Sábado, 1 de Novembro de 2008

Angola. Influências permitiram a Luanda contornar embargo

'Angolagate' atinge figuras políticas francesas


Eduardo dos Santos na recente campanha eleitoral
em Angola (Foto DN)

Tráfico de armas nos anos 90 está em julgamento em Paris

ABEL COELHO DE MORAIS

O julgamento a decorrer num tribunal de Paris sobre vendas ilegais de armas ao regime angolano, quando este estava sujeito a um embargo internacional, tem revelado profundas cumplicidades até aos mais altos níveis da vida política em França.

Tendo como centros o homem de negócios Pierre Falcone e o empresário russo-israelita Arcady Gaydamak, as primeiras sessões revelaram o envolvimento factual, entre 1993 e 1999, de figuras como o ex-ministro da Administração Interna Charles Pasqua, Jacques Attali, conselheiro de François Mitterrand, e do seu filho, Jean-Christophe Mitterrand - então na célula africana do Eliseu -, além de um escritor de ficção policial, Paul-Loup Sulitzer, na criação de condições para que o regime de Angola viesse a adquirir armamento para enfrentar a UNITA.

Outra figura central está a revelar-se um ex-colaborador de Pasqua, Jean-Charles Marchiani, que desenvolveu aquilo que o processo designa como "diplomacia paralela com Angola, completamente à margem" do MNE francês. Por estes serviços, Marchiani teria recebido, pelo menos, 450 mil dólares da Brenco, empresa de Falcone.

Esta será instrumental na concretização de muitos negócios, sendo boa parte do armamento canalizado para o regime de Luanda obtido através de uma empresa de Gaydamak - referenciado na época pelos serviços secretos franceses como "um peão essencial da máfia russa" em Paris. Em 1996, Pasqua não hesitará em pedir ao então presidente Jacques Chirac uma condecoração para Gaydamak. Acto contínuo, a associação política de Pasqua recebe um vultuoso montante da empresa de Falcone.

Mas, segundo o processo, foi Jean-Christophe Mitterrand que colocou em contacto Falcone com os intermediários angolanos. Uma das testemunhas tornou evidente o seu protagonismo ao dizer que "sem Jean-Christophe não teria havido contratos". Será amplamente recompensado em dinheiro e prendas. Attali, então no auge da sua influência como autor em França, foi intermediário entre representantes de Falcone e o então ministro dos Negócios Estrangeiros, Hubert Védrine. Segundo o processo, Luanda não deixou de mostrar a sua generosidade.*

Silêncio da banca

As instituições bancárias portuguesas, em especial a CGD e o BCP, cujos nomes surgem no processo como envolvidas nas transferências das comissões dos contratos de venda de armas para altas figuras do regime angolano, como ontem noticiou o 'Público', referiram ao DN não ser sua política mencionarem o nome de clientes nem os movimentos constantes das suas contas. Também não comentam o facto do nome das instituições serem referenciados no processo em curso na justiça francesa.