Sexta-feira, 5 de Setembro de 2008

Angola. Eleitores elegem hoje o próximo Parlamento. Ganhe quem ganhar, a aposta dos 14 partidos e coligações concorrentes, incluindo o MPLA, há 33 anos no poder, é a mudança

Um voto que é esperança no futuro


(foto DN)

Escrutínio é um teste à actual liderança política

HENRIQUE BOTEQUILHA, em Luanda

Se as eleições continuaram a desenrolar-se com a tranquilidade demonstrada até agora, um novo ciclo se abre para Angola. Mesmo que se mantenham no poder os protagonistas da passada legislatura de 16 anos - a mais longa da história do continente -, a partir de hoje, passam a contar com um mandato de quatro anos.

Na aldeia de Luvemba, a mais de 600 quilómetros da capital, é claro para uma camponesa que apenas fala a língua local de que está na hora de distribuir as riquezas do país e fazer chegar os sucessos offshore a esta comuna rural. "A paz e a tranquilidade não chegam, Angola é um país rico, toda a riqueza devia beneficiar todos", critica Marta Coyele, 42 anos, camponesa, que promete avaliar o desempenho do próximo Governo, dentro de quatro anos.

A aceitação do jogo democrático tem envolvido uma correria governativa como nunca antes vista em Angola. Inaugurações frenéticas por todos os membros do Governo: estradas, pontes, hospitais, escolas, tudo, e que preenchem, numa cadência diária, as páginas dos órgãos estatais, os únicos de grande divulgação.

Ontem, dia de reflexão, Luanda mergulhou numa esquizofrenia rodoviária muito além dos graves problemas de trânsito habituais numa cidade que absorve a maior parte dos cerca de 110 mil veículos que chegam em cada ano ao país.

Portugal encaixa-se neste mundo de oportunidades

Mas quem estivesse a testar os nervos no trânsito, e sintonizando Rádio Nacional de Angola, saberia que o Presidente da República dedicou a manhã à inauguração da Clínica Girassol, propriedade da Sonangol. Antes que potenciais votantes do MPLA pudessem mudar de ideias por causa do trânsito, na mesma rádio se ouviu um responsável provincial de Luanda alongar-se sobre os novos eixos viários em construção.

A par da vertigem de betão, o envolvimento de José Eduardo dos Santos na campanha eleitoral foi um dos factores que marcaram estas eleições: "Sou presidente do MPLA, sou jogador", afirmou, reagindo as críticas da oposição que o confrontavam com a sua dupla condição de chefe de Estado e líder partidário. Para o "jogador", estas eleições representam um teste à afirmação do seu MPLA e dele próprio, esclarecendo o mapa político angolano, que até agora envolvia um Governo de Unidade e Reconciliação Nacional, no qual a UNITA mantinha três pastas, mas também servirá de ensaio geral às presidenciais, apontadas para 2009. José Eduardo dos Santos é a figura central no partido e nenhuma solução de sucessão parece óbvia. E o MPLA e o seu "camarada presidente" propõem-se passar a uma nova fase, levando o desenvolvimento onde ele nunca chegou e melhorar a imagem do país no estrangeiro.

O prestígio no mundo dos negócios, esse, já o conseguiu, graças a um crescimento perto dos 20%, à boleia do petróleo de que o país se tornou no maior produtor sub-sariano, ultrapassando a instável Nigéria.

Portugal é um país que se encaixa neste mundo de oportunidades: Angola acaba de se tornar no nosso maior mercado extra-comunitário. Em Luanda, a Agência Nacional de Investimento Privado recebeu nos últimos dois anos mais de 400 grandes projectos empresariais portugueses. No sentido inverso, o investimento directo de Angola em Portugal pode este ano bater o recorde.

Segundo Gil da Silveira, administrador da Visabeira em Angola, as presidenciais, possivelmente em 2009, são mais relevantes do que as legislativas de hoje, porque delas de-pende a continuação do actual chefe de Estado: "Do ponto de vista da estabilidade é o melhor candidato."

Ao longo da campanha, a UNITA tentou combater este discurso, lembrando que "os parceiros de Angola estão interessados nos recursos do país e não no MPLA".

