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A DECISÃO FINAL


General Del Pino (foto 2006 TV)

Neste excelente livro o general Del Pino relata minuciosamente o que se passou em Cuba e na guerra em Angola. Sugerimos vivamente a sua leitura  a todos aqueles que estão interessados em saber a verdade sobre a descolonização e guerra em Angola.  Como o livro tem copyright e não será fácil de adquirir àqueles que vivem em Angola, solicitamos a complacência da Editora e do autor. Obrigado

Decorreram alguns meses desde o instante em que decidi romper definitivamente com o regime estalinista de Fidel Castro, até ao momento de levar a vias de facto o meu plano. Nesse espaço de tempo, dei perfeita conta se que se algum dia quisesse ser espia, tinha resultado um rotundo fracasso. Não sei se será um defeito ou uma virtude herdada dos meus progenitores galegos, mas o certo é que se me torna quase impossível fingir o que sinto. Às vezes, nos momentos em que deveria ser mais discreto e cauteloso, não podia conter-me e em mais de uma ocasião estive a ponto de deitar tudo a perder. Sei perfeitamente que o enorme aparelho repressivo do regime tem-se dado conta da estranha maneira que me comportava e todavia estou-me perguntando a que causas aperceberiam eles a minha manifesta oposição ao grupo de poder que governa o nosso país.

O que se tornava evidente, é que aumentaram o controle sobre a minha pessoa a partir de 19 de Abril de1986, quando recusei um convite de Fidel Castro para ocupar um assento da presidência do acto central do 25 aniversário da vitória na Baía dos Porcos, celebrado no teatro Carlos Marx da cidade de La Habana. Digo aumentado, porque nenhum oficial das Forças Armadas cubanas, tal como qualquer cidadão comum de Cuba, se encontra isento do sistemático controle por parte dos órgãos de Segurança de Estado e a Contra inteligência Militar.

Dias antes do dito acto central do 25 do aniversário da vitória na Baía dos Porcos, tive uma forte discussão com vários oficiais da secção política de DAAFAR, originada por uma crítica aberta que tinha feito, com respeito à pouca ou nenhuma importância que se dava aos nossos mártires mortos. Ao que parece, a minha crítica ultrapassou os limites toleráveis. Naquela ocasião, não consegui conter-me e manifestei que não entendia em absoluto que se tivesse feito um monumento à vaca "Ubre Branco". (...)

Aquele incidente, unido à minha negativa de assistir ao mencionado acto central e a minha manifesta oposição à guerra em Angola, foram mais que suficientes para começar a ser apontado de "problemático" e por isso, cair na mira dos órgãos da Contra inteligência Militar.

Não obstante as dificuldades que se me criaram por falta de cautela, pude dar-me conta de que o regime tinha analisado já o meu comportamento, e muito subtilmente começou a orquestrar à volta da minha pessoa uma refinada campanha sobre aparentes "desajustes psíquicos", produto de excesso de trabalho.

Logicamente, tornava-se muito difícil poder apontar-me de contra revolucionário e tão pouco lhes seria fácil aplicar-me medidas disciplinares, por questões que todo o mundo criticava em voz baixa. Além disso, provavelmente calcularam com certa lógica, que a gente fazia eco da campanha hoje em dia, com a selvagem repressão existente em Cuba, aquele que se manifestava abertamente contra os desvarios do regime tem de estar definitivamente louco. Tempo depois, ao dar-se a minha ruptura com o regime, se aperceberam que necessariamente não tinha que ter perturbadas as faculdades mentais para opor-se à autocracia governante; aprenderam a lição e, em Junho de 1989 actuaram sem contemplações, destruindo o mais proeminente dois seus generais e herói da República de Cuba, o general de divisão Arnaldo Ochoa Sanches.

Pensando que podia deitar a perder o plano que já começava a traçar na minha mente, decidi, a partir daquele momento, actuar com mais cautela e evitar todo o tipo de exageros. Mas o regime continuava manobrando e apareceram mais surpresas. Uma manhã recebi a imprevista notícia que devia dirigir-me aos armazéns centrais das Forças Armadas, situados fora de La Habana, para recolher um automóvel novo, oferta do general do general do Exército Raul Castro.

