ILHA DOS CASTROS


NS. NOTÍCIAS SÁBADO, 28 ABRIL 2007.
Texto: ANA SOFIA FONSECA
Fotografia: JORDI BURCH, em Cuba.

Em vésperas do Dia do Trabalhador, Havana vive uma calma podre. À medida que os rumores aumentam sobre o regresso de Fidel, dimininuem os de mudança. Nove meses depois de Raul assumir o poder, tudo continua igual. Os Castros são ainda quem mais ordena.

"A palavra-chave deste país é inventar

Todos temos de inventar para sobreviver. Se Fidel morrer, algo terá de mudar"

FRUSTRAÇÃO. O quotidiano nas principais ruas de Havana pouco ou nada mudou desde que Fidel Castro delegou o comando de Cuba no irmão.

O SOL DO MEIO-DIA tomba sobre Havana. Abrasa como a proximidade da final do campeonato de base-bol, desporto que enlouquece a ilha. A dois passos do Paseo del Prado, junto de uma árvore de copa larga, um magote de homens improvisa um túmulo. Escorrem suor e euforia. Não há candelabros, mas há latas de refrigerante. Não há lápide, mas há esferovite - um pedaço velho com o nome do treinador do Villa Clara, clube derrotado pelos rapazes de Santiago. Ricardo Torrientes, organizador do 'enterro', clama pelo título de campeão: "Vai ser nosso, vai ser nosso!" Nesta segunda-feira, meados de Abril, política é assunto que enjeita. Já lá vão nove meses desde que, pela primeira vez em 48 anos, Fidel Castro não ocupa a presidência e tudo continua na mesma. A única mudança conta-se de uma tacada: Ricardo vai poder ver a final descansado.

Os discursos intermináveis, e por vezes imprevistos de El Comandante acabaram a 31 de Julho passado, quando delegou o poder no irmão, Raul Castro, antigo ministro da Defesa e seu braço-direito. Na televisão nacional, a propaganda deixou de levar a melhor sobre o ópio do povo. E, num país onde nada é certo, isso é tudo. Os homens podem agora sintonizar o televisor para assistir aos jogos e as mulheres à telenovela brasileira. Sem medo de que Fidel se lembre de discursar. Cláudia Hernandez desliga o televisor. Está farta do telejomal, um chachachá dos bens de Cuba e dos males dos Estados Unidos. Põe um disco de música berbere, puxa urna almofada verde-escura. Sentada no chão da sua sala, um quarto andar à margem do circuito turístico, faz-se indiferente ao vento e à frustração que correm em Havana. À conta da tormenta não tem electricidade, à custa da situação do país não tem vida: "Se pensar muito, enlouqueço." Soma 25 anos, sardas no rosto e uma licenciatura em Farmácia. Não exerce, costura xailes para fora: "Se vender um por mês, a 30 dólares, ganho mais do que como farmacêutica." Em Julho, a notícia da doença de Fidel e a consequente transição de poder para Raul fê-la acreditar que a ditadura viria abaixo, mas essa é esperança passada. Sabe bem que a mudança se ficou pelo nome do governante. E apenas pelo primeiro. Levanta-se, dá dois passos até à cozinha: "Está tudo igual, o Raul ainda é pior que o Fidel. No l.e de Maio, por exemplo, vamos todos para a rua por causa do medo de represálias. Será que o Fidel já morreu ou será ele quem ainda manda? Será que é desta que regressa?" As suas interrogações são as do país inteiro. Doze milhões de almas, três quartos das quais nascidas depois da revolução. Falta informação, sobeja propaganda - o futuro de Cuba é tertúlia estrangeira que pouco atravessa o oceano. Além disso, indiferente às conjecturas, Raul tem conseguido manter o castrismo sem Fidel. Na cozinha, Cláudia prepara vinagre. Deita cascas de batata num garrafão de plástico, água e açúcar no fundo. A seguir, agita-o com força: "A palavra-chave deste país é inventar. Todos temos de inventar para sobreviver." Na marquise, garrafas de cerveja suportam pequenas tábuas, morada de cactos plantados em caixas de gelado. Cláudia, pés magros nuns chinelos de enfiar o dedo, muda o disco. O que mais a angustia é suspeitar de que a morte de Fidel pode não ser a morte do regime. Por momentos, o desabafo rouba-lhe o sorriso meigo: "Cuba é Fidel. Se ele morrer, algo terá de mudar. Mas não acredito que mude muito, eles são demasiado fortes e o medo também." Sabe do que fala, tinha 15 anos quando, à conta de ser a melhor aluna da turma e um exemplo de solidariedade, foi escolhida para alinhar na União de Jovens Comunistas.


Havana actual (foto revista)

"Está tudo igual, o Raul ainda é pior que o Fidel. No 1.° de Maio, vamos todos para a rua por causa do medo de represálias"

Á ESPERA. A noite na marginal de Havana é passada entre charutos, rum e música. Velhos e novos aguardam que Fidel volte a aparecer em público no Dia do Trabalhador.

