Reis Ventura


O VELHO CAFAIA

Naquele isolado posto administrativo do Norte de Angola, havia um cozinheiro, já entrado em anos, se bem que ainda rijo das pernas e ágil de pensamento. Não interessa revelar o seu verdadeiro nome. Podemos chamar-lhe Cafaia.

Com 6 anos, tinha entrado ao serviço do patrão velho, como «criado do menino». Depois, o «Nequitas» crescera, casara, sucedera ao pai que se tinha finado em Lisboa, com os anos cheios. E agora era o patrão, o senhor Manuel, já quase tão velho como ele, que também progredira até à categoria de cozinheiro da casa e um dos melhores cozinheiros daquelas redondezas.

Ora o Cafaia tinha dois filhos no Congo ex-belga. E do mais velho deles acabava de receber longa carta, em mão dum negro alto e trombudo, que não era preto de Angola, não senhor.

Soletrou penosamente a prosa do filho, um rapagão educado e bem falante que até liceu tinha, e ficou a olhar interrogativamente as antipáticas e arrogantes ventas do emissário.

Então o ferrabraz começou a falar... Falava mal e porcamente a língua da região, de mistura com alguns termos de português e com pronúncia tão exótica que ao experiente Cafaia bastava e sobrava para denunciar o estrangeiro.

Naquele recanto escuro do quintal, sob a noite sem lua, em tom de confidência, pródigo de gestos e argumentos, o recoveiro de Léopoldville falou, falou, falou ... Em seguida, entregou ao velho um papel dactilografado, informando:

— Está aí tudo escrito.

O cozinheiro, que escutara o emissário com espanto crescente, ruminou lentamente os dizeres do papelucho e acabou por declarar, já com autêntico terror:

— Não podi! ... Eu não podi fazer esses malandrice que aí está mandado!
— Não pode?! — estranhou o recém-vindo na sua voz de trapos.
— Atão, se você está mesmo do lado dos cangundo português, tem de morrer!
— Não faz mal...—disse o cozinheiro.
— Eu já está a ficar cacanha ...
— Mas os teus filhos que está no Léo é novo — contestou o congolês, arreganhando a dentuça feroz.
— E você sabe o que vai-lhe acontecer?!...

Sucumbido, o Cafaia tapou os olhos cansados com as mãos nodosas, como a fugir àquela visão horrível do que poderia acontecer aos seus rapazes, em Léopoldville, quando o malvado transmitisse a sua recusa ao Grande Chefe e ao Grande Feiticeiro ...

E, vendo-o assim amolecido e perplexo, o tentador insistiu nos seus argumentos. Demonstrou que ia ser mais fácil do que fora no Congo ex-belga. E que eles ficariam com o dinheiro dos brancos, com as casas dos brancos, com as mulheres bonitas dos brancos ... Contou-lhe as artes formidáveis dos grandes feiticeiros do Congo, o seu milongo da coragem, que tirava o medo e a dor, os pauzinhos que livravam das balas dos brancos. Que, de resto, os portugueses não tinham armas a valer. Era tudo a fingir. As metralhadoras só mijavam água quente. As balas não entravam na carne. Ele próprio tinha experimentado a virtude do pauzinho enfeitiçado. O grande feiticeiro metera-lhe o feitiço entre os dentes e, a seguir, dera-lhe cinco tiros com uma pistola de Lisboa, sem que ele tivesse sentido nada. Absolutamente nada! Era mesmo feitiço valente.

Falou-lhe, depois, dos filhos, dois gajos fixes, que eram da Direcção da U PA, que mais tarde haviam de ser ministros do Congo ex-português ... Falou, falou, falou ... Até que se cansou de falar e perguntou:

— E então?

O velho esfregou os olhos, no jeito de quem não consegue libertar-se dum pesadelo, e respondeu:

— Tá bem ...

