Terça-feira_13 de janeiro de 2015


            Mário Soares

ANGOLA E A LUSOFONIA

Quando estava no exílio em França, por ter sido expulso de Portugal pelo meu antigo professor de Direito Marcelo Caetano, conversei muito com jovens da Casa dos Estudantes do Império. Compreendi então que Portugal teria de dar a independência às nossas colónias, como outros fizeram, os ingleses e depois os franceses. Portugal não podia ser uma exceção. Era uma questão de tempo.

Quando se deu o 25 de Abril, que nos trouxe a liberdade e a democracia, era indispensável dar quanto antes a independência às colónias para vir a criar rnais tarde a CPL e a lusofonia. Gomo ministro dos Negócios Estrangeiros, nomeado pelo presidente general Spínola, comecei a ocupar-me da independência das colónias. O que me trouxe várias dificuldades, por Spínola e alguns portugueses quererem o fim das guerras coloniais sem lhes darem a independência. Uma impossibilidade absoluta, como se viu.

Curiosamente, o meu pai foi ministro das Colónias durante a I República e fez alguns trabalhos bem interessantes para desenvolver as colónias. Mas a situação após a II Guerra Mundial mudou, como se viu com a Inglaterra e a França. O ditador Salazar julgava que o mesmo não se aplicaria a Portugal. Enganou-se com o que chamava Estado Português da índia, e depois continuou a enganar-se com as guerras coloniais, sobretudo em Angola, Moçambique e na Guiné-Bissau.

Conheci Agostinho Neto quando estivemos ambos presos, ao mesmo tempo, no Aljube, embora em celas diferentes, graças a um guarda prisional que mais tarde haveria de ser preso pela PIDE. E depois do 25 de Abril, quando Spínola me enviou à Europa para lhe explicar o que tinha sido a Revolução de Abril. Foi então que tive a oportunidade de poder conversar com Agostinho Neto, na Bélgica, graças a um grupo católico da Universidade de Bruxelas que o ajudava.

No meu espírito, a independência de Angola como a de todas as outras colónias tornou-se uma inevitabilidade pacífica, criando-se a lusofonia. Ora a lusofonia é o mais importante para tudo o que tem que ver com Portugal, a começar pelo nosso querido Brasil, mas envolvendo também Angola, Cabo Verde, Moçambique, Timor e todos os Estados que falam a nossa língua comum.

Há poucos dias tive o prazer e a honra de receber na fundação que dirijo o atual embaixador de Angola junto da CPLP em Portugal, Luís José de Almeida, querido amigo desde o tempo em que estivemos ambos exilados em Paris.

Angola, que tanto aprecio, como uma grande e rica potência que hoje se encontra numa situação conjuntural difícil por causa dos Estados Unidos estarem a depreciar o preço do petróleo fazendo-o descer. É certo que Angola tem muitas outras riquezas, como por exemplo os diamantes, a terra fértil os rios e uma grande parte do Atlântico. E por isso sempre pensei que o Brasil, Angola, Cabo Verde e Portugal formassem um grupo atlântico de enorme importância.

A lusofonia vale mais do que muitos pensam. É por isso que não a devemos perder em todos os continentes em que existe.

Neste período é fundamental que a cooperação e a entreajuda de Angola com Portugal se reforce. O que este governo não sabe fazer.

É que tendo Angola de diversificar as receitas com base nos seus imensos recursos e tendo Portugal alguma experiência em setores fundamentais deve, enquanto país irmão, fazer o que puder para que Angola ultrapasse rapidamente as suas dificuldades.

Considero-me amigo do presidente de Angola, José Eduardo dos Santos, que conheço desde os Acordos de Alvor, mas infelizmente não conheço pessoalmente a sua filha e conceituada empresária Isabel dos Santos, que devendo ter o apoio da proposta que fez à Portugal Telecom foi e tem sido tão maltratada para que o governo português feche os olhos à venda da empresa a terceiros, que provavelmente a desmantelarão a seguir, falando já no despedimento de cinco mil trabalhadores.

Ora, o projeto da empresária Isabel dos Santos salvaguardaria a PT como empresa estratégica para a lusofonia.

No último Expresso, o ilustre jornalista Nicolau Santos denunciou esta mesma desagradável situação. O atual governo não se sabe guiar pelo interesse nacional nem tem qualquer noção da importância da lusofonia.

Comentários do editor do site. É incrível como este homem que contribuiu para a "descolonização exemplar" das colónias levando-nos a abandonar a terra que construimos com tanto trabalho e amor escreva um texto destes e tenha sido Primeiro Ministro, Presidente da República e seja hoje Conselheiro de Estado. Em que país nós estamos? Para provar a veracidade do nosso comentário sugerimos visitar esta página do nosso site. http://www.tpissarro.com/mariosoares.htm