ANGOLA: OPERAÇÃO CARLOTA
Juan Benemelis

Quando aconteceu a Revolução dos Cravos em Portugal existiam três movimentos anti coloniais em Angola; eram, UNITA, o mais débil na estrutura militar e de pouca influência no exterior. Na década de sessenta, Jonas Savimbi era um dos líderes angolanos da mais relevo na luta contra o colonialismo português; apoiado pelo argelino Ben Bella e com estreitos vínculos com Co-Liang um dos principais agentes chineses em África.

A Frente Nacional da Libertação de Angola (FNLA) encabeçada por Holden Roberto, era decano dos movimentos anti-colonialistas das possessões portuguesas em África, com uma força combativa melhor treinada. O seu apoio fundamental provinha do congolês Mobutu, do guineense Touré e também da China. No entanto, devido à sua posição anticomunista, tinha-se generalizado no continente o critério de que Holden Roberto, então no apogeu da sua popularidade, recebia apoio secreto dos Estados Unidos.

O Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA), de franca tendência pró soviética, era apoiado pelo PC português, e também pela URSS e Cuba e no plano africano pelo Congo Brazzaville que tinha nessa época um governo de esquerda. O MPLA nasce como um ramal de agitadores e ideológicos dos comunistas, o qual conseguiu para esta organização angolana a ajuda económica da URSS. Os seus primeiros combatentes foram treinados na Argélia, entre 1963 e 1964 por instrutores cubanos. Durante o seu exílio na Zâmbia, Agostinho Neto, principal dirigente do MPLA, tinha relações com o residente da KGB em Lusaka com o qual coordenava a ajuda em armamentos que a sua organização recebia através do Congo Brazzaville.

Em Setembro de 1973 faz-se uma aliança entre o Partido Comunista Português e os militares de esquerda que faziam parte do "Movimento das Forças Armadas" para fazer um golpe de estado que instaure uma administração marxista em Lisboa e na suas colónias do ultramar. Em Fevereiro de 1974, Álvaro Cunhal, secretário do PC português, efectua visitas secretas a Praga, Moscovo e a Havana com o fim de debater o futuro do império lusitano depois da derrocada do ditador Marcelo Caetano.

Grande parte da nomenclatura comunista portuguesa, incluindo Cunhal, achava-se em Cuba no momento em que se deu o golpe de estado em Lisboa. Por sua vez, os serviços secretos ocidentais não prestaram atenção à informação dada por Mário Soares sobre o golpe iminente. Como foi exposto pelo analista espanhol Alberto Míguez: "é claro hoje que os soviéticos estavam esperando por tal eventualidade por intermédio de Álvaro Cunhal e o partido comunista português (o aliado mas perto de Moscovo na Europa)".

A junta militar constituída depois do golpe foi encabeçada pelo general António Sebastião Ribeiro de Spínola com Vasco Gonçalves como primeiro ministro. O PC português, exerce uma enorme pressão sobre o general Saraiva de Carvalho, o vice-almirante Rosa Coutinho (o almirante vermelho) e o próprio ministro Gonçalves para levar a cabo negociações nas colónias só com os grupos políticos de orientação marxista. A esta posição se tinha juntado o flanco esquerdo do Partido Socialista à volta de Tito Morais.

A maior parte do partido socialista de Soares, mediante dois dos seus procuradores, o chanceler Melo Antunes e de Almeida Santos, propõem algo diferente: uma federação de estados de língua portuguesa com a sua capital em Lisboa, uma espécie de comunidade lusitana. No caso específico de Angola, os socialistas intentam a neutralidade perante os três movimentos anti-colonialistas que representam UNITA o MPLA e a FNLA.

Castro tinha investido um enorme capital político na Guiné Portuguesa precisamente para o momento da independência. Militares armados cubanos que tinham ajudado o PAIGC na sua luta guerreira na Guiné Portuguesa. Com vista a precipitar os acontecimentos dessa independência, cubanos e soviéticos pressionam os comunistas portugueses, sobre tudo Cunhal, para conseguir a descolonização imediata.

Logo que os comunistas de Lisboa conseguem nomear para o cargo de administrador colonial na Guiné Portuguesa o "general vermelho" Carlos Fabião, cuja missão confidencial será transferir o poder para o PAIGC. Por sua vez, para favorecer o MPLA em Angola diligenciam a designação para a investidura de governador colonial a Franco Pinheiro, um extremista de esquerda.

