BERTRAND EDITORA
Lisboa 2014
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4.1 A FILHA DO PRESIDENTE DE ANGOLA

Dado o conteúdo deste excelente livro recomendamos a sua leitura a todas as pessoas interessadas neste tema. Como o livro possivelmente não poderá ser vendido em Angola pedimos a complacência da editora e dos autores pela publicação deste capítulo e imgens.

A maior fatia de riqueza angolana aplicada em grupos económicos portugueses está nas mãos de Isabel dos Santos. No primeiro trimestre de 2013, esta parte da sua fortuna aumentou 66 milhões de euros na valorização de ações, ficando estimada em cerca de 2,3 mil milhões, só em títulos cotados na bolsa portuguesa. Como sublinha a revista Forbes, cerca de metade da fortuna de Isabel dos Santos está localizada em empresas cotadas em Portugal (Forbes, 02/09/2013).

O mais antigo parceiro de negócios português de Isabel dos Santos é Américo Amorim. Chegaram juntos à Galp, em 2005. Foi também com Amorim que Isabel dos Santos dominou a maior cimenteira angolana, a Cimangola, em 2007. O esquema da aquisição foi denunciado pelo Expresso: alegando razões estratégicas, o Estado angolano comprou os 49% detidos pela Cimpor por 56 milhões de euros, contraindo um empréstimo do BIC (de Isabel dos Santos e Américo Amorim) e entregando depois aquela participação à Ciminvest (dos mesmos donos). O Estado angolano manteve os 40% que já tinha na cimenteira, sendo o restante do banco BAI. Em 2010, Amorim vendeu a sua parte da sociedade com Isabel dos Santos a uma empresa do marido desta, Sindika Dokolo.

O BIC está no centro dos investimentos de Isabel dos Santos em Portugal. A filha do presidente detém um quarto do capital, através da holding Santoro, que também controla 20% do BPI. Em 2010, o BIC, dirigido por mais um ex-ministro de Cavaco Silva, Mira Amaral, comprou o Banco Português de Negócios ao Estado português, depois de uma nacionalização ruinosa, cujo impacto nas contas do Estado ainda não é conhecido em toda a sua extensão. A venda ao BIC luso-angolano fez-se por um valor simbólico, 40 milhões de euros. Mas, na sequência da privatização, o BIC vendeu o BPN aos seus próprios acionistas. A revista Visão desvendaria os contornos do negócio: a venda foi feita a crédito, esse crédito foi depois «anulado» através de uma diminuição de capital do banco. O Estado capitalizara o BPN com 600 milhões de euros, mais do que o estritamente necessário (V, 17/10/2013), e o BPN foi oferecido a Américo Amorim e Isabel dos Santos.

Outro dos pontos de apoio financeiros de Isabel dos Santos é o BPI português. O banco é dos mais antigos em Angola, onde se instalou em 1993 sob a sigla BFA, Banco de Fomento de Angola. Em 2008, a companhia de telemóveis e internet Unitel (a maior empresa privada angolana, detida a 25% por Isabel dos Santos e onde a PT portuguesa detém quota semelhante) adquiriu 49% do BFA. O banco, que continua dominado pelo BPI, é hoje o segundo maior banco privado em ativos, com mais de um milhão de clientes no país. Além desta participação, Isabel dos Santos é também a segunda maior acionista do BPI, com 19,5%.

Na entrada de Isabel dos Santos na Zon, o BPI teve um papel importante, concedendo um crédito de 150 milhões. Em 2010, Isabel dos Santos cria a Zap, operadora de TV por satélite em Angola, detendo diretamente 70% e, através da Zon, outros 30%. Em 2011, quando a troika impôs a saída da CGD do capital da Zon, a posição de Isabel dos Santos, atingindo os 29%, tornou-se dominante.

O mais recente aliado de Isabel dos Santos é o grupo Sonae. A fusão da Zon com a Sonaecom (que detém 100% da Optimus) dá lugar à ZOPT, veículo paritário que controlará 50,1% na empresa resultante da fusão. Estará presente nos negócios de telefone fixo e móvel, internet, televisão por subscrição, distribuição e exibição cinematográfica, venda de DVD. Foi também com o grupo de Belmiro de Azevedo que Isabel dos Santos lançou o Continente Angola, controlado a 51% pela parte angolana.

Outra das filhas do presidente angolano, Tchizé dos Santos, tem também aplicações importantes em negócios agrícolas em Portugal, neste caso em explorações na região do Oeste. O seu irmão, José Filomeno dos Santos, preside ao Fundo Soberano de Angola, que mobiliza cinco mil milhões de euros para aplicações em nome do Estado.