Económico

De ‘filha do presidente’ a ‘empresária angolana’


14/05/12 00:04 | António Costa

Isabel dos Santos tornou-se, definitivamente, o rosto do investimento angolano em Portugal, depois de ter investido, em apenas duas semanas, cerca de 90 milhões de euros no reforço da sua posição accionista em duas empresas, o BPI e a Zon, curiosamente através de negócios com espanhóis.

Na mesma semana em que o Governo angolano anuncia que Portugal deixou de ser uma prioridade. Coincidência? Nem tanto.

O caminho de Isabel dos Santos nos negócios em Portugal tem sido construído passo a passo, sem pressas ou precipitações, com tanto cuidado na forma como na substância, isto é, tanto na gestão de comunicação e na gestão política como nos negócios propriamente ditos. A primeira incursão, que se saiba, foi logo num peso-pesado, a Galp, companhia de que é accionista de referência desde há anos, através de uma sociedade em que também participa a Sonangol, claro, e Américo Amorim.

Isabel dos Santos beneficia, politicamente, de uma vantagem relativamente a outros investidores angolanos, excepção feita à Sonangol, que tem funcionado de alguma maneira como o fundo soberano de Angola em Portugal. Sabe-se quem é, não se escondeu por detrás de sociedades off-shore sem dono identificado. Além do próprio perfil de investimento, tem também sido este um dos motivos para a sua credibilização crescente em Portugal. À velocidade do investimento que já fez em Portugal ao longo dos últimos anos, passou de ‘a filha do presidente Eduardo dos Santos' para ‘a empresária angolana'. Já vale por si.

Isabel dos Santos ainda não concedeu uma entrevista em Portugal, apesar do peso que já tem em três companhias de referência. Sabe-se pouco do que pensa. Mas, apesar de tudo, tendo em conta a perfil do investimento que já realizou, particularmente no BPI e na Zon, é possível vislumbrar a estratégia definida há anos, o que a move. Isabel dos Santos esperou, pacientemente, pela melhor oportunidade, e melhor preço, para se tornar accionista de referência em empresas que, em Portugal, não têm por onde crescer. Mais ainda agora. E que dependem, e muito, de uma internacionalização que começou no país que conhece bem. Isabel dos Santos tem o controlo das operações, quer do BPI, quer da Zon, em Angola.

Em simultâneo, o anúncio do ministro de Estado, Manuel Vicente, de que Portugal deixou de ser uma prioridade, é sobretudo táctico, para diminuir a pressão mediática que se sente desde há meses em relação ao investimento angolano. E ainda bem, porque Portugal não deve ter preconceitos, ou desconfianças, relativamente ao investimento estrangeiro, desde que cumpra regras, desde logo de transparência. Seja na banca, no turismo ou até na comunicação social.
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António Costa, Director
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