Aquela "generosidade" dizia-me claramente que o plano traçado pelo regime para me fazer mudar de atitude, tinham analisado também a possibilidade de comprar a minha consciência. Isto pude verificá-lo definitivamente mais tarde, no mesmo dia da minha partida de Cuba. Nesse dia, da parte da manhã, fui chamado ao gabinete do ministro das Forças Armadas para receber também como oferta uma casa nova. Conhecendo o terreno que pisava comecei a modelar na minha mente todo um plano para poder escapar e salvar também a minha família.

Com o veículo a utilizar não tinha nenhuma dificuldade. As boas relações existentes entre a Força Aérea e a empresa Aerocaribean possibilitavam-me o uso de alguns dos seus pequenos aviões empregados como táxis aéreos. Além disso, pessoalmente, mantinha estreitos contactos com os diferentes directórios da companhia; a minha esposa era uma das suas hospedeiras de bordo e na realidade não resultava nada suspeito que eu utilizasse algum dos seus aviões.

Existiam apenas duas dificuldades principais. A primeira, como poder entrar no quartel general da DAAFAR com toda a minha família, ir até à rampa de voo que se encontra além do edifício do Estado Maior e abordar ali o avião sem levantar suspeitas. A segunda e mais perigosa radicava na baixa velocidade da aeronave que estaria disponível. A maior parte dos pequenos aviões utilizados como táxis aéreos pela Aerocaribean escassamente conseguem alcançar a velocidade de cruzeiro de 160 nós. Esta velocidade somente me possibilitava percorrer cinco quilómetros por minuto, enquanto que os Migs-23 podiam deslocar-se até vinte quilómetros no mesmo tempo.

Sabia que enquanto descolava ia ser captado pelos radares destinados à detecção de objectos a baixa altura, colocados no terraço do edifício mais alto de La Habana (FOCSA) e nas alturas de La Cabana, na mesma entrada da baía. Uma vez que notassem o meu afastamento da costa, dariam o alarme aos pilotos de "alerta" para interceptar-me. As normativas estabelecidas para saírem os pilotos de "alerta" na Força Aérea Cubana, é de três minutos quando se encontram nos salões de espera e de um minuto quando se encontram sentados nas cabines das respectivas aeronaves ao que chamam a "posição" Nº1 ou "Alerta Vermelho" noutros países. Como norma, também os pilotos cubanos que se encontram de guarda ocupam a "posição Nº1" trinta minutos antes que amanheça e escureça.

Por tanto, o melhor momento para executar o meu voo deveria ser no período em que os pilotos se encontram nos salões de espera para assim contar com três minutos a meu favor. A este lapso devia somar-lhe o tempo de retardo o período de reacção em que o controle de intercepção nota a situação anormal e transmite o alarme. Nestas normativas o tempo é calculado num minuto. Portanto, dispunha de quatro minutos no total em meu favor que, traduzidos em distância de voo, significavam vinte quilómetros de afastamento da costa no momento em que os primeiros par de interceptores Mig-23 descolaria para dar-me caça.

Utilizando os manuais técnicos dos radares P-18 e P-19 empregados para a detecção dos voos a baixa altitude, consegui calcular o mais aproximadamente possível a distância total em que estes podiam seguir-me até que a curvatura da Terra os impossibilitaria. A possibilidade técnica de ambos os tipos de radares para detectar voos rasantes, era aproximadamente oitenta quilómetros.

Desta maneira consegui calcular a partir do minuto número quatro depois de por rumo norte até ao minute doze, estaria ao alcance de ser interceptado.

Para certificar-me bem do tempo que estavam fazendo os pilotos de alerta desde que se lhes transmitia o alarme até descolarem, fui várias vezes à base aérea de Santo António dos Banhos e, com o pretexto de comprovar a disposição combativa, realizámos várias práticas de treino. Em cada uma delas os pilotos de guarda fizeram menos dos três minutos estabelecidos nas normativas, flutuando entre dois minutos e vinte segundos até dois minutos e quarenta e cinco segundos.

No dia 15 de Abril do mesmo ano, 1987, comunicaram-me que deveria viajar a URSS com uma comissão de diferentes especialistas da DAAFAR para realizar todas as coordenações de treino e práticas de tiro real ar-ar dos pilotos cubanos no polígono soviético de Astrajan. De momento, devia por a dormir o plano elaborado até o meu regresso da URSS. (...)

