Dn 11 Novembro 2005

 

1975/11/11 MPLA proclama sozinho (sem UNITA nem FNLA) a indepência em Luanda, sob liderança de Agostinho Neto. Início da guerra civil.

1976/08/02 MPLA assume o controlo da província do Huambo, a base militar da aliança UNITA-FNLA que contesta o poder em Luanda.

 

1976 Em meados de Fevereiro, A FNLA abandona a luta armada, a UNITA continua a guerrilha com o apoio dos EUA e África do Sul.

1976/01/12 ONU reconhece o Governo do MPLA como legítimo. Desde 1974, 300 mil portugueses regressaram ao seu país de origem.

"Boom petrolífero vai financiar plano de reabilitação de Angola"

Dois terços da população angolana nasceram já depois da independência

ARMANDO RAFAEL

Trinta anos depois da independência, Angola contínua a ser um país de contrastes. De grandes contrastes. E continua a ser também um país adiado. Mesmo que muitos acreditem que Angola ainda está tempo de "cumprir o seu ideal".

Mas vamos, a factos. Quatro décadas consecutivas de guerra - colonial e civil - deixaram o país dilacerado, com muitas das suas infra-estruturas destruídas e com graves problemas sociais. A começar por Luanda, onde hoje vivem quatro milhões de pessoas (um quarto da população total do país). Com tudo o que isso implica, ao nível do desemprego e dos níveis de subsistência numa cidade que não estava, obviamente, preparada para acolher tanta gente.

O que ajuda a explicar fenómenos como os da insegurança que se fazem sentir numa cidade que é hoje uma das capitais mais caras do continente.

E, no entanto, Angola nunca atraiu - salvo, talvez, no período que mediou entre os Acordos de Bicesse e o recomeço da guerra civil, no início dos anos 90 - tanto investidores ou potenciais interessados em negócios como agora. Tudo por causa do petróleo angolano, que já ultrapassou a fasquia dos mil milhões de barris diários - numa altura em que os preços do crude parecem ter já estabilizado em alta e quando se admite que essa produção possa vir ainda a duplicar num prazo de cinco anos.

Uma perspectiva que deixaria Angola no centro de um dos maiores movimentos geradores de receitas que o continente africano já conheceu ao longo da sua história.

Se dúvidas houvesse, bastaria referir as estimativas elaboradas por investigadores independentes, e que apontam para a forte possibilidade de as exportações do crude subsariano (Angola, Nigéria, Congo-Brazaville, Chade e Golfo da Guiné) poderem vir a gerar receitas da ordem dos 349 mil milhões de dólares até 2019, sabendo-se que uma parte substancial desta quantia acabará nos cofres angolanos.


(foto DN)

Com uma enorme diferença: desta vez, o grosso destas receitas não se destina, como no passado, a financiar o esforço de guerra e a aquisição de novos equipamentos.

Talvez, assim, se percebam melhor as razões que levaram a China a abrir uma Unha de crédito de dois mil milhões de dólares destinada à reabilitação das infra-estruturâs angolanas. Ou a profusão de notícias que dão conta de novos investimentos ou que revelam o interesse de empresas e de empresários em sectores tão distintos como a banca ou a construção civil, passando pelas telecomunicações, o turismo, a agropecuária ou a indústria num impulso alicerçado numa rede de empresários nacionais e no forte crescimento dá economia angolana: 11,2% em 2004 e 14,7% em 2005; admitindo-se que estes números possam chegar aos 27% no decorrer do próximo ano.

Sem que isso tenha contribuído, até agora, e quando já passaram três anos e meio sobre a morte de Jonas Savimbi e a consequente desmilitarização da UNITÀ, para aliviar as dificuldades de quem, é obrigado a viver com menos dois dólares por dia, sem água potável nem cuidados de saúde.

Duras realidades não reflectidas nas estatísticas oficiais, para as quais dois terços dos angolanos com idades superiores a 15 anos sabem ler e escrever. O que não permite disfarçar a enorme carência de quadros que se faz sentir num país que surge em 160.° lugar no índice da ONU para o Desenvolvimento Humano ou que persiste em manter-se entre os Estados mais corruptos do mundo, segundo a Transparência Internacional.

Sinais muito contraditórios emitidos por um país que hoje está em festa - mesmo que dois terços da sua população tenha nascido já depois da independência - e que continua a acalentar o sonho de se converter numa potência regional, contando, para isso, com o seu peso e a experiência militar, além de um conjunto de riquezas naturais que estão muito para além do petróleo-diamantes, café, recursos hídricos, etc., etc.

Um sonho e pouco pais. Angola não tem, pelo menos neste momento, nem o número de quadros nem a população suficiente que lhe permitam transformar-se numa potência regional. Só para poder ocupar convenientemente o seu território (14 vezes o tamanho de Portugal), o número adequado de angolanos deveria, de acordo com os especialistas, rondar os 50 milhões de habitantes, o que está longe de se concretizar.

Como se isto não bastasse, as principais instituições do Estado - Parlamento, Governo e Tribunais - tardam também em afirmar-se. Como se comprova pelo sucessivo adiamento das eleições presidenciais e legislativas, deixando eternizar um quadro criado em 1992.

E isto depois de, num primeiro momento, se ter chegado a admitir que as legislativas pudessem vir a concretizar-se já em 2006, seguin-do-se as presidenciais em 2007, tudo aponta agora para a realização de eleições simultâneas dentro de dois anos, esperando-se que, até lá, se promovam as alterações legislativas necessárias.Mas, nessa altura, Angola será, com certeza, um país muito diferente daquele que é hoje.

Ficha técnica

Área: l 246 700 km2
Moeda: kwanza
População: 16 471 058 habitantes
Grupos étnicos: Ovimbundos (37%), Quimbundos(25%), Bacongos (13%), outros (22%)
Esperança média de vida: 40,1 anos
Taxa de natalidade: 44,64 por mil habitantes
Taxa de mortalidade Infantil: 191,19 por cada mil nascimentos
MB: US $1,030 (Banco Mundial, 2005)
Taxa de lnflação: 43,8% População abaixo do limiar da pobreza: 70%
Taxa de alfabetização: 42%
População angolana residente em Portugal: 26 400 (SEF, 2004)

Incografia DN

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