Domingo, 28 de Setembro de 2008

Angola. Futuro do partido criado por Jonas Savimbi discute-se em 2009

Esperança nas presidenciais após o terramoto
legislativo da UNITA


UNITA aposta num duelo com José Eduardo dos Santos nas próximas presidenciais
(Foto DN)

Partido conseguiu apenas 10% dos votos e só terá 16 deputados

DAVID BORGES

A UNITA (União Nacional pela Independência Total de Angola) parecia ter futuro, em Setembro de 1992, quando Jonas Savimbi forçava José Eduardo dos Santos a uma segunda volta nas eleições presidenciais e o partido ficava a menos de dez por cento do vencedor MPLA (Movimento Popular de Libertação de Angola).

Dezasseis anos depois, o partido consegue pouco mais de 10% dos votos nas legislativas e vê o adversário MPLA ultrapassar os 80%. A formação recolhe, no plano nacional, quase metade dos votos que o MPLA conquistou só em Luanda e perde 54 lugares no parlamento. A UNITA olha com poucas ilusões para as eleições presidenciais do próximo ano e teme pelo seu futuro.

Marcada pelo peso da longa guerra e pela personalidade do seu criador - o próprio líder Isaías Samakuva reconhece que "não é fácil herdar a liderança de Savimbi" -, a UNITA depara-se com espaço de manobra muito reduzido e uma grave insuficiência de meios. Problemas que a redução do número de deputados vai ainda acentuar, obrigando o partido ater agora de lutar seriamente pela sua sobrevivência.

Na discussão dos resultados eleitorais, o Comité Permanente da Comissão Política considerou que embora com "uma representação menor, aumentaram a legitimidade e a importância da UNITA no espaço político angolano". Mas a verdade é que foi o próprio Samakuva quem definiu como objectivo mínimo o alargamento do número de 70 deputados na Assembleia Nacional".

Samakuva, procurando aligeirar a derrota e animar as hostes, afirmou que "não está em causa a direcção da UNTTA, mas sim a subversão do processo democrático e a manipulação da vontade popular". Assim, o dirigente atribuiu só 20% do insucesso às "debilidades" dentro do partido e espalhando os restantes 80% pelo conjunto de factores que reflectiram a influência do Estado (governado pelo MPLA) no processo eleitoral e pelos "vícios processuais e irregularidades" verificadas durante as eleições.

O partido voltou a manifestar confiança na sua direcção, mas outra coisa não era de esperar com eleições presidenciais previstas para o próximo ano. Só depois delas, e face aos resultados, estará o futuro da UNITA verdadeiramente em discussão. Se Samakuva, num inesperado milagre de contraste como que agora se passou, conseguir um resultado interessante no duelo com José Eduardo dos Santos, poderá sobreviver, talvez, ao congresso de 2011, para, no ano seguinte se avaliar em deflnitivo, o peso real do partido na luta política angolana.

Mas uma derrota presidencial tão pesada como a das legislativas, cortará o caminho a Samakuva e levará o partido para uma convulsão interna grave. Tal trará resultados imprevisíveis face ao risco latente de uma fragmentação que tem também que ver com a incompatibilidade das várias lideranças possíveis, com Abel Chivukuvuku e Lukamba Gato na primeira linha. Dificilmente o que restar de uma elite bem preparada e que dava à UNTTA um lastro interessante em 1992 aceitará esse percurso da fragmentação e da irrelevância.*


"Não está em causa a direcção da UNITA, mas a subversão do processo democrático e a manipulação da vontade popular"

Isaías Samakuva, líder da UNITA

42 ANOS DE ALTOS E BAIXOS

1966 A UNITA foi fundada em Muangai, na província do Moxico, onde decorreu, de 10 a 13 de Março, o congresso da sua constituição.

ANOS 60 E 70 Esteve no fio da navalha, pela luta anticolonial e, depois, pela vitória do MPLA na corrida para independência, que obrigou o partido à longa marcha que levou os poucos sobreviventes para as profundezas do Kuando-Kubango.

ANOS 80 E INÍCIO DOS 90 Viveu o seu período mais alto, com notoriedade internacional, em contraponto a um MPLA enquistado num regime de partido única e a sua Jamba a transformar-se num ponto de deleite excursionista para muitas figuras.

1992 Com a paz precária, a UNITA conseguiu, nas urnas, importantes resultados mas ao rejeitar o desfecho eleitoral, reiniciando a guerra, cometeu o seu grande erro histórica Na sangrenta luta de 10 anos que se seguiu, Angola quase se destruiu por inteiro e a UNITA foi-se aproximando de uma derrota quase mortal, forçada a abandonar, em 1999, os seus bastiões do Andulo e do Bailundo, e perdendo, em 22 de Fevereiro de 2002, o seu líder, Jonas Savimbi, morto na província onde tinha feito nascer a UNITA.

2002 A UNITA recompôs-se minimamente e, depois da assinatura do Memorando de Entendimento do Luena (4 de Abril), elegeu, em Outubro, uma nova Comissão Política. Entrou, a seguir, na Assembleia Nacional e no Governo de Unidade e Reconciliação Nacional, elegeu Isaías Samakuva como lider, renunciou para sempre à guerra, fez juramento de fidelidade à paz e à democracia e partiu para eleições.