A produção de petróleo no pais está a chegar ao tecto:"O crescimento nos próximos anos vai depender muito da diversificação da economia", considerou Ricardo Gazel, economista da representação do Banco Mundial em Luanda.

Adistribuição da riqueza é reclamada em toda a parte. A oposição, liderada pela UNITA, clamou por ela e denunciou a corrupção durante o mês de campanha eleitoral. O MPLA, porém, "apropriou-se" dêste discurso e prometeu combater a fome, a pobreza e a miséria, palavras de José Eduardo dos Santos, que garantiu o afastamento daqueles que colocam os seus interesses pessoais à frente dos interesses gerais".

Hoje, dia de eleições, parece haver um vencedor à partída:a "mudança", ideia-chave de todas as caravanas partidárias, incluindo a do MPLA, há 33 anos no poder em Angola, adicionando-lhe o factor "segurança". Para a UNTTA, a mudança implica "vencer o medo do partido-Estado".

Quando hoje forem votar 8,3 miIhões de angolanos nas segundas legislativas da sua história, a paz chega-da em 2002 estará mais forte, após dez partidos e coligações terem percorrido l8 províncias num país 14 vezes maior do que Portugal, com registo de incidentes, mas insuficientes para manchar o processo.*

Jornalista da Agência Lusa

As eleições de 1992

As primeiras eleições gerais de Angola aconteceram há 16 anos e, das legislativas, saiu vencedor o MPLA, partido no poder desde a independência. As eleições de 1992 concorreram 18 partidos e 12 conseguiram eleger deputados para a Assembleia Nacional. Para o processo eleitoral foram registadas, de Maio a Agosto, 4.828.626 pessoas, tendo comparecido 4,1 milhões para as legislativas e 4,3 milhões para as presidenciais. Mais de 400 observadores internacionais acompanharam o processo. A 17 de Outubro, foi divulgado o resultado das eleições pelo Conselho Nacional de Eleições, que anunciou uma segunda volta das presidenciais. Nestas, José Eduardo dos Santos, líder do MPLA, obteve 49% dos resultados, e Jonas Savimbi, líder da UNITA, alcançou 41%. Nas legislativas, coube ao MPLA 70 lugares na Assembleia Nacional, à UNITA 44, e três assentos à FNLA, terceiro partido histórico angolano, e ainda ao PRS e ao PLD, tendo os restantes conseguido um assento cada. O resultado das eleições gerais, aceite no início pela UNITA, foi depois rejeitado por alegada "fraude eleitoral", e o país mergulhou numa nova guerra, que só acabou em Fevereiro de 2002, com a morte em combate de Jonas Savimbi.

NISA MENDES, jornalista da Lusa

Entrevista Fátima Roque, ECONOMISTA ANGOLANA

"Tem de ser o MPLA a julgar se esta direcção o representa ou não"


(foto DN)

Perfil

FÁTIMA ROQUE
• Nasceu em Luanda em 1951
• Licenciada em Economia pela Universidade de Luanda

Tem um mestrado e um doutoramento em Economia Internacional pela Universidade de Witwatersrand
• Professora na Universidade Nova de Lisboa
• Autora de vários livros, incluindo 'Economia de Angola' e 'Democracia Económica de Angola'

Fátima Roque foi uma das angolanas brancas que nunca deixaram de acreditar numa Angola multirracial. Primeiro como simpatizante e dirigente da UNITA, tendo integrado o Comité Político Permanente deste partido, fundado por Jonas Savimbi. Chegou a ser apontada como futura ministra da Economia de Angola caso a UNITA tivesse ganho a eleição de 1992. Mas desta vez anunciou que votaria no MPLA.

HORTÊNCIO SEBASTIÃO*

Aderiu ao MPLA?
"Não estou no MPLA. Desde 1997, ano em que fui expulsa da UNITA, partido em que militei dezenas e dezenas de anos, passei a ser uma militante de Angola, independente. Embora as pessoas achem estranho ontem [quarta-felra] ter estado na tribuna do MPLA no comício de encerramento da campanha eleitoral a que fui com muito gosto.

O que foi lá fazer?
Fui convidada e fui com todo o prazer informar-me como cidadã angolana responsável que tem direitos e obrigações de cidadania com uma mente totalmente formada e independente. Trataram-me bem, acho que foi uma grande atitude do MPLA ter-me convidado e acho que, modéstia à parte, foi um acto significativo da minha parte, de grande reconciliação, com todo o civismo, à vontade e comprazer.

