão entupidos até ao cimo, não representam perigo).

"MANHATTAN" AFRICANA

Todavia, o surto de construção civil que se verifica, actualmente, em Luanda vai alterar completamente a paisagem da capital angolana, transformando-a nos próximos anos numa verdadeira "Manhattan" africana. Junto à famosa marginal, estão a ser erguidas novas torres com mais de 20 andares de escritórios das companhias petrolíferas Esso e Sonangol. No entanto, o maior dos arranha-céus de Luanda, com 25 andares de escritórios, habitação e espaços comerciais, vai ser construído pela Escom Imobiliária no bairro Miramar, dominando a cidade e a baía. E, mesmo ao lado, vão nascer duas torres de apartamentos com 18 andares.


Hotel Trópico (foto TempoLivre)

A capacidade hoteleira de Luanda está quase sempre esgotada, nomeadamente, os hotéis mais escolhidos pelos homens de negócios (Trópico, Alvalade, Tivoli e Continental), mas já existem projectos para a construção de mais cinco hotéis. No segmento da habitação, prevê-se um grande desenvolvimento na zona de Luanda Sul, com a construção de residências para a classe alta e média-alta, enquanto o Governo procura realojar em bairros construídos pelos chineses, as populações que habitam os musseques construídos em pleno centro da capital e os ocupantes de prédios não acabados. Os chineses estão, igualmente, a construir o futuro aeroporto internacional de Luanda, no Bom Jesus, a cerca de 30 quilómetros da capital (será construída uma auto estrada de ligação). Vai ser dotado de duas pistas e deverá estar concluído dentro de três anos.


Praia do povo na Ilha de Luanda (fotos TempoLivre e Net)


Praias dos ricos.  Ilha do Mussulo e Miami Beach na Ilha de Luanda (fotos Net)

No Mussulo e na Ilha de Luanda, os visitantes podem desfrutar, praticamente durante todo o ano, de belas praias de água tépida. Na provínicia, destacam-se as praias da Corimba, Palmeirinhas, Bengo, Cacuaco, Santiago, Pambala (som sete quilómetros de extensão), Cabo Ledo e Ambriz. Em alternativa, podem optar por visitar o Mira douro da Lua, o Morro dos Veados, as barras do Bengo e do Kwanza ou a Lagoa do Kilunda, no Cacuaco. No Parque Nacional de Quissama, a Sul de Luanda, podem observar-se diversas espécies, como elefantes, palancas vermelhas e pacaças. O litoral do parque é também local de desova das tartarugas marítimas.

NEGÓCIOS CRESCEM NO NAMIBE

Banhada pela Baía de Moçâmedes, a capital da Província do Namibe é uma cidade desafogada, com uma atmosfera e um clima muito agradável. Nas ruas, a vida corre dolente, sob o calor africano (excepto de Junho a Setembro, meses mais frescos, de cacimbo e céu nublado) de uma região de transição para o deserto do Namibe. e onde raramente chove. Muitos edifícios do tempo colonial deixados pelos portugueses estão bem conservados - alguns deles remontam a 1946, como os do bairro vizinho do Hotel Moçâmedes, a estação de caminhos-de-ferro e os correios. Só o velho cine - teatro, na avenida principal, aguarda ainda quem o recupere.


Praia do Namibe 1975 (foto Net)

O Namibe era um "fim do mundo", mas no espaço de um ano, abriram aqui cinco agências bancárias, novas lojas e restaurantes, além de um sem número de melhorias em infra estruturas públicas (vias rodoviárias, iluminação, etc...). Fruto, tudo indica, da onda de desenvolvimento económico que chegou recentemente a Angola. No dia da comemoração dos 30 anos de Independência, foi inaugurado o Mercado do Peixe do Namibe, embora a maioria das vendedoras continue a ficar no terreiro ao ar livre para não ter de pagar o aluguer de uma banca. Vende-se peixe fresco, seco e frito (carapau, corvina, abrótea, cachucho) num enxame de moscas impressionante para estômagos mais sensíveis a estas paragens africanas.


Foto TempoLivre)

Também se assiste a uma revitalização da actividade económica, com investimentos portugueses no sector das pescas (a província do Namibe é o maior centro piscatório de Angola); japoneses na reabilitação do terminal portuário de minério; e chineses nas telecomunicações, electricidade e caminhos-de-ferro. O porto do O Namibe é o ponto de partida da via férrea de Moçâmedes, que liga o litoral às minas de ferro da Jamba (Huíla).


Zebras e Gazelas (fotos Net)


Avestruzes e Welwitchia Mirabilis (fotos Net)

A região do Sudoeste de Angola, que vai da costa atlântica até à zona planáltica do interior, abrange as províncias de Namibe, Huíla e Cunene. É talvez a área com mais atracções para os amantes da natureza, fotógrafos e praticantes de desportos ao ar livre.


Cascata da Huila (foto Net)

Nesta região encontram-se acidentes de terreno impressionantes (Serra da Leba e as fendas de Tundavala, a poucos quilómetros de Lubango), rios caudalosos, quedas de água espectaculares (Monte Negro e Ruacaná, na fronteira com a Namíbia), espécies vegetais únicas no mundo (como a flor Welwitchia Mirabilis) e uma grande variedade de animais selvagens nos parques e reservas de Namibe, lona, Bicuari e Mupa (rinocerontes pretos, leopardos, elefantes, palancas, gnous, elandes, avestruzes e zebras da montanha). Na costa atlântica, largas enseadas de águas calmas (como a famosa Baía dos Tigres), propícias aos desportos náuticos, pesca desportiva e banhos de sol nas extensas praias que nelas se formaram. É a região que habita uma das mais primitivas etnias de Angola, os bosquímanos, que mantêm intactos os seus costumes e tradições. •

Alexandre Coutinho [texto e fotos]

Pg.17 - Conselhos úteis

Atenção! O pais ainda não está preparado para o turismo. Muitos angolanos olham com espanto para quem tira fotografias e há pessoas que ainda dizem ser proibido tirar fotos em Angola. Abstenha-se de fotografar edifícios oficiais (militares e governamentais), bem como esquadras da policia e, pasme-se, quartéis de bombeiros!

Os policias podem interpelar os fotógrafos exigindo-lhes as necessárias autorizações. Dar "gasosa" (suborno) ainda é prática corrente para muitos angolanos, embora o sistema comece a cair em desuso nos procedimentos de embarque e desembarque no aeroporto. A criminalidade é real, geralmente constituída por pequenos roubos por esticão (malas, telemóveis, máquinas fotográficas), embora possam surgir situações originais como o roubo de cabelos! Evite comprar grandes peças de artesanato fora das lojas oficiais, já que as mesmas têm de levar um selo (no valor de 50 kwanzas) que é obrigatório apresentar no dia do embarque.

Evite, igualmente, levar fruta em grandes quantidades ou colocar ananases na bagagem (já foram confundidos com bombas!). Não precisa de trocar dinheiro em moeda local, porque poderá pagar praticamente tudo em dólares (pode é receber o troco em kwanzas). Gaste todos os kwanzas antes de partir, dado que é proibido exportar a moeda local e os montantes encontrados podem ficar retidos no aeroporto.

Nota. Como o texto tinha poucas fotos adequadas para o ilustrar, tomámos a liberdade de colocar algumas do nosso arquivo.