Américo Cardoso Botelho
Editora Vega
http://www.novavega.pt/Book.aspx?id=112

Neste excelente livro com 611 páginas o autor, relata minuciosamente o sofrimento nas prisões da DISA de todos aqueles que não concordavam com o regime marxista-leninista imposto por Agostinho Neto. Sugerimos vivamente a sua leitura a todos aqueles que estão interessados em saber a verdade sobre o golpe de Nito Alves no 27 de Maio de 1977, as atrocidades e violações dos mais elementares direitos do homem e ao povo de Cabinda cometidas nas prisões de Angola. Como o livro tem copyright e não será fácil de adquirir à maioria dos que vivem em Angola e sobre tudo na diáspora, extraímos apenas alguns extractos do texto que achámos mais importantes pelo solicitamos a complacência da Editora e do Autor. Por motivos de edição tivemos de eliminar no texto os números de chamada de atenção para as fontes pelo pedimos desculpa. Muito obrigado em nome de todos.

Memórias de Cabinda

Terra flagelada

Todo este livro fala de uma geografia do terror. As prisões angolanas tinham-se tornado um microcosmo onde se encontravam os rastos de um holocausto que incinerou o território angolano. Algumas províncias por razões estratégicas e étnicas foram particularmente violentadas.

Visitei Cabinda, pela primeira vez, em 1961. A província de Cabinda, abrangendo todo o enclave de Cabinda, era habitada, na altura da independência, por povos Banto da tribo Bakongo, provenientes do antigo Reino do Congo. A sua riqueza, num território de 7.283 quilómetros quadrados, era bem conhecida, o petróleo, a floresta do Maiombe. Foi pela mão dos padres do Espírito Santo que conheci o Sr. António Manuel Zebi Madeka, pai do Bispo Resignatário de Cabinda, D. José Paulino Madeka, ao tempo padre em Landana. O «pai Madeka», assim o chamavam, era o melhor conhecedor da sabedoria cabinda, como se reconhece na obra Sabedoria cabinda, símbolos e provérbios (1968).

Mas este povo de tão ricas tradições conheceu de forma muito particular as agressões da política do MPLA, apoiada na força cubana. Hoje, não há um cabinda que não tenha na família um caso de perseguição política, de desaparecimento, de atentado, ou de prisão.

O MPLA e as forças militares que o apoiavam assaltaram o Quartel-General do governo colonial, em Cabinda, no dia 2 de Novembro de 1974. Foi aliás necessário enviar de Luanda um avião para libertar o brigadeiro Themudo Barata, sequestrado em tais circunstâncias. Como conta João Coito em crónica jornalística, a despedida do brigadeiro teve, entre as emoções, qualquer coisa de profético:

"Como não sentir o abraço final que lhe deu Gaspar, serviçal do palácio com nome de rei mago, a murmurar-lhe ao ouvido: 'Não vá, não vá, senhor general, que rios matam a todos, não vá, salve-nos...' Súplica profética que deixou os dois homens de lágrimas nos olhos".

Em finais de 1975 começava a fuga em massa de milhares de cabindas para o Zaire e para o Congo Brazzaville por entre a vigilância cerrada e opressiva dos cubanos. Para o MPLA era uma glória sempre que deitava as suas garras a um guerrilheiro da FLEC. Mas isso acontecia mais raramente do que o MPLA queria fazer pensar. Bem sabiam os cubanos que era muito difícil roubar à floresta de Cabinda (o célebre Maiombe) qualquer guerrilheiro que nela se protegesse, mesmo com a ajuda de cães bem treinados, vindos, ao que parece, do Leste europeu. O cemitério onde estavam as baixas militares cubanas dava dessas dificuldades testemunho. Em 1977, já contava com cinquenta e quatro campas de cubanos defuntos.

Os militares cubanos estacionados em Cabinda tinham um tratamento claramente privilegiado diante dos outros militares angolanos. As tensões eram inevitáveis. Contaram-me, mesmo, que, em determinada altura, um batalhão defaplas (cerca de 362) militares se revoltou contra as chefias cubanas em razão do tratamento de que eram vítimas as populações e das carências logísticas que os afectavam a eles próprios.

A memória da tragédia de Cabinda tem alguns rostos gravados. António Jacinto, poeta de renome, é ainda hoje recordado em Cabinda pela tragédia que aí semeou quando dirigiu o Centro de Instrução Revolucionário segundo os métodos cubanos. A sua experiência das agruras do Tarrafal, durante o período colonial, não foi, neste caso, uma vacina contra as práticas opressivas.

Cabinda Parliament Nkoto Likanda Grand Assembly Meeting on the 30th of July 2007

Inferno, uma enciclopédia

Referi já que, na Diamang, tive à minha responsabilidade os transportes aéreos. A empresa tinha ao seu serviço dois Hércules, alugados à PWA do Canadá. A tripulação canadiana era chamada à acção quase diariamente para fazer o transporte de mercadorias, combustível e passageiros.

Foi um avião como este — durante alguns anos, com a respectiva tripulação, esteve ao serviço da Diamang — que veio a ser vítima de um grave sinistro no dia 18 de Novembro de 1976. Sobrevoava a região do Kisangani, no Zaire, e na floresta dessa região acabou por se despenhar. Tanto quanto apurei, a irresponsabilidade do pessoal da torre de controlo do aeroporto terá sido a causa principal — esse dia era feriado nacional, e os controladores estavam embriagados.

A pedido da PWA, o avião que estava naquela altura ao nosso serviço deslocou-se a Kinshasa para recolher os corpos. Nessa mesma viagem aproveitámos para preparar um carregamento de frigoríficos que se encontrava na alfândega de Cabinda. Aí me deixou o Hércules, pois para o Zaire eu não podia ir, uma vez que, ao tempo, não existiam relações diplomáticas entre Angola e o Zaire.

