17 de Setembro de 2009

Angola: a maioria do povo está a ficar mais pobre

Desde o fim das três décadas de guerra civil, que terminou em 2002, Angola tem tido um crescimento económico sem precedentes. já ultrapassou a Nigéria como maior produtor de petróleo em África e é o quinto maior exportador de diamantes do mundo. Mas, apesar de ter a economia em rápida expansão, dois terços da sua população continua a viver com menos de dois dólares por dia, segundo o Banco Mundial.

Por Louise Redvers, de Luanda para a IPS

Um motorista conduz um reluzente BMW com tracção às 4 rodas, saindo de um condomínio fechado e transportando uma executiva elegantemente vestida e os três filhos fardados, numa manhã como todas as outras na capital angolana, Luanda.

Ao deixar o seu escritório com ar condicionado para almoçar, a nossa executiva vai pagar 100 dólares pela sua refeição num café na marginal e gastar 300 dólares, sem qualquer problema, num pequeno número de produtos alimentares importados adquiridos numa luxuosa mercearia.

A poucas milhas de distância, uma outra mulher está sentada na berma de uma estrada poeirenta, uma entre muitas que vendem latas amolgadas com óleo de palma e tomates pisados. Estas mulheres sentam-se no chão ou em cima de baldes de plástico virados ao contrário, a poucos metros de uma vala cheia de lixo putrefacto.

Sem prestar atenção ao cheiro nauseabundo e aos enxames de moscas, ela faz tranças no cabelo de outra mulher e vê os filhos subnutridos a brincar em poças de lama perto dali. Ambas estas mulheres são angolanas, mas nunca se irão encontrar, e será pouco provável que alguma vez compreendam as realidades opostas uma da outra.

Desde o fim das três décadas de guerra civil, que terminou em 2002, o país tem gozado de um crescimento económico sem precedentes - com um crescimento médio anual do Produto Interno Bruto (PIB) de 15 por cento - graças aos elevados preços do petróleo e a milhares de milhões de dólares de investimento estrangeiro, especialmente na construção.

Produzindo aproximadamente 1.8 milhões de barris de petróleo por dia, Angola já ultrapassou a Nigéria como maior produtor de petróleo em África e quinto maior exportador de diamantes do mundo.

Mas, enquanto o país conquista o reconhecimento internacional pela sua economia em rápida expansão, dois terços da sua população continua a viver com menos de dois dólares por dia, segundo o Banco Mundial.

O Centro de Estudos e Investigação Científica (conhecido pela sua sigla em português, CEIC) da Universidade Católica de Angola ter registado uma taxa de desemprego da ordem dos 25%, mas refere que mais de metade da população está dependente do sector informal para gerar rendimento e que, nas zonas rurais, a maioria da população continua dependente da agricultura de subsistência.

Não há empregos

A expansão do sector petrolífero em Angola trouxe milhões de dólares aos cofres do Estado, mas criou muito poucos postos de trabalho, e os milhares de projectos de construção em todo o país - sinal de que o país está em reconstrução depois de muitos anos de guerra - usam principalmente trabalhadores provenientes da China e de outros países asiáticos. Em resultado, poucos angolanos têm beneficiado destas oportunidades de trabalho.

Segundo Alcides Sakala, porta-voz do principal partido da oposição em Angola, a UNITA (União para a Independência Total de Angola), o fosso entre aqueles que têm e os que nada têm continua a aumentar. "O que vemos é que uma pequena minoria de pessoas fica mais rica enquanto que a maioria do povo está a ficar cada vez mais pobre," disse à IPS.


Alcides Sakala (foto Net)

O fosso entre ricos e pobres é evidente por todo o lado, especialmente em Luanda, onde mendigos deambulam perto dos apartamentos no centro da cidade com rendimentos que podem elevar-se a mais de 25.000 dólares por mês, e onde as vítimas de minas ajudam os motoristas a parar os seus Veículos Utilitários Desportivos (SUV) excessivamente grandes, na esperança de ganhar alguns tostões para comprar uma refeição no fim do dia.

