Domingo, 5 de Outubro de 2008

Paulo Kasssoma e José Eduardo dos Santos: virar de página em Angola


(Foto DN)

Angola. Governo recém-empossado relança esperança no país

Uma economia social e a nova diplomacia

Paulo Kassoma, agora primeiro-ministro, foi bom governador do Huambo

DAVID BORGES

O novo Governo de Angola, agora absolutamente do MPLA e já sem o simbolismo de uma unidade nacional partidária configurada no tempo da frágil paz de 1992, parece estruturar-se em quatro linhas fundamentais:

- Renovada aposta numa economia, com traço essencial angolano, que dê mostras de muito maior preocupação social; desenho de um novo rosto, mais suave, para a política externa; acentuação da necessidade de queimar etapas na modernização angolana; máxima estabilidade na zona da segurança.

Na primeira, a da economia, hoje a mais importante, importa destacar três elementos que parecem fundamentais. O Presidente José Eduardo dos Santos, na mensagem enviada à nova Assembleia Nacional, disse que o país espera "leis justas, que contribuam para eliminar a pobreza, combater a injustiça, a exclusão social e o abuso do poder".

Nomeia a seguir Paulo Kassoma como primeiro-ministro, uma escolha que parece projectar o sucesso do Huambo, de que Kassoma era o governador, para a necessidade de sucesso do novo Governo. Depois, a escolha de Manuel Nunes Júnior para a Economia, um homem doutorado em York (como Cavaco Silva) e que, em Maio, garantiu que "Angola vai transformar-se num milagre económico" que "o poder económico (deve) ser detido fundamentalmente pelos Angolanos".

Ministro promete que Angola será milagre económico

O veterano Higino Carneiro conserva-se à frente do poderoso Ministério das Obras Públicas. Makunda Ambroise, de 62 anos, o primeiro engenheiro angolano na Diamang colonial, sobe a ministro da Geologia e Minas, um sector que gera muito riqueza em Angola, José Botelho de Vasconcelos regressa à pasta dos Petróleos, de que já foi responsável (1999 e 2002), e Pedro Mutinde, de 54 anos, viaja da "sua" província do Cunene, de onde é natural e de que era, há muito tempo, governador, para o importante Ministério do Turismo e da Hotelaria.

Sobre a polítíca externa, sublinhe-se a substituição de João Bernardo Miranda, um veterano da forte diplomacia angolana, por Assunção dos Anjos, até aqui embaixador de Angola em Portugal. Formado nas faculdades portuguesas, armado com um sorriso permanente e gestos de grande delicadeza, criador de boas relações, parece ter sido escolhido para oferecer ao mundo a nova face angolana, mais sedutora, menos densa.

Na modernização de Angola, parece simbólica a criação do Ministério das Telecomunicações e Tecnologias da Informação, que vai ser dirigido por João Carvalho Rocha, um homem do sector, escolhido para desenvolver uma área que é hoje fundamental na estruturação de um estado moderno e eficiente.*

Militares vão ajudar populações

Mudança. Modernização das Forças Armadas é um dos objectivos do novo Governo

As Forças Armadas de Angola (FAA) vão ter, nos próximos anos, um papel importante na ajuda às populações e na resposta às exigências do programa de Governo do MPLA, disse à Lusa o ministro da Defesa angolano. Kundy Paihama, que manteve as funções no Governo formado após as legislativas de 5 de Setembro, explicou que as FAA vão estar na linha da frente da luta pela "resolução das questões sociais com que o povo angolano se bate".

O governante angolano é um dos mais carismáticos ministros do Executivo de Luanda, considerado um "homem de massas" dentro do partido maioritário, o MPLA, e autor, por vezes, de declarações polémicas em momentos de maior luta política, como quando acusou a UNITA, durante a pré-campanha eleitoral, de guardar armamento em paióis escondidos.

Paihama referiu que uma das prioridades do seu ministério é a modernização das FAA, que foram criadas há 17 anos, pouco antes da realização das primeiras eleições no país, integrando militares dos braços armados do MPLA e da UNITA.

"Quero melhorar as condições de vida das próprias tropas, cuidar da formação, do seu reequipamento, para serem umas Forças Armadas modernas, porque pensamos dever ter em conta a máxima que diz que é quando estamos em paz que nos devemos preparar para a guerra", adiantou. Garantiu, no entanto, que não está a deixar entender que espera uma guerra ou que alguém possa agredir Angola, apenas que "a vida é assim".

"Mas é também um orgulho para nós que as nossas Forças Armadas já tenham participado em algumas forças de manutenção de paz, sobretudo na região dos Grandes Lagos", afirmou.*