As divergências que se desencadeiam em Portugal cobre como efectuar a descolonização dos seus territórios africanos fazem muito vulnerável ao conluio do então general Spínola que se vê preso nas garras do partido comunista que controla os sindicatos e do partido socialista que ameaça abandonar o governo. Os comunistas recuperam novamente influência ao forçar em Junho a substituição de Spínola pelo general Costa Gomes, também ele um homem de esquerda, deixando Gonçalves como primeiro ministro. Os comunistas portugueses, assim como os soviéticos e os cubanos, consideravam que a assumpção da hegemonia política pelos movimentos marxistas na colónias facilitaria a tomada definitiva do poder em Lisboa.

Imediatamente, o PAIGC confirma o seu controle na Guiné Portuguesa proclamando unilateralmente a independência. Perante o assombro das delegações estrangeiras que assistem às cerimónias, viu-se marchar pelas ruas da Praia (capital do novo estado) soldados do PAIGC junto com unidades cubanas que recentemente tinha chegado no navio XX Aniversário. Os militares cubanos iam ocupando os aquartelamentos militares que os portugueses abandonavam.

Em Moçambique é nomeado governador Soares de Melo simpatizante da marxista Frente de Libertação de Moçambique, (FRELIMO). Os comunistas portugueses propiciam uma cadeia de negociações secretas na Tanzânia com Samora Machel, chefe da FRELIMO, que culminam com o acordo de Lusaka em 5 de Setembro de 1974. No mesmo se reconhece a transferência do poder para a FRELIMO e marginalizam, por consequência, as restantes organizações Moçambicanas.

Em Janeiro de 1975, chega a Moçambique uma comissão da Transcontinental composta por funcionários da secreta cubana dirigida pelo cipriota Vassos Lyssarides, personagem estreitamente ligado ao então homem forte de Castro para a África Osmani Cienfuegos. A visita coincide com a do representante do Comité de Solidariedade Afro-asiática e membro da secreta alemã, Joaquim Kindzel.

O almirante Coutinho, cunhado (?) de Neto e simpatizante do MPLA, é nomeado governador. Então os comunistas portugueses conseguem manipular a descolonização de Angola. O MPLA pela sua parte ver-se-á enredado numa intensa e grande luta entre os pró soviéticos, os pró chineses e um "terceiro estado" de militantes moderados. O conflito dá-se sobre tudo entre Neto, Mário de Andrade, Daniel Chipenda, Lúcio Lara e Viriato da Cruz. Pese às insistências a favor de um entendimento entre as fracções pela parte de Cuba e da URSS, em Junho considera-se que Neto é letra morta dentro do MPLA.

De imediato, Cuba e URSS decidem apoiar a candidatura de Chipenda, o qual tinha herdado a maioria dos guerrilheiros armados do MPLA. Cuba determina nomear em Portugal Francisco Astray, um agente experiente, para facilitar a comunicação com o PC português e os chamados "militares vermelhos" Fabião, Valera Gomes, Coutinho, Saraiva de Carvalho. Estes serão a chave e o intento de transformar o processo português para um modelo tipo soviético. Se não fosse pelos altos oficiais das forças armadas portuguesas de tendência marxista, Cuba teria levado vários anos para reunir a informação necessária sobre as defesas, comunicações, logística e topografia de Angola, que utilizariam posteriormente nas suas operações bélicas.

Assim, em Abril de 1974 uma representação de importantes estrategas portugueses encabeçada por Valera Gomes inicia suas sessões de intercâmbio em Havana com Fidel e Raul Castro e com os generais Senén Casas (chefe do Estado Maior, Fernando Vecino Alegret e Ochoa). Meses depois, em Julho de 1974, os generais Senén e Júlio Casas Regueiro (chefe de logística) e Emidgio Báez (chefe da marinha) visitam secretamente Portugal. Os três generais são elementos necessários para qualquer manobra militar. Na reunião discute-se a situação angolana com Valera Gomes, Fabião e Coutinho, que à época ocupava o comando em Angola.