Quando a noticia dos massacres de 15 e 16 de Março chegou ao longínquo posto administrativo, o senhor Manuel quis levar a mulher para Luanda. Mas ela não concordou. Que não senhor! A sua obrigação era ficar ao pé do seu marido. Que não tinha medo nenhum! E ficou. Mas, embora o negasse, para não afligir o seu homem, lá medo tinha, e muito!

Por isso, desabafou com o cozinheiro, tão antigo na casa, que era como se pertencesse à família.

— Mataram tanta gente, Cafaia!
— É mesmo ...
— Tu sabes por que é que aconteceu tudo isto?
— Eu não sabe, minha senhora. Ou preto está mesmo maluco ou, atão, virou bandido ...
— Olha, Cafaia... — continuou a atribulada senhora. — Você é amigo do patrão e da senhora, não é?
— É mesmo na verdade.
— Foste criado com o patrão, andaste com ele ao colo, conhece-lo de pequenino e nós até somos padrinhos de um dos teus filhos ...
— É verdade! — confirmou o velho, abanando a cabeça.
— Então, se tu souberes de alguma coisa contra os brancos aqui da povoação, vens avisar-nos?
— Eu não sabe nada! — respondeu o preto, evasivamente.
— Ninguém diz que sabes — condescendeu a senhora. — Mas podes vir a saber. E, nesse caso, só te peço que me avises, ao menos a mim, para eu ir embora. Se quiseres, vais connosco. Se não quiseres ir, ficas, que eu nunca direi a ninguém que me avisaste. Está bem?

— Tá bem! Se eu souber de alguma confusão, eu digo na senhora ...

Nessa noite, ao voltar do seu turno da ronda da milícia, o senhor Manuel avistou um vulto que se esgueirava sorrateiramente dum recanto do quintal de sua casa.

— Alto, ou estouro-te os miolos! —berrou, metendo a arma à cara.
— Não atira, patrão! Sou eu! — respondeu o cozinheiro, aflito, erguendo as mãos ao ar.
— Que raio andas tu a fazer aqui, a estas horas?!
— Acordou com barulho daquela banda e veio ver se era bandido. Mas era só gato nos brincadeira dele ...

A explicação era aceitável, mas não agradou ao velho colono, que os recentes acontecimentos haviam tornado nervoso e desconfiado ... E, em todo o resto da noite, rolou e rebolou na cama, trabalhado por estranhas suspeitas. Que diabo teria ido fazer o Cafaia, até ao fundo do quintal, às 2 horas da manhã?! ... O velho andava distraído, amorrinhado, esquisito ... Tão depressa punha «bispo» nos guisados como servia a «moamba» mais ensossa e revida que uma solteirona de 70 anos ... Não era o mesmo homem, lá isso é que não era! Porquê?

Não que ele desconfiasse do cozinheiro. Não senhor! Pelo velho Cafaia, punha ele as mãos no fogo. Mas palpitava-lhe que andavam a querer desencaminhá-lo, embora sem resultado ... Amanheceu, sem poder conciliar o sono, de preocupado que esteve, sempre a marralhar nestas ideias.

Mal se levantou, ainda antes do banho e do mata-bicho, deu por si a caminhar para o recanto do quintal, donde, havia horas, vira sair o cozinheiro. Mesmo no ângulo interior do muro da vedação, junto duma laranjeira em crescimento, a terra estava mexida de fresco.

O senhor Manuel foi buscar um sacho de jardinagem e cavou, já deveras intrigado, até bater num monte de pedras, a cerca de meio metro de profundidade ... Retirou os calhaus, um a um, e, no meio deles, acabou por encontrar uma garrafa, das de cerveja CUCA, rolhada e lacrada. Partiu-a contra o muro e retirou de dentro dela um rolo de papel, que desdobrou e leu ... Leu e custou-lhe a tomar consciência do que lia ...

