Quinta_feira, 30 de Agosto de 2012

Campanha do MPLA terá custado 60 milhões



Publicitário brasileiro que fez as campanhas de Lula da Silva e Dilma Rousseff à presidência do Brasil comandou a propaganda eleitoral milionária do Presidente em exercício e cabeça de lista do MPLA.

Maria Luiza Rolim (www.expresso.pt), com BBC Brasil

15:03 Quinta feira, 30 de agosto de 2012

Os angolanos vão amanhã a votos e o candidato presidencial do MPLA, José Eduardo dos Santos, tem à partida muitas hipóteses de reeleição mesmo depois de 33 anos no poder, tendo entrado na disputa com muitas vantagens sobre o seu mais direto opositor, Isaías Samakuva (UNITA). A começar por uma campanha eleitoral milionária que, segundo fontes próximas à cúpula do partido do atual Governo angolano, terá custado 75 milhões de dólares (cerca de 59,7 milhões de euros), como revela a edição brasileira da BBC.

"A opulência da campanha do MPLA contrasta com a fraca publicidade dos outros partidos, que contaram cada um com financiamento público de 700 mil dólares (558 mil euros) para as eleições", enfatiza a BBC Brasil, acrescentando que "em programas televisivos simples, os seus candidatos fazem promessas e atacam o longo mandato do Presidente angolano. Na África, esse mandato só é menor do que o do líder da Guiné Equatorial, Teodoro Obiang Nguema, que chegou ao poder um mês antes que o angolano", escreve a BBC Brasil.


"ZEDU"

'Máquina' brasileira

A 'máquina' da campanha do líder do MPLA foi comandada por um dos maiores marketeers brasileiros, João Santana (que trabalha com o Partido dos Trabalhadores e foi responsável pelas campanhas vitoriosas que levaram Lula da Silva e Dilma Rousseff à presidência do Brasil).

A equipa de João Santana está em Angola desde fevereiro e nos últimos meses contou com a participação de um batalhão de 120 pessoas, dos quais cerca de 75 brasileiros.

"Não é a primeira vez que brasileiros comandam a campanha do MPLA. Nas eleições de 1992, o jornalista Ricardo Noblat chefiou a propaganda do partido, a cargo da agência baiana Propeg. Em 2008, a tarefa coube ao jornalista da TV Globo Carlos Monforte, também à frente de uma equipa da Propeg", assinala a BBC Brasil.

Ainda segundo a mesma fonte, "pessoas próximas à cúpula do MPLA atribuem a contratação de João Santana a uma indicação do ex-Presidente brasileiro Lula da Silva, que esteve em Angola em julho de 2011. Na ocasião, ele foi recebido pelo Presidente angolano e visitou as obras de empreiteiras brasileiras".

Seis meses de produção com direito a 'trio elétrico'

Sessenta milhões de euros "é um valor elevado inclusive para uma disputa presidencial no Brasil, país com dimensões continentais e com população dez vezes maior que a angolana", compara a BBC, acrescentando que o Partido dos Trabalhadores (PT) declarou ter gasto a mesma quantia na campanha de Dilma Rousseff em 2010.

O preço estimado da campanha de José Eduardo dos Santos "soa ainda mais alto se se considerar que o programa do MPLA ocupa apenas cinco minutos na TV e dez minutos no rádio por dia", tempo idêntico ao dos outros oito partidos concorrentes.

A legislação angolana não impõe limites aos gastos dos partidos, dispensando-os de revelar a quantia arrecadada entre os apoiantes e a sua identificação.

Durante os quase seis meses de produção, os brasileiros chefiados por João Santana ficaram hospedados em dois dos hotéis mais caros de Luanda. O cinco estrelas HCTA (diária de 575 dólares, ou seja, pouco mais de 458 euros para quartos individuais) e o Alvalade (407 dólares, 324 euros). Nas viagens pelo interior do país durante a campanha do líder do MPLA, a equipa usou aviões.

Autocolantes, jingles, imagens de obras públicas e retratos de angolanos foram algumas das ferramentas da campanha para a reeleição de José Eduardo dos Santos, que contou ainda com fotografias da autoria do premiado fotógrafo brasileiro Juca Varella, ex-editor de "O Estado de São Paulo".

Nas ruas de Luanda, a profusão de posters, bandeiras do MPLA e outdoors com o slogan "Angola a crescer mais e distribuir melhor" quase camufla a publicidade das demais siglas.
"No centro da capital, os sinais da oposição basicamente resumem-se a algumas bandeiras da UNITA e a cartazes da Casa-CE (Convergência Ampla de Salvação de Angola - Coligação Eleitoral)", refere a BBC.

Os últimos cartuchos da campanha do candidato do Movimento pela Libertação de Angola foram 'queimados' esta semana com um 'trio elétrico' (camião com banda de música que 'arrasta' multidões no Carnaval da cidade de Salvador, na Baía) decorado com fotografias de José Eduardo dos Santos a percorrer as movimentadas ruas de Luanda.

Propostas brasileiras recicladas

Apesar da tentativa de camuflar a identidade brasileira, a campanha reciclou alguns programas do PT. "No plano de Governo do MPLA, o projeto de estímulo ao empreendedorismo foi batizado de 'Meu Negócio, Minha Vida', a lembrar o programa 'Minha Casa, Minha Vida' dos Governos Lula e Dilma", salienta a BBC Brasil.