CARLOS ALBUQUERQUE, EDITORA LIVROS DO BRASIL, Junho 2002.
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Coutada de priviligiados

Recomemdamos vivamente a todos aqueles que estejam interessados em conhecer pormenorizadamente o que se passou em Angola depois da independência ler esta excelente obra. Infelizmente nem todos terão facilmente acesso a este livro, e como tem copyright, solicito a indulgência do autor e da editora por esta transcrição cujo tema não encontrei tão claro em parte alguma. Obrigado.

(Pg.35/39, A quase cidade-estado era, em Março de 1991, uma coutada de privilegiados. Não só Angolanos. Havia-os, e há, de outras nacionalidades, como portugueses.

A cada passo se encontravam «políticos» pedantes, intelectualmente anémicos e destilando ignorância, acompanhados por legiões de funcionários pomposos. Uns e outros embrulhados por esquemas de corrupção e redes de favorecimentos e compadrios.

A propósito de tudo e de nada, tropeçava-se na segurança do Estado, que, omnipotente e omnipresente, tecia e estendia a sua malha por toda a cidade, coisa nenhuma lhe fugindo ao controlo. Da segurança do Estado tanto era o funcionário do aeroporto, sempre à espera de ver umas notas de dólar no passaporte que lhe era mostrado, como o empregado do hotel, o nosso «relações públicas» (pessoa que nos ajudava na ultrapassagem da burocracia centralizada e asfixiante, para o que se fazia pagar principescamente), ou mesmo um conhecido de raça branca e, muitas vezes, português.

Os privilegiados angolanos usufruíam, e usufruem, de um nível de vida superior ao da classe média-alta dos países desenvolvidos da Europa: imóveis no estrangeiro, dois ou três automóveis e jipes de último modelo e altas cilindradas, três a quatro arcas frigoríficas em casa, um televisor e um vídeo por assoalhada, para além de geradores de energia eléctrica e depósitos de água privados. Mais dados à ostentação, uns quantos chegavam a contratar, por milhares de dólares, grupos musicais no estrangeiro, para animarem festas de aniversário em suas casas.

Entre os portugueses sobressaía um grupo ligado à restauração e gestão hoteleira, trabalhando ao abrigo de acordos ou protocolos de cooperação; um outro ligado ao sector da construção civil; um terceiro, incluindo conselheiros, «ataches», assessores, consultores políticos, jurídicos, comerciais e militares, e também técnicos de programas de assistência. Todos igualmente influentes, gerindo politicamente as suas actividades em natural consonância com o MPLA, a cujos membros e amigos distribuíam frequentes benesses. Uma gestão onerando consideravelmente o custo de bens e serviços que prestavam: uma garrafa de litro e meio de água importada de Portugal era vendida, nos bares dos hotéis, por seis dólares, e um chá por 12, o mesmo que, em 1993, custava um jantar-buffet num hotel de cinco estrelas em Adis-Abeba, a capital da Etiópia! Pela dormida e pequeno-almoço num hotel pagavam-se 200 dólares. Um similar custava então, em Nova Iorque, 65 dólares. Na construção civil, os preços andavam sempre para além do aceitável, mesmo num país em guerra, não se conseguindo orçamentos para meras obras de restauro abaixo dos 250 mil dólares.

Na área dos conselheiros, «ataches» e alguns consultores jurídicos, o negócio prosperava. Na mira de lucros fáceis e chorudos, negociantes estrangeiros, indianos e portugueses na maior parte, invadiram Luanda. Passaram a ser conhecidos como «os empresários dos contentores», por venderem bens de consumo exportados para Angola em contentores de carga marítima. Desconhecendo inicialmente os corredores do mercado local, foram presas fáceis, mas consentidas — porque lhes interessava —, de conselheiros, «ataches» e consultores (já sabedores do meio, alguns com ligações familiares ou companheirismos anteriores à independência), que logo lhes garantiam os contactos necessários com personalidades influentes nos centros de decisão do MPLA, do Governo, das FAPLA e da Presidência da República. A obtenção de uma entrevista, sem qualquer compromisso prévio de decisão favorável ao negócio, chegou a valer 10 mil dólares.