Uma semana depois do dito conclave, o general Saraiva de Carvalho, responsável do comando de operações do exército português, chega a Havana acompanhado do agente dos serviços secretos cubanos Astray. Saraiva de Carvalho conferencia com Fidel e com Raul Castro e com os generais Senén Casas, Ochoa e Francisco Cabrera.

Coutinho cede ao MPLA os 6.000 catangueses mercenários do exército colonial português para serem novamente treinados por militares cubanos na base angolana de Massangano. Ironicamente, estas unidades catanguesas tinham lutado contra os próprios cubanos no Congo debaixo das ordens de Hoare durante a guerrilha de Che Guevara. Esta medida equilibrará o MPLA ante os outros movimentos, ao conceder-lhe o músculo guerreiro de que padecia. Desde finais de 1974 os soviéticos aumentaram a sua ajuda militar ao MPLA. Em 4 de Fevereiro de 1975, Neto apresenta-se no estádio de Luanda à frente de um séquito onde figuram militares soviéticos e cubanos.

Em Março, o MPLA apresenta-se para disputar à FNLA e à UNITA o controle de Luanda, porto e depósitos necessários para receber carregamentos massivos de armamento procedentes da URSS e de Cuba. Neto tinha pedido aos soviéticos o envio de pessoal para constituir o nervo principal do MPLA. Os soviéticos, cautelosos das implicações internacionais, não atenderam a proposta, mas coordenaram com Castro o aumento de soldados cubanos. De imediato começa a chegada de um grande conjunto de conselheiros militares das Antilhas.

Em Junho de 1975, Flávio Bravo, membro do bureau político de Cuba, dirige-se ao Congo Brazzaville onde se encontra com Neto. Ali acordam os pormenores da participação cubana de forma mais consistente e directa dentro de Angola e particularmente para coadjuvar na "batalha de Luanda" que o MPLA travava contra a FNLA e a UNITA.

Entre Maio e Junho Castro vai concentrando unidades em Cabinda e em Julho acelera a infiltração dos seus legionários em Angola, sobre tudo recrutas da academia militar de Ceiba del Agua. Castro pede ao coronel Saraiva de carvalho, de visita a Havana para os festejos do 26 de Julho, que peça a autorização de Lisboa para ceder mais recursos ao MPLA.

Castro é informado pelo seu serviço secreto que batalhões comandados do exército de Mobútu eram transportados em aviões C-130 até à povoação angolana de Ambriz onde se tinha instalado o governo provisório de Holden Roberto. De acordo com os meios informativos de Havana, importantes companhias petrolíferas francesas propiciavam um movimento político em Cabinda, a FLEC, para conseguir a secessão deste enclave petrolífero. Segundo versões oficiais cubanas, o serviço de espionagem francês (SDECE) estavam recebendo relatos da secreta dos EUA sobre a situação angolana. Em Agosto de 1975 a SDECE tinha obtido a promessa do próprio subdirector da CIA Vernon Walters para continuar tal cooperação.

A DGI cubana mantinha nessa altura uma estreita vigilância dirigida às organizações como a World Wild Gees, Club Phoenix Associated y Ómega Group Limited, nos Estados Unidos, as quais agrupavam os últimos representantes de uma raça de homens chamada a desaparecer: os mercenários. Assim como sobre a Securty Advisory Services (SAS) e a Mercenary Forces Group na Grã Bretanha. Também o fazia com relação a indivíduos como o inglês John Best e o chefe norte americano James E. Leonard que os considerava chaves para um futuro recrutamento de mercenários e recursos contra o MPLA.

No dia 1 de Agosto chega a Luanda em missão secreta uma comissão composta pelo Almirante Coutinho, o general Fabião e o capitão Canto e Castro. Dias depois Portugal nomeia Leonel Cardoso como Alto Comissário em Angola, a quem se recomenda facilitar a entrega do poder ao MPLA. Os primeiros barcos com unidades de combate completas (cerca de 2.500 homens) partem de Cuba a meados de Julho debaixo do comando do general Raul Diaz Argueles; três semanas depois atracam nos portos angolanos.

