Nº 197 - Outubro 2008

INATEL www.inatel.pt


Miguel Anacoreta Correia

Angola: raids TT
na alvorada do turismo

Estava muito longe de supor que os artigos que foram escritos no passado mês de Julho em dois jornais diários, acerca do Raid Todo-o-terreno do Kwanza-Sul, despertassem tanta curiosidade. Mesmo com as férias pelo meio, as perguntas continuam a chegar.

E pergunto-me a mim mesmo, porquê? E só encontro uma resposta. O público português está muito receptivo às notícias de Angola, dadas por quem lá vá com espírito aberto e que não se limite a descrever o que viu e ouviu (mais ouviu do que viu) em Luanda. E em Luanda, apenas na cidade do asfalto...

Muitos portugueses querem saber como está a Angola "profunda". Todos sabemos já que Luanda está uma cidade "impossível". Preparada (e mal) para 500 000 habitantes, Luanda sofre os efeitos de quase 30 anos de guerra (e apenas seis de Paz). Uma das consequências é que a capital tem (deve ter) mais de 4 milhões de habitantes. Mas, Angola não é só Luanda...

A iniciativa do Raid TT, com três edições já realizadas, é do Governo do Kwanza-Sul e da Câmara Municipal de Almada, no quadro de um acordo de cooperação, que conta já muitos resultados positivos. O Raid visa, além de proporcionar um convívio entre angolanos e portugueses, mostra Angola. Aos próprios angolanos e ao exterior. E os resultados têm vindo num crescendo.


(Foto TL)

Em menos de ano e meio, por três vezes, estive no interior e no litoral de Angola. Fiz no total mais de 11 000 Km em jeep. Fui à maioria das Províncias. Falei com muita gente. Observei. Comparei e tirei conclusões.

Constatei, obviamente, as enormes carências da população que, por vezes, impressionam muito. Confirmei as enormes disparidades de riqueza, mas também que uma nova classe média se expande. E constatei, também, a grande energia posta na vontade de ultrapassar dificuldades. Observei a explosão do número de jovens, que têm uma ânsia enorme de aprender. As escolas transbordam e encontrei muitos alunos carregando à cabeça (e fazem-no todos os dias!...), a sua cadeirinha de plástico em que se sentam durante as aulas.

Agradou-me muito o ambiente de reconciliação e o desejo profundo de Paz que se respirava. Emocionei-me ao ver bandeiras do MPLA e da UNTTA hasteadas, lado a lado, em muitos "quimbos". Beneficiei do ambiente de segurança (contrastando com muitos outros países africanos), que me permitiu e aos meus companheiros ter ido em dois Raids, por exemplo, ao Kuito (ex-Silva Porto), ao Huambo (ex - Nova Lisboa), ao Lubango (ex - Sá da Bandeira), ao Lobito, a Benguela e à minha "cidade estrela": Namibe (ex - Moçâmedes)...

Fazer a estrada Benguela-Namibe, passando pelo Dombe Grande e pela Lucira, em estrada muito dura de pedra, ou fazer o percurso do Namibe à Foz do Cunene (ao longo das dunas do deserto, à beira-mar e apenas na maré baixa), são experiências que não se esquecem.


Quedas de água de Kalandula (Foto TL)

E como português não pude deixar de me emocionar com a expansão que a nossa língua está a ter. Foi impressionante, por exemplo, ver o relevo que a rádio angolana dava, enquanto galgávamos quilómetros e a escutávamos, no 10 de Junho, ao Dia de Portugal e à Língua Portuguesa.

Daqui a uns anos só será possível fazer um Raid Todo-o-Terreno, saindo dos itinerários principais... Impressionante, em matéria de estradas, a revolução que em ano e meio se deu... Será a hora da actividade turística começar a ter a expressão que merece.

São enormes as potencialidades turísticas de Angola. Segurança, gente afável e belas paisagens. Lembro o deserto do Namibe, a Tundavala, o Bimbe, as quedas de Kalandula (ex-Duque de Bragança), o rio Kwanza, a costa, as praias de Benguela. .. Tudo são cartazes turísticos de primeira...

Hoje o turismo em Angola ainda é difícil. As contrariedades começam na burocracia (obter um visto é um percurso para "atletas de fundo"), passam pelos bilhetes de avião (caros) e também pela oferta hoteleira (que, ainda que em grande progresso, é muito, mas muito cara e de nível ( insuficiente). Sinalização nas estradas é curiosidade de museu... Mas as coisas irão ao sítio...

Angola quer ser uma potência regional. E vai sê-lo. Tenho a certeza. Os seus dirigentes sabem que hoje não existem (no passado existiram...) potências que não se abram e não se queiram mostrar. O Turismo pode avalizar o exame favorável da Economia... E se, num país de tantas riquezas e com as condicionantes evidentes dos mercados africanos, o Turismo não terá, pelo menos durante muitos anos, uma posição cimeira na Economia, o que podemos afirmar é que, para além de constituir uma via incontornável para uma boa imagem internacional, é uma actividade de forte impacto social, pelo número de empregos que gera.

O meu desejo é de que, logo que o mercado turístico se torne mais abordável, a INATEL esteja na linha da frente nesse movimento de compreensão mútua de povos que terão muita coisa em comum a partilhar no futuro. •

anacoreta.correia@hotmail.com