Era o plano traiçoeiro e minucioso da chacina de todos os brancos do posto e da pequena povoação comercial. O chefe da operação, já nomeado pela U PA «administrador» daquela terra, seria o Cafaia, que começaria por assassinar o patrão, ao levar-lhe o mata-bicho, em dia que oportunamente lhe seria comunicado por novo emissário dos comandantes de Léo ...

Aturdido, cambaleando como sob os efeitos duma tremenda marretada na cabeça, o branco meteu o papel ao bolso, voltou a casa, foi buscar a pistola à gaveta da mesa de cabeceira, meteu uma bala no cano, sentou-se à mesa da sala de jantar e mandou chamar o cozinheiro. O velho compareceu segundos depois e ficou em pé diante do patrão, a limpar as mãos ao avental branco, calado e com aquele seu ar abstracto dos últimos tempos.

— Sabes o que é isto? — perguntou-lhe, de repente, o senhor Manuel, tirando o papel da algibeira e desdobrando-lho em frente dos olhos ...

O preto inteiriçou-se, numa brusca sacudidela, arregalando os olhos, como no pavor duma aparição diabólica. Mas logo recaiu numa espécie de torpor apático, em que a sua momentânea tensão se esvaziou como o vento dum balão que cede à pressão excessiva ...

— Sabes o que é isto? — repetiu o patrão, num berro de raiva terrível.
— Eu sabe... — confessou o preto, indiferente e conciso.

Nervosamente, a mão do branco apertou, dentro do bolso, a coronha da pistola ... Mas dominou-se e começou a dizer, numa voz baixa, surda, tensa, amargurada:

— Com que então, Cafaia, eras tu que me ias matar?! O velho curvou a cabeça, num silêncio confirmador...
— Tu, que foste criado comigo, a quem meu pai ensinou a ler e a escrever... Fui eu quem te pagou os estudos dos teus filhos no liceu de Luanda ... Sou até padrinho dum deles ...
— É verdade, patrão !
— E tu ias mesmo matar-me?!
— Ia mesmo.
— Quando?
— Quando viesse a ordem...
— Mas porquê, malvado?! — gritou o branco, erguendo-se.
— Eu não é marvado, patrão! Mas eu tinha de cumprir a ordem ...
— E também matavas a senhora?
— Não! ... A senhora não! A senhora falou para eu lhe avisar, se soubesse da «confusão». E eu havia de avisar, sim senhor, para ela fugir. Mas agora o patrão já descobriu tudo; vai matar Cafaia; e acabou-se. Assim fica tudo mais melhor...

O branco sentou-se outra vez, tapou o rosto com as mãos; e esteve assim durante mais dum longo minuto, preso na vertigem daquela situação incrível. Depois, com um murro na mesa, disse para o preto:

— Desaparece da minha vista!
— Eu não sai daqui! Patrão tem de me matar...
— Foge, besta do inferno! Eu não te quero matar; mas foge, estúpido animal!

O preto, fingindo obedecer, deu meia volta e saiu da sala. Mas voltou quase logo, brandindo uma catana, desengonçando-se em cabriolas grotescas, partindo louças e escavacando cadeiras.

— Pára, maldito! — vociferou o branco, empunhando a pistola.
— Não pára nada ! O patrão tem de matar a mim, ou eu tem de matar o patrão ...

E avançou, de catana erguida ... Dois tiros partiram, quase simultâneos. O velho Cafaia largou a catana, dobrou-se com ambas as mãos contra a barriga e tombou para o chão, enrodilhado e miserável como um trapo ...

Mas quando o senhor Manuel, que arremessara a pistola para longe, correu a curvar-se sobre ele, já arrependido, já tomado duma enorme piedade, numa tumultuosa confusão de sentimentos contraditórios, o velho rosto do negro agonizante abriu-se num doloroso sorriso. E daquela boca torcida donde começava a escorrer uma baba sanguinolenta, saíram, sumidas e sincopadas, as seguintes palavras:

— Obrigado, patrão! Assim foi mais melhor...

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