A GUERRA

Em 15 de Agosto de 1975 aterram em Luanda desde diversos pontos Jorge Risquet, membro do secretariado do partido comunista cubano e encarregado dos assuntos africanos; os generais Diaz Arguelles e o seu ajudante no comando Ramón Espinosa. Espinosa encontrava-se desde início do ano em Angola; ao morrer Diaz Arguelles o substituirá. Ao grupo une-se o director do centro da DGI em Portugal Astray; o diplomático e chefe do centro da DGI na Guiné (Conakry) Óscar Oramas, especialista em assuntos africanos, que previamente tinha sido destacado em França e na Argélia, e o embaixador cubano e encarregado do departamento da DGI no Congo Brazzaville José A. Garcia.

Esta reunião de Risquet e de Neto (pelo MPLA) com o chefe supremo do dispositivo de guerra cubano Dias Arguelles e com os chefes do departamento da secreta naqueles países que participavam em operações de logística (Açores, Brazzaville e Ponta Negra) terá uma contrapartida na tertúlia que simultaneamente se celebra em Havana entre Coutinho e seus assessores com Fidel e Raul Castro e os generais Senén Casas e Ochoa.

A intervenção cubano soviética em Angola no início de 1975 e a sua escalada posterior foi, segundo alguns critérios, produto de uma reacção à presença sul africana. O próprio vice chanceler cubano Ricardo Alarcón declarará à imprensa estrangeira em Dezembro de 1975 que o envio de milícias cubanas para Angola tinha começado na primavera desse ano na base de Massangano. Por outra parte, o general cubano Rafael del Pino declarou em diversas oportunidades que era incerto que as tropas cubanas tivessem ido para Angola para repelir a entrada dos sul africamos, aclarando que foram as tropas cubanas as que primeiro entraram em Angola.

Em Agosto de 1975, as baterias cubanas abrem fogo no Bié sobre um avião que transposta Savimbi. Em Setembro o presidente do Congo Brazzaville, Marie Ngouabi, viaja para Havana com representantes do MPLA. Ali acede a passar ao general Dias Arguelles o arsenal bélico do seu exército, sobre tudo os foguetes reactivos que os soviéticos prometem substituir-lhe.

O presidente guineense Touré facilita o aeródromo de Conakry como ponte e reabastecimento dos transportes militares cubanos e o iemenitas do sul do sul oferecem o aeroporto de Adén para transladar os mantimentos essenciais oriundos da URSS. Sem dúvidas, a escalada de Cuba e da URSS a favor do MPLA deve-se a que em Setembro o governo de esquerda português de Gonçalves cai pondo em perigo o auxílio que Neto vinha recebendo do comando português em Angola, sobre tudo os desembarques impunes de material de guerra soviético e de tropas cubanas.

Logo que as unidades cubanas tocaram solo angolano e estabeleceram campos de treino em diferentes localidades, o teto caiu-lhes em cima. A África do Sul, informada de que os cubanos decidiram enviar mais batalhões, enviam uma potente coluna que cruzará a fronteira em Setembro, no momento em que desembarcam massivamente tropas castristas, internando-se com rapidez em território angolano, sob o pretexto de que perseguiam gente armada da SWAPO.

Depois da queda de Gonçalves em Lisboa e a entrada da África do Sul no Cunenne, parece colocar em perigo o plano de colocar o MPLA no poder. Castro projecta um notável deslocamento humano e a União Soviética dá a sua aprovação para o envio de mais logística. No seu avanço, a coluna sul africana vai derrotando os campos de treino dos cubanos e os cubanos, provocando as primeira baixas. Isto colocava Castro numa posição delicada, já que dois meses depois, em Dezembro, no primeiro congresso do PCC, teria que informar que se tinham imolado em Angola grande parte dos seus cadetes militares. Castro achava-se perante a alternativa de deixar os grupos de treino a sua sorte, sujeitos ao extermínio, ou enviar poderosos reforços que parassem os sul africanos. Contra todas as possibilidades Castro optou por subir a parada em Angola.


Avião Britannia

A frota aérea civil de aviões Britannia iniciou o transporte de combatentes no início de Outubro. A 6 de Outubro, unidades da famosa Divisão 50, agrupamento da elite cubana, enfrentam os sul africanos em Norton de Matos. É o choque mais sangrento da guerra. Mesmo assim, revela-se a presença de um grupo táctico naval soviético perto do teatro de operações.