No início, até gostou de repetir o lema: "Estudo, Trabalho, Arma". Depois, começou a achar que a revolução cheirava a mofo. E, num ápice, percebeu que aquela não era a sua luta. Ou melhor, estava do lado errado da barricada. "Não me meto em política, mas se calhar sou revolucionária". Expressão curiosa, sobretudo num país onde os revolucionários são os que estão instalados no poder. Ignácio Martin é um revolucionário. Aos 62 anos, o capitão na reforma mantém-se firme no posto: "Dou a vida pela revolução, pelo socialismo, por Fidel." Está sentado numa cadeira de balouço, assento de fitas vermelhas. A cozinha é pequena, um velho frigorífico americano ocupa o lugar de honra. Quando soube que Fidel estava condenado à mesa de operações, à conta de uma hemorragia intestinal provocada por uma doença catalogada "segredo de Estado", Ignácio quase chorou. O líder é o seu herói, sente que lhe deve o mundo: "Eu vivi o capitalismo, a revolução foi muito boa para Cuba. Houve algumas coisas malfeitas, mas o Fidel não teve culpa. Foram coisas que ele nem sabia." A transição da presidência para Raul, essa, assustou-o menos:

"Continua tudo igual, também é um homem recto e o povo comportou-se com muita disciplina. Entregou-se ao trabalho e à luta." Tranquiliza-o saber que Raul não será o homem da transição. Apesar de ter sido responsável por reformas como a abertura ao turismo, cabe-lhe a fama de ser mais ortodoxo do que o irmão. "O partido está consolidado, tem uma série de jovens prontos para seguir em frente. Mesmo que algum descarrile, os outros afastam-no", garante Ignácio. Martela Guevara, a mulher, serve-lhe café. Usa o cabelo curto, calças laranja. Tem 65 anos, décadas empenhadas numa fábrica têxtil. Diz-se revolucionária, defende o socialismo com fervor: "Fidel não quer que haja ricos porque aqui somos todos iguais. As pessoas dos países capitalistas que vêm conhecer a verdade de Cuba ficam com vontade de mudar." Ignácio põe açúcar na chávena e completa-lhe a teoria: "O capitalismo tende a cair, o socialismo vai triunfar." Maneia brinda-o com um sorriso temo. A dias do l ° de Maio, rejubila com a possibilidade de Fidel regressar "Ai, se ele aparecer nem que seja para saudar a multidão, a praça vem abaixo!" Também ela o iliba das dificuldades da revolução: "A culpa é do imperialismo, do bloqueio americano. Estamos sempre ameaçados de invasão, foi preciso gastar muito dinheiro em trincheiras e armamento." Ainda assim, acredita que foi bastante o que se investiu nas bandeiras da revolução: saúde e educação. Orgulho que nem os dados da CIA contrariam: 97 por cento da população está alfabetizada.

Onze da noite, o calor reclama camisas de alças e cerveja na mão. No Malecón, a larga marginal de Havana, centenas de pessoas aguardam a madrugada. Não têm dinheiro para entrar em discotecas, nem nas permitidas aos cubanos, e por isso fazem a festa na rua. O frenesim abafa o som das ondas a baterem no paredão. Ouvem-se acordes arrancados a guitarras, risos, pregões de vendedores, buzinas de carro e pressas de motas. Rodam garrafas de rum, olhares de engate e passos de salsa. Encostado ao muro, um grupo de amigos canta cantigas de escárnio. Às tantas, aproxima-se um estranho. Eles mal se entreolham, mudam o repertório. Maylia Perez, boneco de pelúcia ao colo, inventa assunto: "Cuba tem muitas qualidades, aqui os trabalhadores não são explorados." Tantos anos de ditadura tornaram os cubanos desconfiados como personagens de um livro de espionagem. Ninguém confia em ninguém, todos são potenciais agentes do Ministério do Interior. A poucos minutos do Malecón, deambula um velho de barba "à revolucionário" e crucifixo branco ao peito. A sua casa é a rua, tudo o que tem cabe numa mala de plástico cor-de-rosa e numa saca de batatas. Passa pela polícia, ensaia um passe de baile e ergue a voz: "Viva Fidel!" Aos loucos ninguém liga, faz de conta que perdeu o juízo. O disfarce é capa protectora para tudo analisar: "Cristóbal Cólon chegou a Cuba e disse que esta era a terra mais linda que os olhos humanos já tinham visto." Mexe na barba, acaba a frase: "Só é pena ter tantos cabrões..." Depois, longe dos olhares da autoridade, declina o Tratado dos Corpos Flutuantes e apresenta-se: "Sou Arquimedes, como o físico de Siracusa, o que inventou a equação que permite pôr um barco sobre a água." Solta uma gargalhada, agarra um trago de rum. Pudesse ele navegar até Miami e gritaria como o grego: "Eureka! Eureka!" Continua caminho, é hora de encontrar um banco de jardim. Acena adeus e ruma em direcção às árvores, onde, pela manhã, uma multidão festejava a vitória no jogo de basebol. NS|