Cuba: ¿Adónde fue la revolución?

Mike González

CUBA NO MUNDO
(Angola)


Agostinho Neto e  Fidel de Castro
(foto Agostinho Neto Uma Vida Sem Tréguas, Acácio Barradas)

É neste contexto que deveríamos examinar o papel de Cuba no mundo. Em 1970, não obstante os protestos de quem tinham assimilado completamente a mensagem guevarista dos sessenta, Castro abandonou a via armada sem olhar para trás e colocou todo o seu considerável peso a favor da via política ao socialismo representado por Alende no Chile. Agora Cuba queria estabelecer relações com governos nacionalistas burgueses tais como o de Velasco no Peru e o de Torrijos no Panamá, com base no anti-imperialismo comum independentemente do tratamento que se foi dado à classe operária. Cuba estava construindo uma aliança com o estados afins, não um movimento internacional de luta.

Neste sentido, depois de um breve período de divergência nos finais dos anos sessenta, as estratégias cubanas correspondiam estreitamente com os interesses soviéticos. Numa intervenção em Argel em 1970, Castro utilizou a autoridade de Cuba para apoiar o papel soviético na conferência do Movimento de Países Não-Alinhados e denunciou quem acusava a URSS de imperialismo. A visita de Castro ao Chile deu uma nova legitimidade aos partidos comunistas latino americanos, desacreditados pelas suas actuações anteriores. De forma muito real, Cuba actuou em nome da União Soviética procurando zonas de influência na América Latina e exercendo o papel de dirigente na formação de um bloco não alinhado.

Há quem defenda que a destacada participação de Cuba nos assuntos internacionais, especialmente em Angola, indicava um retorno ao velho internacionalismo. Por um lado, o internacionalismo dos anos sessenta fora parte de uma estratégia geral de transformação que agora tinha sido abandonada explicitamente; tinha um contexto mais amplo de busca de uma rede de relações com estados burgueses no contacto de um movimento não alinhado. E o que é mais significativo, a dependência económica política de Cuba com respeito à URSS era uma realidade consumada, e ainda que por vezes houvesse tensões e desacordos, Cuba seguia sendo uma defensora decidida da estratégia geral da URSS. O caso Angolano demonstra-o claramente.

Em 1975, Cuba mandou tropas para Angola pela primeira vez; o governo cubano insiste em declarar que o fez em resposta a um pedido específico de Agostinho Neto, líder do sitiado governo do MPLA. Durante o desenvolvimento da luta armada contra os portugueses, o MPLA tinha estabelecido um certo número de zonas libertadas que lhe davam o controle de 40% do território nacional. No entanto, na altura da queda do colonialismo português em 1974, não contava com uma força equivalente nas cidades, onde organizações nacionalistas de direita, a FNLA e UNITA, tinham uma base significativa.

Portanto, o acordo da retirada dos portugueses, assinado em princípios de 1975, era um compromisso entre as três organizações e dava uma série de garantias adicionais aos ex-colonialistas portugueses. Em meados de 1975, estava claro que, apesar dos acordos, a luta pelo domínio de Angola não tinha terminado e que, nas cidades, as manobras tendentes a proibir marchas e manifestações estavam ganhando o apoio da direita. Em Julho, Neto lançou um ataque militar contra a direita.

O governo sul africano também seguia com atenção os acontecimentos na região. Em resposta à descolonização e afim de impedir a formação de um bloco de Estados ex-coloniais, adoptou uma política de desestabilização e utilizou a hegemonia económica e militar na região para organizar uma série de ataques contra Angola e Moçambique. Respondeu à ofensiva à ofensiva do MPLA com movimentos de tropas através da fronteira angolana, vigiando a fronteira com a Namíbia e dando todo o seu apoio às forças da UNITA, situadas principalmente no sul do país. Nestas circunstâncias, Neto pediu ajuda a Cuba.