Já em princípio de Novembro, começam a penetrar as selectas falanges especiais do Ministério do Interior, cuja finalidade era parar as portas de Luanda a coluna Sul africana e ganhar tempo para que se concluísse a chegada de outros agrupamentos regulares. O desespero de Castro por obter meios de transporte se ilustra na sua decisão de transformar um barco de pesca em transporte militar.

A falta de barcos suficientes fez da ponte aérea o instrumento vital da logística. Apesar de estarem alertados em Outubro, do percurso da milícia e armamento cubano via Barbados, os Estados Unidos não levaram a cabo nenhum esforço para interferir até que já bem entrado o mês de Dezembro, quando convenceu as autoridades de Bridgetowm a retirar a permissão de abastecer de combustível as frotas cubanas. De imediato Castro decide empregar como posto de trânsito os Açores, mas as autoridades portuguesas, ao conhecer que os voos eram do tipo militar, decidiram não autorizar.

É então que entram em acção os soviéticos, os quais não queriam dar a cara no transporte de logística desde Cuba. Moscovo facultou a Havana o aluguer de vários IL-62 que podiam fazer o trajecto Cuba-África sem paragem. Em 3 e 12 de Novembro há encontros de grande envergadura em Benguela e Novo Redondo entre os sul africanos e os batalhões comandados pelo general Diaz Arguelles. A tenacidade da defesa oferecida por Diaz Arguelles e a efectividade da sua artilharia reactiva de 122mm convence o comando sul africano de que tem à sua frente militares experientes e que o combate com os antilhanos (naturais das Antilhas) não resultará fácil.

Na primeira semana de Novembro, Havana adverte o general Diaz Arguelles que várias colunas inimigas provenientes de Cabinda ao norte e do Lobito ao sul, avançavam sobre Luanda. Diaz Arguelles preparava a defesa, deslocando os lança mísseis de 122mm. Em 5 de Novembro Castro opta por enviar por via aérea especialistas em artilharia pesada e as suas famosas tropas especiais debaixo do comando de outro general, Pascual Martinez Gil. Ironicamente, Martinez Gil será processado mais tarde junto com o general Ochoa. Possuímos a versão oficial cubana segundo a transmite Garcia Marquez na sua crónica.

"A Operação Carlota iniciou-se com o envio de um batalhão reforçado de tropas especiais, composto por 650 homens. Foram transportados por avião em voos sucessivos durante 13 dias, desde a secção militar do aeroporto José Martí em Havana, até ao aeroporto de Luanda, ainda ocupado por tropas portuguesas. Naquele momento apenas estavam saindo de Cuba três barcos carregados com um regimento de artilharia, um batalhão de tropas motorizadas e o pessoal de artilharia a reacção, que começariam a desembarcar em Angola desde 27 de Dezembro".

Era uma operação simultaneamente cronometrada em Luanda, em Lisboa e em Havana. Castro precipita os acontecimentos em Angola para possibilitar que em Portugal o partido comunista prepare um golpe de estado para 25 de Novembro.

A unidade 3051 do exército cubano, auxiliada com regimentos de tanques e tropas que chegam precipitadamente de Cuba, abre fogo contra a tropas de Holden Roberto que se aproximavam a Luanda. Sem dar tempo para compreender o que sucedia, uma chuva de projecteis incendiários dizima a frente de Holden Roberto deixando grandes aberturas nas sua fileiras. De imediato, os tanques começaram o canhoneio com projecteis de fragmentação de tiro directo. Os cadáveres caiam destroçados, praticamente partidos em dois pelos disparos dos blindados cubanos que os faziam saltar pelo ar. Tomada de pânico, aquela massa humana retira-se como melhor pode, deixando atrás de si inúmeros cadáveres.

Não tinham retrocedido um par de quilómetros as forças de Holden Roberto, quando começaram a ouvir por cima das suas cabeças o silvo dos foguetes de 122mm seguido de uma série interminável de explosões que acompanha a fuga ao longo de 25 quilómetros. Os aviões de reconhecimento permitem ajustar os tiros indirectos e, para cúmulo dos horrores, os MIG-21 descem em picado e disparam sobre os fugitivos como se fossem coelhos.