Em que política se revê: da UNITA ou do MPLA?
Devo dizer-lhe que me sinto tão bem como independente e como militante de Angola que dificilmente, para não dizer impossível porque não tenho essa palavra no meu vocabulário, irei fazer parte de mais algum partido de Angola. Se algum dia voltar a viver em Angola que seja para poder ajudar a construir um país que seja mais livre, justo e mais solidário para todos os angolanos, mas acredito que prestarei melhor serviço a Angola como independente.

O que pensa das actuais direcções da UNITA e do MPLA?
Sou muito amiga do presidente da UNITA, mas amiga e mais na
da, não é o meu presidente, mas presidente dos militantes da UNITA. Também tenho muitos bons amigos no MPLA. E tem de ser o MPLA a julgar através do voto se é esta direcção que o representa ou não. O partido que ganhar as eleições será o que tem legitimidade democrática para governar sozinho Angola e que conta com o apoio e colaboração de todos os quadros estejam eles onde estiverem.

Aceitaria integrar um Governo MPLA?
Tenho a certeza que não serei convidada por qualquer partido para integrar o futuro Executivo por não viver em Angola há vários anos, que é um lado menos positivo, apesar de conhecer profundamente o país e saber aquilo que precisa e pode concretizar com sucesso. Em segundo lugar sou muito independente e frontal. Apesar de só ter um metro e sessenta e pesar 47 quilos, as pessoas têm um bocado de medo de mim e, por isso, dificilmente qualquer partido me convidaria. Não estou à espera disso.

Angola é um país rico em petróleo e tem muita pobreza. Como comenta esta situação de desequilíbrio?
Algo terá de ser feito, porque é insustentável, com a riqueza que produzimos, mantermo-nos totalmente dependentes dos hidrocar-bonetos e mantermos a desigualdade fenomenal na distribuição dos rendimentos, da riqueza e das oportunidades.

Jornalista da Lusa*

"Se algum dia voltar a viver em Angola, que seja para poder ajudar a construir um país que seja mais livre Sou muito amiga do presidente da UNITA, mas amiga e mais nada. Não é o meu presidente É insustentável mantermos esta desigualdade fenomenal na distribuição da riqueza".

ALGUNS DOS PRINCIPAIS PARTIDOS

Três formações históricas e três novos partidos surgem com mais possibilidades de obterem bons resultados

MPLA

O Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA), histórico partido fundado em 1956, está desde 1975 no poder, ano em que Angola se tornou independente. A experiência governativa dá o mote à mensagem da aposta segura para mudar o país.

UNITA

União Nacional para a Independência Total de Angola é o maior partido de oposição em Angola. Liderado por Isaías Samakuva, após a morte de Jonas Savimbio em 2002, sugere a "mudança" para acabar com as desigualdades, a corrupção e "o medo".

PRS

O Partido de Renovação Social é a terceira maior força parlamentar na Assembleia que resultou das eleições legislativas de 1992. Fundado em 1990 por um grupo de angolanos de Luanda com origens rurais, o partido liderado por Eduardo Kuangana acredita no federalismo para Angola.

FNLA

A Frente Nacional de Libertação de Angola é o terceiro partido histórico de Angola e sugere a alteração do sistema político para conferir mais poderes ao Chefe de Estado. Dirigido por Ngola Kabango, deseja aumentar o número actual de quatro deputados.

PLD

O Partido Liberal Democrático foi criado em 1983 por Carlos Simeão, cuja morte nunca foi esclarecida e pela sua mulher Amália Pereira, actual lider, a única do sexo feminino numa direcção partidária em Angola. Conhecida como Mamã Coragem, garante que vai atacar a concentração de riqueza no MPLA e a corrupção.

FPD

A Frente para a Democracia tornou-se no refúgio de militantes desiludidos do MPLA e palco activo de um conjunto de académicos nacionais. Partido urbano de Luanda, foi fundado em 1993 e é dirigido por Filomeno Vieira Lopes, que, referindo-se ao MPLA, propõe o fim do sistema do "partido Estado".