Regressei a Cuba em 5 de Maio, e continuei decididamente com os meus planos de escapar e poder salvar a família.

Nos últimos anos tinha voado somente em aviões de combate Migs e necessitava refrescar os procedimentos e técnicas utilizadas nos aviões pequenos ainda que mais fáceis de pilotar, sempre possuem mecanismos diferentes e é necessários conhecê-los por razão de segurança. Contactei com um dos pilotos da Aerocaribean e com o pretexto de manter a minha qualificação como piloto de transporte quando deixasse de voar nos Migs pedi-lhe para fazer alguns voos de refrescamento nos aviões usados como táxis aéreos pela dita empresa. Efectuamos um curto treino no aeródromo de Varadero e uma vez em condições, ficou tudo pronto para o plano.

Em 24 de Maio solicitei ao director da empresa Aerocaribean um dos seus pequenos aviões, com o fim de executar um voo particular. Respondeu afirmativamente à minha solicitação e propôs-me que para tornar a coisa mais simples, podia utilizar um Cessna 402 bimotor que tinha acabado de sair da oficina de pintura no próprio aeródromo de Ciudad Libertad, contíguo ao Estado Mayor da DAAFAR. Aqui surgiu uma nova e inesperada dificuldade com o técnico de voo do avião; já que este era o responsável de tirar a aeronave do hangar, era ele que tinha em seu poder as chaves que abriam as portas do Cessna e eu necessitava que no momento de abordar a aeronave com a minha família não estivesse ninguém presente.

No dia 25 de manhã dirigi-me junto com o técnico do avião à empresa de reparações de Cidad Liberdad e depois que este tirou a aeronave para a linha de voo e todos os tramites do pagamento da pintura foram efectuados, propus-lhe colocar uma fechadura nova na porta do Cessna pois a velha não correspondia com a elegante máquina depois de pintada. Prieto acedeu gostosamente à troca da fechadura que nesse momento lhe proporcionava e, logicamente, no meu bolso direito ficava uma cópia das suas novas chaves.

No dia seguinte dirigi-me à tarde a casa de Ramsés e encontrei-o atarefado com uma das suas pinturas. Saímos para o pátio e sem mais rodeios, passei directamente a abordar-lhe a questão.

- Amanhã estaremos livres! – disse-lhe emocionado e continuei falando -. Como sei da tua maneira de pensar, vim a comunicar-to para ver se queres acompanhar-me nesta empresa. Não me respondas sem no entanto pensá-lo bem, analisa o que significa um passo desta natureza. Prognostico que sobre nós cairá toda a ira do regime. Seremos difamados e catalogados de repugnantes traidores. Eles têm nas suas mãos o controle absoluto de todos os meios de informação e sem lugar a dúvidas, tecerão à volta de nós as mais sinistras histórias. Além disso, antecipo-te que o futuro será incerto, mas qualquer coisa é preferível a continuar a ser cúmplice dos que tem escravizado o povo. Tu o dirás!

Ramsés, sem poder conter o seu assombro, acercou-se de mim e abraçando-me disse-me emocionado: - Papi, tu sabes que comigo sempre poderás contar para tudo! Eu não preciso pensar no que faz tempo tinha decidido. Agora que me falas assim, vou confessar-te algo que nunca imaginas-te. Mais de uma vez pensei em voar até à liberdade com um Mig-23. Se não o fiz, foi por ti, porque te quero muito e sabia o dano que podia ocasionar-te. Não te atormentes com o que o regime possa dizer de ti. Eu estou dentro do povo, sei como a gente pensa, e ainda que eles crêem que enganam o povo, o homem honesto, no seu foro interno, aprovarão a tua acção. A ti te é difícil compreender isto porque levas anos vivendo dentro da elite, mas deixa-me dizer-te "velho", que o povo sofre; o cidadão comum, o simples trabalhador, sentem o peso da opressão. Se às vezes seguem a rima do governo é simplesmente um mecanismo de auto-defesa e porque cada um aprendeu bem o papel que lhe toca neste imenso teatro para poder sobreviver.

-OK, amanhã recolho-te às quatro da tarde – respondi-lhe e nos despedimos.