De acordo com o Índice de Desenvolvimento Humano das Nações Unidas (IDH) - que mede a riqueza, educação e esperança de vida dos cidadãos - Angola mostra poucos sinais de melhoria, apesar da sua riqueza petrolífera.

O Índice começa no zero, que significa desenvolvimento humano nulo, e acaba no um, que significa pleno desenvolvimento humano.

Na última contagem, o IDH de Angola era 0.484, comparado com 0.670 na África do Sul, 0.664 no Botswana e uma média de 0,541 em todos os países da Comunidade de Desenvolvimento da África Austral (SADC).

Embora haja dinheiro suficiente no país para construir hospitais privados para aqueles que podem pagar as respectivas tarifas, a maioria dos angolanos tem dificuldade de ter acesso até mesmo a cuidados de saúde básica, com falta de pessoal qualificado e de infra-estruturas, especialmente nas zonas rurais.



E,apesar de as escolas privadas cobrarem propinas astronómicas para educar os filhos da elite, um terço das crianças do país está fora do sistema escolar. Muitas ficam em casa para trabalhar e ajudar as suas famílias.

Douglas Steinberg, director da organização Save The Children em Angola, explica: "Existe um enorme fosso entre os ricos e os pobres aqui, e muitas pessoas não estão realmente cientes da enorme riqueza de Angola. As pessoas que vivem nas zonas rurais ou nas zonas centrais do país não vêem as plataformas petrolíferas offshore, não sabem qual é a enorme quantidade de dinheiro existente nem vêem as novas construções nem os carros com preços exorbitantes nem os restaurantes caros."

"Penso que isto faz parte do problema - se as pessoas não sabem como o país é rico, é mais difícil exigirem responsabilidades do governo a nível de como este gasta o dinheiro," acrescentou.

No seu Relatório Económico para 2008, o CEIC apontou a contínua existência de pobreza, um contraste directo com a crescente riqueza do país.

"O PIB aumentou cinco vezes entre 2003 e 2008 - de 959 para 4961 dólares em 2008," refere o relatório. "Mas, apesar disso, a grande maioria da população continua a viver num estado de pobreza permanente, sendo obrigada a sobreviver com pouco mais de dois dólares por dia."

O fosso aumenta

A irmã Domingas Loureiro dirige uma instituição de caridade que ajuda famílias pobres no sobrelotado bairro do Cazenga, um labirinto de casas construidas pela população, sem electricidade e com acesso reduzido a água e saneamento.

"As pessoas aqui lutam para sobreviver, e muitas crianças são forçadas a trabalhar a partir de uma tenra idade. A realidade da vida e o elevado nível de pobreza nestes bairros não é uma situação que o governo conheça em profundidade," disse.

No entanto, o presidente angolano, José Eduardo dos Santos, afirma conhecer a pobreza no seu país. Em Março, durante um discurso que proferiu ao lado do Papa Bento XVI, Eduardo dos Santos, há trinta anos no poder, reconheceu os "desafios tremendos" que o país enfrenta para reduzir a pobreza e o desemprego, e prometeu um investimento contínuo para resolver estes problemas.

Durante a visita da Secretária de Estado dos Estados Unidos, Hilary Clinton, que esteve em Angola em Agosto, o ministro das Relações Exteriores, Assunção dos Anjos, foi solicitado por um repórter do Washington Post a explicar como é que o maior produtor de petróleo em África tinha uma pontuação tão baixa em termos do IDH.

O ministro respondeu dizendo: "Dêem-nos tempo para resolver este problema. Temos mecanismos, temos vontade e temos as estruturas para podermos garantir ao nosso povo que pode viver em condições dignas. Infelizmente, a pobreza não pode ser resolvida com uma varinha mágica."

Para os cerca de cinco milhões de angolanos que vivem nos bairros de lata de Luanda, uma varinha mágica pode parecer a sua única esperança.

Fonte ESQUERDA http://www.esquerda.net/index.php?option=com_content&task=view&id=13681&Itemid=26