visao.jpg (2681 bytes) 2005              

COM O CHÃO A FUGIR DEBAIXO DOS PÉS


Foto Visão

CRÓNICA
Pedro Vieira

Na manhã de domingo 28 de Julho de 1974, um estranho silêncio envolvia a leitura do jornal A Província de Angola, no Café Paris da Baixa de Luanda. Na véspera, em Lisboa, o general Spínola tinha proferido o seu dramático discurso anunciando o reconhecimento imediato do direito das colónias à independência. Apesar de sangrentas makas nos musseques, a vida na capital de Angola prosseguia numa aparente normalidade. A esplanada do Cinema Miramar, sobranceiro à baía de Luanda, enchia-se para ver o filme Píerrot Le Fou, de Jean-Luc Godard. O intenso movimento na cidade era o reflexo de uma das zonas de África com maior crescimento económico. O Centro de Informação e Turismo continuava a distribuir fotografias de uma Angola multirracial e feliz. E as prateleiras do supermercado Jumbo estavam bem abastecidas. Noutros Jumbos, os aviões da TAP, ainda era fácil arranjar lugar no voo para Lisboa.

Para uma parte da população branca, desconfiada das Forças Armadas e habituada a abrir caminhos com as próprias mãos, as palavras do Presidente soavam a algo longínquo. «Em 1961 estávamos sozinhos e resolvemos a questão», ouviu este repórter em Luanda, para onde fora enviado pelo jornal A CAPITAL para cobrir o Campeonato do Mundo de Hóquei Patins, que não chegaria a efectuar-se. Acabou a narrar o princípio do fim da era colonial na maior das «províncias ultramarinas» portuguesas.

Aquela afirmação de auto-suficiência evoca a cega carnificina de fazendeiros e suas famílias no Norte de Angola e a igualmente cega vingança que se abateu sobre os supostos autores desses actos. Mas também não faltava quem dissesse: «A tropa tem que nos defender.» Meia dúzia de dias antes do discurso de Spínola, um panfleto distribuído nas ruas de Luanda com o título Como se vende Angolana, concluía assim: «Até onde irão os comunistas do Governo de Lisboa? Até onde os deixarmos. É tempo de dizer não.» À generalidade da população africana, designadamente dos musseques, o reconhecimento do direito à independência chegou por via própria: o programa do MPLA Angola Combatente, que tinha três emissões diárias a partir da Rádio Brazzaville. No dia 28 de Julho, às 19 horas, a «vitória do MPLA, do povo angolano e do povo português» foi saudada num editorial que incluiu um excerto gravado da comunicação do general Spínola.

Nos últimos dias de Julho, o fim da indefinição política em relação ao processo de descolonização, conjugado com a entrada em funções da Junta Governativa de Angola, presidida pelo almirante Rosa Coutinho, parecia ter devolvido algum sentimento de segurança à população. Sintoma dessa alteração era a descida de 60 para 40% do lucro dos cambistas ilegais, na troca de escudos por angolares. Num afloramento de guerrilha urbana, que não chegou a estender-se à cidade do asfalto, de I0 de Julho até meados do mês os musseques tinham vivido uma onda de violência de seis dias ininterruptos que provocou 43 mortos. Ao ritmo de cânticos e danças tradicionais fúnebres, as primeiras vítimas de confrontos difíceis de explicar na sua origem e desenvolvimento, foram a enterrar em manifestações de cariz nacionalista. Segundo algumas informações, dezenas de guerrilheiros do MPLA libertados do Campo de São Nicolau ter-se-iam infiltrado nos musseques. No entanto, acções de luta político-militar ou de puro banditismo apresentavam-se como inextricáveis, pelo menos ao observador externo.

Alarmados, os membros do Governo de Angola, chefiado pelo general Silvino Silvério Marques, descobriam em sessões à porta fechada as imagens sangrentas das batalhas dos musseques, colhidas, ao que me lembro, por uma produtora de TV canadiana. A15 de Julho, soldados do recrutamento em Angola tinham desfilado fardados até à Fortaleza de S. Miguel, onde apresentaram as suas reivindicações ao general Franco Pinheiro, comandante-chefe de Angola. Segundo alguns testemunhos, quando a manifestação se desfez já não voltaram aos quartéis. Uma das consequências mais sensíveis das makas nos musseques foi a «limpeza» dos comerciantes brancos. De uma semana para a outra, meio milhar de «fubeiros» [designação utilizada pela população dos musseques derivada da palavra «fubá»] ficaram sem nada. Restou-lhes bater à porta do Governo para obterem apoio para regressarem à sua actividade. Mas o regresso que o Governo tinha para lhes oferecer era diferente.

No dia 23 de Julho, numa assembleia no Palácio do Comércio, convocada pela Associação de Lojistas de Luanda, a oferta de viagens aos que desejassem fixar-se na Metrópole ou noutros locais provocaria a indignação generalizada. «Eu trabalho há 16 anos em Angola e não sou rico. O que é que eu vou fazer para a Metrópole com 40 anos e dois filhos que nasceram aqui para educar?», perguntava alguém. Outro testemunho: «Eu nasci em Angola e a minha filha é angolana, mas agora nem sei de que terra sou. Não sei se portuguesa se angolana.» Ao mesmo tempo, torrentes de habitantes dos musseques carregaram as suas embambas a caminho da estação ferroviária, para tomarem comboios a deitar por fora em fuga da cidade.

A cada dia que passava, dilema ficar ou partir tornava-se mais agudo. Os partidos nasciam como cogumelos, numa tentativa de organizar os portugueses em Angola para se afirmarem na discussão da independência, União Nacionalista Angolana, Liga Federalista Angolana, Partido Popular Monárquico, Partido Cristão Democrático de Angola, etc. Sem hipóteses de singrar. A ansiedade crescente na população branca teve o auge numa manifestação em que preponderavam... agentes da PSP. O desfile culminou numa invasão do Palácio do Governador. Foi um momento de apuros para Rosa Coutinho, que teve de saltar para cima de uma mesa acalmar os ânimos.

Do outro lado da barricada, a l de Agosto o MPLA e a FNLA mostraram-se finalmente às claras num comício no Bairro de São Paulo. A UNITA, acusada de colaboracionismo, não teve participação visível. Apesar da unidade então manifestada, em Novembro de 1975, a escassos dias da independência, o MPLA, apoiado por tropas cubanas e pelo longo braço de Moscovo, infligiu pesada derrota à FNLA, apoiado por tropas zairenses e pelo também longo braço de Washington, numa grande batalha entre Luanda e Caxito.

Sem ilusões e sem esperança, na segunda metade de Julho um fazendeiro viajou no seu pequeno avião dos Dembos até Luanda. Chamava-se Sá Carneiro (não era da família do líder do PSD), tinha uns 50 anos e 30 de África. Ao jantar, depois de saborearmos os soberbos caranguejos de Moçâmedes, puxou de uma, nota, fez sinal ao empregado negro e ordenou-lhe: «Diga ao pianista que toque Angola é Nossa.» No sofisticado Clube Naval o pianista mulato não tardou a martelar o marcial hino salazarista. Ao fundo, a baía de Luanda reflectia as luzes da marginal. «Ganharam», disse-me secamente. «Mas quem ganhou?», perguntei. «Os comunistas», respondeu. E rematou: «Portugal era a África.»|