O pedido foi dirigido especificamente a Cuba; Neto e Castro contavam com uma sólida relação que se iniciou no período de "solidariedade" dos anos sessenta. Mas as implicações que tem deduzido alguns comentaristas no sentido de que a resposta cubana de mandar 35.000 soldados, era de certo modo, um acto de desafio à Rússia e uma manifestação de independência política cubana são enganosas. A descolonização deu aos soviéticos a oportunidade de obter influência regional na África do Sul, uma política depois santificada com a doutrina de Brezhneve. Os soviéticos proporcionaram um transporte aéreo massivo de material sem o qual as tropas cubanas não se teriam podido mobilizar com a força que o fizeram.

E no há nenhuma dúvida de que a rapidez da resposta o que permitiu mudar de forma decisiva o equilíbrio militar e garantir a derrota da invasão sul africana. No entanto, é curioso que estes analistas do papel cubano subestimem sistematicamente o elevado nível de actividades de massas nas cidades e, particularmente, em Luanda, a capital, onde os comités populares se asseguraram de que os sul africanos não puderam nem abrir uma segunda frente nem assumir o colapso político interno do regime. Quanto a forçar a retirada do sul africanos, os comités populares tiveram uma importância como as tropas cubanas, se não mais.

Angola é a peça chave de todo o discurso dos defensores do internacionalismo cubano. Mencionam a decisão inicial de enviar tropas, e a subsequente derrota do intento do golpe de estado de Nito Alves em 1977 (golpe do qual os soviéticos não informaram o governo, embora tivessem conhecimento do mesmo) como evidência da independência de Cuba com respeito aos interesses estratégicos soviéticos. As disputas entre fracções a intenção do golpe de 1977 foi resultado de uma delas tinham uma grande tradição no MPLA. O ponto chave é que o Estado que os cubanos foram defender tinha suprimido os movimentos de massas urbanas dos dois anos anteriores; isto é, as mesmas organizações que tinham desempenhado um papel tão significativo em 1975 ainda que depois tivessem sido apagadas da história.

Era evidente o governo angolano se tinha proposto construir um regime de capitalismo de Estado de linhas semelhantes ao desenvolvido em Cuba depois de 1970. A coligação anti-imperalista de Estados que Cuba previa reflectia exactamente os objectivos políticos de União Soviética. E neste caso, como na América Latina, o critério de inclusão parecia ter pouco a ver com os níveis de democracia interna ou com o objectivo de desenvolver a solidariedade internacional da classe trabalhadora; assim, os soviéticos reviam continuamente a sua definição do que constituía um regime aceitável, e o compromisso com o socialismo não era um dos critérios que utilizavam.

Por tanto, os cubanos não tiveram nenhuma dificuldade de defender o regime da Guiné Equatorial, brutal e repressivo. E o que é ainda mais importante, as tropas cubanas também defenderam os interesses soviéticos na Etiópia. Quando a Rússia anunciou novos acordos com o brutal governo de Derg na Etiópia que, ao mesmo tempo, estava em guerra contra o movimento eritreu de libertação e ao mesmo mantinha uma guerra de fronteiras com a Somália, o governo cubano pôs a suas tropas à disposição do governo etíope. Não de enfrentaram os eritreus, mas permitiram que as tropas etíopes tiveram as mãos livres para continuar com as suas selvajarias enquanto as tropas cubanas guardavam a fronteira somali.

A contínua presença de Cuba em Angola representava o apoio militar a regimes "progressistas", que era parte central da doutrina de Brezhnev, e a intenção deste era provocar a retirada dos Estados Unidos depois do Vietname para fazer progredir os objectos políticos e económicos soviéticos na região. O acordo Nkomati de 1984 entre Moçambique e Africa do Sul certamente foi um revés; mas a presença cubana era um factor importante para se assegurar de que Angola não seguiria o mesmo caminho. Por esta razão, Africa do Sul, que agora actuava através da sua própria UNITA, determinou lançar outra invasão em finais de 1987.