No mundo das organizações de carácter humanitário a actividade de assistência desenvolvia-se, muitas vezes, de forma pouco clara e suspeita.

Os 16 anos (1975 a 1991) em que decorreu o primeiro grande conflito armado entre os angolanos, deixaram o país exaurido e com o aparelho produtivo reduzido a zero. Ficaram destruídos, tornando-os completamente inoperacionais, troços importantes das linhas dos três caminhos-de-ferro: o de Benguela até ao Luau, ligando Angola à Zâmbia, depois de atravessar as províncias de Benguela, Huambo, Bié e Moxico; o de Malange, cruzando as províncias de Luanda, Bengo, Kuanza-Norte e Malange; o do Namibe (antigo Caminho de Ferro de Moçamedes), unindo aquela cidade do litoral à de Menongue (antiga Serpa Pinto), passando pelas províncias do Namibe, Huíla e Kuando Kubango. A rede das rodovias alcatroadas, das estradas de terra batida e das picadas estava intransitável, por força do grau de destruição provocado por bombardeamentos, pela passagem das lagartas dos carros de combate e, ainda, pela erosão resultante da falta de assistência. E, porque ocupadas nos seus nós estratégicos de ligação, ora pelas FALA da UNITA, ora pelas FAPLA do MPLA, ninguém se atrevia a circular. A tudo isto acrescia a malha de minas colocadas em todo o País, barrando os caminhos que as populações percorriam a pé, nas suas trocas comerciais: as do Litoral com sal, peixe, óleo alimentar e sabão; as do Interior com produtos da terra e carvão. Estimativas da ONU apontavam para a existência de 10 milhões de minas. Uma por cada habitante!.

Em Angola, foi então montada a mais gigantesca operação de abastecimento por via aérea do mundo. Recebidos de doadores internacionais e da Comunidade Europeia, alimentos e outros bens de primeira necessidade começaram a ser transportados regularmente para as províncias, em enormes cargueiros de fabrico soviético (Tupolev e Antonov) e norte-americano (Boeing). Registaram-se, durante semanas, 17 voos diários, com origem em Luanda, outros ocorrendo a partir do aeroporto da Catumbela, a Sul, entre Lobito e Benguela, aproveitando o desembarque de produtos doados no porto do Lobito.

Agências especializadas da ONU (PAM e UCAH) coordenavam os envios das doações, que eram entregues no destino a organizações humanitárias como a Cruz Vermelha e a Caritas. Estas, por sua vez, responsabilizavam-se por fazê-las chegar às populações necessitadas. Para custear o transporte de cada tonelada entre a entidade que a recebia e os carentes, os doadores entregavam também 100 dólares. Contas da altura: transportando cada avião, em média, 20 toneladas, os 17 voos traduziam-se em 340 toneladas diárias, equivalente a qualquer coisa como 34 mil dólares. O que era feito com aquele dinheiro? Esbarrando em silêncios e sistemáticas indisponibilidades das fontes de auscultação indispensável (PAM e UCHA), resultaram frustradas quaisquer investigações. Foi apenas possível saber, junto das organizações humanitárias de destino, que estas nunca tinham ouvido falar de verbas para transportes.

Outra situação nada clara: a venda, em alguns mercados paralelos, de produtos de consumo, como leite, azeite, óleos alimentares, farinha, açúcar e sabão, em embalagens da ajuda humanitária. Visitei um desses mercados no Huambo (antiga Nova Lisboa) acompanhado por dois elementos do PAM e por um oficial do Comando da Polícia local, a quem manifestei e minha estranheza e pedi uma explicação. Obtive sorrisos, encolher de ombros e um uníssono «foram roubados».

Ficou-me, para sempre, a suspeição de fortes conivências das autoridades angolanas e dos agentes humanitários, na candonga dos bens recebidos dos doadores internacionais para os mercados paralelos, onde eram vendidos a preços que a maior parte das pessoas não podia pagar. E a certeza de que a caridade internacional ajudava a engordar a fortuna de alguns e, eventualmente, a matar a fome de uns quantos — poucos.(...)