Regressei a casa aproveitando que a minha se encontrava no trabalho peguei os meus mapas e dei-me ao trabalho de tirar todos os cálculos de navegação para a travessia. À medida que avançava nos meus planos, uma excitante emoção se apoderou totalmente de mim. Tinha toda a tarde e a noite para trabalhar em silêncio. A minha esposa regressaria do seu voo na manhã seguinte. Às nove da noite, saí para comer algo e passei pelo departamento de meteorologia da DAAFAR para conhecer os prognósticos do tempo nas próximas 72 horas. (...)

Entre a elaboração dos meus planos e o inesperado incidente não pude pregar os olhos toda a noite. Cedo, pela manhã, dirigi-me ao aeródromo de Ciudad Libertad para verificar o estado do avião recém saído da pintura e encontrei o técnico trabalhando no motor direito tratando de corrigir um defeito surgido durante o arranque. Os motores da aeronave estão muitos dias sem trabalhar e parece que o sistema de injecção de combustível tinha alguma obstrução. Às duas da tarde terminou de corrigir o defeito e fechamos o avião e deliberadamente, levei Prieto a sua casa para estar certo de que não estaria no aeroporto quando chegasse com a minha família. Preenchi um plano de voo para efectuar um possível passeio sobre a cidade e depois de aprovado dirigi-me a casa de Ramsés como tínhamos combinado. Juntos nos dirigimos para recolher o meu filho mais novo de quinze anos na sua casa e posteriormente a minha mulher e a minha pequena filha.

A tensão crescia por momentos. Apenas Ramsés conhecia os meus planos e a própria inocência e ingenuidade do resto da família aumentava a excitação nervosa nos minutos que estávamos vivendo.

Cegamos à entrada principal do Estado Maior da DAAFAR às 16:25 horas. Os soldados de guarda saudaram disciplinarmente e continuei no meu carro até passar o edifício central, entrando no campo de voo por uma das ruas que conduzem à rampa de estacionamento onde estão estacionados os aviões. Detive o automóvel a uns metros do Cessna 402 e disse à minha família que permanecesse no interior do carro uns minutos porque queria ensinar a Ramsés como se arrancava o avião e ambos nos dirigimos para a máquina. Utilizando a minha cópia das chaves penetrámos no interior do Cessna e quando realizávamos a lista de verificação para por em marcha os motores vimos aproximar-se dois dos soldados que patrulhavam a área.

Imediatamente desci do avião e me dirigi a eles mantendo a calma para não levantar nenhuma suspeita. Saudamo-nos e ao distinguir nos meus ombros as estrelas de general deram meia volta e continuaram a sua ronda.

Regressei ao avião, pusemos em marcha o motor esquerdo e esperamos uns segundos para proceder com o outro. Copiosas gotas de suor começaram a escorrer pelas minhas fontes. Ligámos todos os interruptores necessários e premi o botão de arranque. A hélice direita começou a mover-se lentamente, dei-lhe um pouco de injecção de combustível mas continuou a girar sem se efectuar a combustão nos pistões. Tentei infrutuosamente uma e outra vez até que me convenci que o defeito continuava e era impossível arrancá-lo. Olhei para Ramsés e este com tranquilidade e pasmo me disse: - Porra!

Pus todos os comandos e interruptores na mesma maneira que os tinha encontrado, saímos do avião e depois de deixar os meus filhos varões nas suas respectivas casas, regressei à minha.

A ingenuidade da minha esposa me atormentava. Ela dava-se conta do meu estado de ânimo mas eu não me atrevia a comunicar-lhe os meus planos; não porque os fosse a reprovar mas porque me preocupava que, mulher ao fim, conhecendo o perigo que corríamos, os seus nervos a fosse a atraiçoar deitando tudo a perder.

Na manhã seguinte, cheguei ao aeródromo bem cedo. Queria estar ali quando aparecesse o Prieto, para montarmos ambos no avião e sem dizer-lhe nada do que tinha ocorrido na tarde anterior, intentar um arranque para que se desse conta de que o defeito continuava e que o podia corrigir durante o dia.

O motor directo também não arrancou nessa ocasião e me fui depois de combinar com o técnico que me chamasse pelo telefone uma vez concluída a reparação.

Ao sair do aeródromo, em lugar de dirigir-me a casa, preferi conduzir ao longo de toda a Quinta Avenida e sair passeando no molhe habanense. Tinha necessidade de relaxar um pouco a tensão nervosa e não sei porquê, mas essa formosa parte da nossa capital sempre teve o dom de devolver-me a tranquilidade.