O sudoeste de África teve importância determinante nesta decisão: o que se esperava era que uma ofensiva importante em Angola e a conquista da cidade de Cuito Canavale permitiriam à UNITA estabelecer um centro de governo rival do MPLA. Na campanha de 1987-88 voltaram a ser derrotados; sem dúvida, a batalha crucial de Cuito Canavale foi ganha pelas tropas cubanas, ainda que o resultado global talvez o poder aéreo soviético e dos países do Este foram um factor decisivo.

O resultado foi a derrota militar da África do Sul. Mas dizer que esta única batalha transformou a situação na africa do sul e pôs fim ao apartheid seria absurdo. Os reveses angolanos mudaram a política do governo sul africano até a negociação, ou talvez confirmaram esta direcção. Mas os eventos subsequentes de nenhuma maneira poderiam ser descritos como indicadores da derrota do governo Sul Africano.

Em finais de 1988, todas as partes acordaram iniciar conversações de paz. Os soviéticos não tinham nenhum interesse na derrota de Angola mas, na era de Gorbachev, tão pouco queriam comprometer-se numa prolongada luta armada que poderia fazer desencadear a revolta africana. As negociações de 1988 puseram fim à guerra, mas representaram um compromisso profundo que reconhecia a influência da África do Sul nos factos e que, como resultado, dava à FNLA e à UNITA certa credibilidade. Como o negociador norte americano Chester Crocker disse: "Não há dúvida de que os soviéticos certamente utilizaram o seu papel e a sua influência, não sobre dois, mas sobre três das partes do acordo (isto é, Cuba, Angola e Africa do Sul)".

As negociações referiram-se tanto à vertente norte americana-soviética como à situação na sul africana. A retirada das tropas cubanas de Angola realizou-se em resposta a uma nova atitude soviética com respeito aos assuntos sul africanos, atitude que implicava a substituição da doutrina de Brezhnev sobre a consecução de zonas de influência, por cooperação económica e política com o Ocidente. O encerramento dos departamentos da ANC em Angola e os compromissos com a UNITA foram o preço imposto aos angolanos. Por outra lado, também Angola estava procurando, desesperadamente, a cooperação económica com os bancos e as agência ocidentais.

E, apesar do evidente descontentamento de castro com alguns termos do acordo final, estava claro que a retirada de tropas foi imposta por uma situação global sobre que Cuba tinha pouca influência. O tom do discurso de Castro, repleto de alusões veladas à traição e o compromisso, sugerem que talvez tivesse visto Angola como a oportunidade (ilusória) de adquirir estatura internacional independente.

Durante esses 13 anos de participação, a intervenção angolana converteu-se também num sério problema para os cubanos. Um dos deus aspectos era o número de o aumento de deserções e problemas de drogas cada vez mais graves; outro, era o crescente exército de veteranos cujas esperanças de emprego e habitação ao regressar não se viam realizadas. Os 1000 cadáveres que regressaram a Cuba criaram desilusão e desesperação, especialmente quando se repetiam as histórias (ainda que informações na imprensa fossem mínimas durante toda a guerra) da impopularidade entre as tropas e a povoação local.

A outro nível, a presença de Cuba em Angola não era totalmente desinteressada. Angola é um dos produtores de petróleo más importantes e o custo da presença cubana em Angola pagou-se com petróleo. Um acordo firmado em 1981 concedia a Cuba uma central pesqueira e importantes direitos de pesca em águas africanas. Também noutras zonas a ajuda cubana estava relacionada com as exportações. A construção (no Vietname, por exemplo) implicava não só trabalhadores cubanos bem como materiais cubanos, sobretudo cimento; e as equipas de médicos cubanos, sempre extremamente bem preparados, levavam medicamentos que cada vez adquiriam más importância na lista de exportações.

Tradução livre

http://www.enlucha.org/folletos/cuba.html

Fidel Castro em ANGOLA