Fiquei instalado no hotel Maiombe. No porto da cidade pude avistar os barcos de transporte de madeiras que, tempos antes, tinha visto em Moçâmedes, carregados de velhotes e crianças. O destino era o campo de S. Nicolau. Foi no contacto com os cabindas que me apercebi da tragédia: eram continuamente despachados de barco sem saberem para onde, lembrando o tempo da escravatura, quando os negreiros cercavam os kimbos e arrastavam para outros continentes populações inteiras (eu próprio lhes contei o que tinha visto em Moçâmedes; a surpresa foi total pois imaginavam que aqueles cabindas tivessem sido levados para Luanda; mas sabiam no entanto que esses cabindas nunca regressavam e não davam notícias).

Só na Casa de Reclusão e em São Paulo conheci a real dimensão dos acontecimentos que envolveram a população cabindense. De entre as várias fontes de informação, merece destaque um prisioneiro cabinda chamado Inferno. De tenra idade foi para o maquis. Tornou-se motorista de Agostinho Neto, ainda antes de este voltar de Brazzaville, depois do 25 de Abril. Nos quadros da Segurança, chegou a ser um dos oficiais de confiança do Presidente Neto (quando foi preso, tinha funções na Presidência da República em Luanda). A certa altura, e para sua infelicidade, a sua amante, que vivia em Luanda, passou a ser cobiçada pelo tenente Tino, da DISA. Nesta como noutras circunstâncias a história bíblica de David e Urias repetiu-se, e a corda cedeu no ponto mais fraco.

Veio, assim, parar ao degredo de São Paulo, e vivia agora na condição comum de degradação a que eram submetidos todos os presos. A sua presença parecia incomodar Tino que, frequentemente, visitava a cadeia. Talvez por isso, os agentes dirigiam-se, frequentemente, a Inferno com a ameaça de que, mais dia, menos dia, iria parar a um campo bem pior do que aquela prisão, para aí cumprir a sua longa pena. Recordo aquele dia em que estávamos na caserna (talvez uns noventa presos). Assim que o agente Inácio entrou e se deparou com a presença de Inferno, anunciou: "Tu vais ficar preso durante quarenta anos". Inferno respondeu em cabindense, num registo algo enigmático: "Não te esqueças que duas montanhas nunca se encontram, mas dois homens sim". A língua era ininteligível para o agente, facto que o deixou enfurecido.

A mais dilacerante mágoa a que dava voz este cabinda dizia respeito ao destino do seu próprio povo. Foi graças ao seu testemunho que me apercebi da real dimensão daquilo que apenas tinha entrevisto antes de me prenderem. Inferno falava com paixão dos velhos e das crianças que, a partir dos cinco anos, eram deportados para o campo de São Nicolau; dos que fugiam para os países ocidentais; e dos que, continuamente, se viam forçados a fugir para Ponta Negra (Congo) e para o antigo Zaire.

Dada a sua proximidade da Presidência, sabia que estes crimes não tinham apenas a dimensão de Cabinda mas que se distribuíam à escala nacional. Impressionava-o, particularmente, o contingente de crianças enviadas para a Ilha dos Pinheiros, em Cuba, para aí, longe do amor dos pais, aderirem ao totalitarismo do amor pela pátria, segundo o ideário de servilismo do MPLA ao poder soviético.

O testemunho de Inferno sobre a presença dos cubanos em Angola revelava a lucidez de quem tinha andado pelos corredores do regime. Os cubanos, que tinham o controlo das armas mais sofisticadas, sabiam que apoiar o MPLA era fazer sobreviver as suas pretensões em Angola. Por seu lado, o MPLA reconhecia que seria mais fácil a estes militares estrangeiros destruir as populações que não manifestassem simpatia pelo poder de Neto, em nome da segurança nacional. Mais, a presença do contingente cubano, com cerca de cinquenta mil militares, resolvia ao MPLA uma dificuldade fundamental: a incapacidade de recrutamento por falta de implantação popular.

Neste contexto, era bem conhecida a susceptibilidade das potências estrangeiras "neo-coloniais". Muitos dos estudantes que iam para a União Soviética, para Cuba, RDA, ou para outros países da órbita sovietizada, eram frequentemente forçados ao regresso por pequenas impertinências (como a daquele angolano que ousou perguntar a um professor russo por que é que as famosas ofensivas militares russas tinham acontecido apenas quando o "general" Inverno cobria com o seu manto de frio rigoroso o território). Regressados destes países, estes jovens tornavam-se, por vezes, acusadores da ilusão comunista, dando voz às imensas carências que sentiram e viram disseminadas nessas sociedades. O próprio Inferno encontrou estes limites, para além da forma como se concretizavam na URSS, na Jugoslávia, na Coreia do Norte, em Cuba e na RDA.

De entre os seus ódios de estimação, Lúcio Lara (membro efectivo do bureau político do MPLA) tinha um lugar particular. Inferno atribuía-lhe grandes responsabilidades no morticínio que preencheu os dias do pós-27 de Maio. "Tem sido um dos grandes mentores das desgraças que se têm abatido sobre o povo angolano", dizia. Nas suas palavras espreitava uma revolta que se traduzia em desejos de vingança, já referidos na página 230, que vale a pena relembrar: "Eu só queria que me deixassem sair da prisão umas quarenta e oito horas, para fazer justiça com as minhas mãos. Depois podia morrer".

Como ele próprio havia vaticinado, Inferno desapareceu numa noite de tragédia, como tantas outras. Foi deslocado para a Kibala. Aí era mais fácil manter fechada esta verdadeira enciclopédia sobre o MPLA. (...)