Estacionei o automóvel por baixo do velho Hotel Nacional e saí a caminhar só com os meus pensamentos em toda a extensão da costa.

Milhares de reflexões começaram a afluir à minha mente. Estarei fazendo bem, arriscando desta forma a vida da minha família? Jamais poderia perdoar-me que algo se passa-se a esta menina tão pequena que agora começa a viver. Prefiro que me descubram e me levem ao pelotão de fuzilamento antes que passe algo com qualquer dos meus. Mas devo seguir adiante. O coração diz-me que tudo sairá bem. Eu já desgastei a minha vida ao lado de um regime tirânico e não tenho o direito de condenar os meus filhos à mesma sorte, tendo nas minhas mãos a possibilidade de dar-lhe a liberdade. Que Deus nos proteja neste momento crucial.

Perdi a noção do tempo. Mais calmo, empreendi o regresso depois de contemplar como o astro rei ficava submergido no vasto horizonte. Ao chegar a casa, a minha mulher comunicou-me a esperada mensagem. Prieto tinha chamado. O avião estava pronto.

"Amanhã sim estaremos livres", disse cá para mim. No entanto tinha também outra mensagem alarmante. Por ordem do Ministro das Forças Armadas, general do exército, Raul Castro, devia apresentar-me no seu gabinete às 09:00 da manhã. Aquela inesperada citação me fez supor muitas coisas. "Chamavam-me para me reprimir pelo meu inaceitável comportamento dos últimos tempos tinham sido descobertos os meus planos e pretendiam prender-me discretamente, sem formar muita confusão". Veio-me à mente a forma tão refinada como Hitler eliminou Romel quando soube que este formava parte de um complot contra ele. Os métodos do comandante não se diferenciam em absoluto dos utilizados pelo Fürer da Alemanha nazi.

Sem mudar o meu plano no mínimo pormenor, saí novamente e dirigindo-me às casas de Ramsés e do meu filho menor comuniquei-lhes que os recolhia no dia seguinte depois das onze da manhã.

28 de Maio de 1987, 8:15 da manhã.

Pus em marcha o motor do meu automóvel e sem esperar sequer que estivesse quente parti para ir à reunião programada. No espelho retrovisor vejo reflectidas as minha escuras olheiras que marcaram o meu rosto pelas sucessivas noites más noites. Da minha casa ao Ministério das Forças Armadas eram somente quinze minutos. Sabia que chegaria com bastante antecedência, mas pareceu-me que assim podia sair dessa incerteza quando antes. Seja o que fora, preferi conhecê-lo de uma vez da agonizante espera.

Às 9:16 da manhã um dos oficiais comunicou-me que o general Bruno desejava ver-me no seu gabinete. Entrei no amplo gabinete, convidou-me para me sentar frente à sua secretária e depois de dar ordem para nos trazerem café começou a falar.

- Te citámos para te dar uma boa notícia. O ministro foi-lhe impossível estar aqui hoje, mas me deixou recomendado que te comunicasse que tinha dado ordem para que te dessem uma casa nova. Aqui estão as chaves, podes mudar-te quando quiseres.

Peguei nas chaves nas mãos apertando-as fortemente enquanto milhares de pensamentos passaram pelo meu cérebro em alguns segundos. Por um instante estive a ponto de deitar tudo a perder. Me deu desejo de atirá-las à cara e dizer-lhe tudo que sentia na minha alma; gritar-lhe com todas as minhas forças que ainda havia em Cuba homens que não se compram com uma casa ou um automóvel; que a dignidade não tem preço e que ainda que pensassem que tinham nas suas mãos a submissão de todos, há muitos outros que como eu que tem dito: basta, e estão dispostos a devolver à nossa pátria a sua liberdade.

A expressão do meu rosto ante a surpresa por tão "bondosa generosidade" chamou a atenção de Bruno.

- Que se passa? Parece que não te alegra este presente do ministro – disse-me surpreendido.

Raciocinei imediatamente. Contendo os meus impulsos, decidi dar um pouco de colorido à última cena da trágica comédia vivida durante tantos anos e que para mim chegaria ao seu fim dentro de poucas horas.

- Claro que me fez muito feliz! O problema é que a surpresa foi tão grande e estou tão emocionado que quase perdi a fala! (...)

Tradução livre.