Já em fins de Agosto e começo de Setembro de 1975, alguns generais tinham começado a infiltrar-se no terreno angolano para começar a escalada seguinte. Posteriormente vão chegando ao campo de batalha, junto ao ministro da defesa Raul Castro, muitos generais entre os quais figuram Leopoldo Cintras Frias, Del Pino, Abelardo Colomé Ibarra, Rogelio Acevedo, Lopes Cubas, Gustavo Fleites Ramirez, César Lara Roselló e Romárico Sotomayor.

Em Dezembro Mijail Suslov, membro de bureau político do PCUS e o general do exército vietnamita Vo Nguen Giap viajam a Havana para ter longas consultas com Castro e com o seu Estado Maior sobre as possíveis reacções do Estados Unidos perante os eventos em Angola. Por seu lado, a URSS lança uma cruzada diplomática em toda a África com a promessa de cobrir de ouro os estados africanos que ainda duvidam em oferecer o seu reconhecimento ao regime do MPLA. Moscovo depositará em bancos suíços quantidades de ouro no valor de 25 milhões de libras esterlinas para esta operação. O Daily Express qualificou-a como a maior corrupção da história.

Em 1975, nesta generosa operação de assistência logística, a URSS foi capaz de transformar a seu favor pela segunda vez um conflito militar do Terceiro Mundo (o primeiro tinha sido o Vietname). Em ambas as manobras será conclusivo o desempenho dos seus comandos militares provenientes do oriente, especialmente as forças aerotransportadas do marechal Vassili Ivanivich Petrov, chefe do exército soviético situado na parte asiática do território, comandante da ofensiva contra a China em 1969 e especialista em operações aerotransportadas. Estes mecanismos funcionaram depois, em maior escala e menos encobertos, primeiro na Etiópia e depois no Afeganistão. Sem a logística, a informação da secreta e o consentimento soviético, Castro não se teria aventurado a um desempenho militar de tal magnitude em Angola.

A ofensiva de Janeiro de 1976 sobre o norte de Angola dominado pela FNLA, foi planeada por dois generais soviéticos. Por outra lado, os soviéticos encaminham para Angola dois cruzadores adicionais e um destroier. Ao longo de Dezembro e Janeiro, a Operação Carlota acelera-se acrescentando primeiro 12.000, logo 2.000 e finalmente em Março 37.000 soldados das forças deslocadas para Angola. Depois a UNITA passa à guerra irregular nos maciços selváticos, enquanto dois batalhões cubanos progridem em três agrupamentos em direcção às fronteiras do Sul. Segundo o semanário Newsweek "os cubanos demonstraram ser a maior surpresa de todas. Os homens que Castro enviou para Angola não pareciam ser guerrilheiros provenientes de uma república bananeira, e sim um exército muito disciplinado e treinado no uso eficaz de alguns armamentos mais sofisticados do arsenal soviético".

No caso angolano os Estados Unidos cometem um erro de cálculo grosseiro. Segundo critérios do almirante Coutinho, a falha norte americana esteve em reconhecer que os problemas que se sucediam em Portugal e em Angola estavam relacionados. Este "matreiro" levou-os a conceber a situação como operações encobertas, uma contra Portugal e outra contra Angola totalmente independentes e dirigidas por dois departamentos da CIA.

(...) Não só uma perigosa concentração de homens e complexos equipamentos cubano soviéticos apontaria sobre a Namíbia e Pretória sem que Castro, com 60.000 baionetas (tropas) em África, se transforma no poder extra-continental mais poderoso. Sem dúvidas, o golpe cubano soviético em Angola e logo na Etiópia tomaria por surpresa ao mundo Ocidental, como sucedera em 1968 com a invasão da Checoslováquia, e os sucessos posteriores no Afeganistão.

Juan F. Benemelis

http://www.gadcuba.org/Guerras%20Secretas/Angola%20Operacion%20Carlota.htm

http://www.gadcuba.org/Guerras%20Secretas/

Nota: Há várias versões cubanas da "Operação Carlota" como podereis ver clicando nos links abaixo mas esta pareceu-nos a mais completa embora nos pareça que há algumas discrepâncias nas datas dos acontecimentos. As outras versões são muito sintéticas e facciosas. É de notar também que o autor não faz muita referência no texto à acção das FAPLA no teatro de guerra.

http://www.granmai.cubasi.cu/portugues/2005/noviembre/juev3/45carlota.html   Português

http://granmai.cubaweb.com/espanol/2005/octubre/lun31/nace.html   Espanhol