GRANDE REPORTAGEM

  Sábado, 6 de Setembro de 2008

UNITA EXIGE REPETIÇÃO DE ELEIÇÕES

Assembleias de voto paralisadas perturbam processo eleitoral

HENRIQUE BOTEQUILHA (Textos)

JOÃO RELVAS (Fotos)

Jornalistas da Lusa em serviço especial para o DN.

Eram umas eleições há muito tempo aguardadas. Desde 1992, ano em que a esperança democrática em Angola ficou mutilada pelo recrudescimento da guerra civil. Dezasseis anos depois os angolanos voltaram ontem a acorrer às urnas. Mas não tardaram os problemas. A desorganização registada em inúmeras assembleias de voto, incluindo na capital, foram testemunhadas por observadores internacionais e levaram de imediato a UNITA a exigir a impugnação destas legislativas. O MPLA recusa as acusações, mas a Comissão Nacional Eleitoral já anunciou que o escrutínio será repetido em várias assembleias de voto


(Foto DN)

Terminado o dia das segundas eleições legislativas na história de Angola o presidente da União Nacional para a Independência Total de Angola (UNTTA) pediu a repetição da votação em Luanda, onde se registaram numerosos problemas que paralisaram assembleias de voto durante várias horas ou até o dia inteiro.

Considerando que o processo eleitoral na capital não foi normal, o dirigente partidário pediu, após o encerramento das urnas, ao fim do dia, uma reunião com o presidente da Comissão Nacional Eleitoral (CNE) para lhe solicitar a repetição da votação em Luanda, Samakuva, que, na reunião com a CNE, se fez acompanhar na reunião com a CNE pelos líderes da Frente de Libertação Nacional de Angola (FNLA) e do Partido de Apoio Democrático e Progresso de Angola (PADEPA), já tinha dado sinais, durante a manhã, de que poderia contestar a forma como decorreram as eleições legislativas em Luanda.

Quando abandonava a sua secção de voto, no bairro da Maianga, Isaías Samakuva referiu-se ao "desastre" na capital angolana. "Segundo as informações de que disponho, a votação em Luanda está uma grande confusão, um completo desastre", afirmou o líder político, admitindo, porém, que, no resto do país, as coisas estavam a decorrer "bastante melhor".

A CNE deu-lhe parcialmente razão, anunciando já a meio da noite de ontem a repetição do escrutínio em várias assembleias de voto. Os problemas ocorreram designadamente em Luanda, onde muitas assembleias de voto não estavam a funcionar, outras nem sequer existiam, notava-se a ausência de cadernos eleitorais e a existência de credenciais falsas, "com números de código de assembleias que não existem".

Já naquele instante, em plenas legislativas em curso, o presidente da UNITA admitiu que, se a credibilidade do processo eleitoral se mantivesse, a votação tornar-se-ia "inaceitável". "Espero que as coisas possam ser corrigidas ao longo do dia porque senão vamos ter um problema muito grande", adiantou.


Prova. Eleitor angolano após ter votado na Cidade Alta, em Luanda.
A tinta indelével comprova que exerceu o seu direito numas eleições marcadas, segundo a oposição e alguns observadores, por "profundas irregularidades" e por uma enorme desorganização.

(Foto DN)

Milhares a votar

Ainda era noite quando Angola se posicionou para votar. Milhares de eleitores que, nos dias de semana, afluem ao centro de Luanda para trabalhar, concentraram-se ontem, dia de tolerância de ponto, estrategicamente junto das assembleias de voto para protagonizar as segundas legislativas na história do país.

Nessa noite, os angolanos da capital aguardavam apenas que se fizesse luz sobre um direito a exercer poucas horas mais tarde. Mas quando veio a manhã, ficou claro que o acesso ao voto estava vedado por uma máquina eleitoral engasgada já o sol ia bem alto.

Noite e dia, assim se dividiu a votação em Luanda, epicentro de falhas na organização do processo, que levaram a que nas assembleias de voto da capital faltassem, às sete da manhã, hora de abertura das mesas, cadernos eleitorais, urnas e até boletins de voto, gerando a confusão primeiro e logo depois a paralisia das filas que se alongavam cada vez mais. No resto do país, registaram-se problemas pontuais de atrasos, mas nem perto da acumulação de várias horas de imobilismo e impaciência que se sentia nas mesas da capital, onde se concentra um terço dos 8,3 milhões de eleitores recenseados.

8,3 milhões de eleitores
estavam inscritos para votar em 12.300 assembleias de voto espalhadas por todo o país

À medida que o dia foi avançando, a Comissão Nacional Eleitoral começou a corrigir os erros que admitiria mais tarde, fazendo chegar o material em falta às assembleias da capital que finalmente começaram a escoar os seus eleitores para as cabinas de voto, quase sempre ao ar livre e aos cidadãos foi permitido que se dirigissem então a outros pontos de votação.

Quando a luz do sol já começava a desaparecer, tinha sumido também a maior parte dos problemas que doze horas antes ameaçaram levar o caos a estas legislativas: dia e noite. Uma noite que foi crescendo numa tensão que esteve ausente durante o período em que as urnas estiveram abertas.

Na Cidade Alta, município onde se ergue o palácio do chefe do Estado angolano, dezenas, depois centenas, de pessoas, fazem três filas na direcção de tendas brancas e de cabinas de cartão. Há muita segurança, jornalistas em toda a parte e staff presidencial. José Eduardo dos Santos estava previsto chegar à assembleia de voto às sete da manhã em ponto.


(Foto DN)

"Um desastre"

Mas à medida que os ponteiros do relógio foram avançando, não vinha sinal de vida do Presidente nem de ninguém. Oito da manhã: José Eduardo dos Santos ainda não tinha chegado, as mesas continuavam encerradas.

Oito e meia, mais do mesmo e a confirmação de que o processo eleitoral tinha começado sem problemas de maior nas províncias mas encontrava-se bloqueado na cidade capital. "Um desastre", na expressão da chefe da missão de observadores da União Europeia, Luiza Morgantini, após visita a assembleias de voto no arredores de Luanda. Mais tarde, Morgantini esclareceria que se referia apenas às zonas que percorreu e não ao processo registado na cidade inteira.

Às 8.43, José Eduardo dos Santos apareceu. Acompanhado pela mulher, Ana Paula Santos, cumpriu o protocolo eleitoral, entregando os seus documentos e recebendo em troca um boletim devoto. Demorou-se algum tempo na cabina de cartão, colocou a cruz, mergulhou o indicador numa solução de tinta preta e fez o vê de vitória com os dedos.


(Foto DN)

10 partidos
e quatro coligações apresentaram-se nestas primeiras eleições angolanas, desde 1992

"Se continuar assim, até ao fecho das urnas e até à apresentação dos resultados, vamos dar um grande exemplo ao mundo, não só de civismo mas também de participação democrática", disse o presidente da República e do MPLA, que se referiu ao dia de ontem como "o início de um novo ciclo político". O Presidente foi o primeiro votante da mesa número um da assembleia de voto 401070.

Atrás dele, alongavam-se na fila outros cidadãos angolanos, levando a esperança de exercer um direito que lhes esteve negado durante 16 anos. As anteriores legislativas no país realizaram-se em 1992.

"Há uma grande diferença em relação às eleições de 1992", declarou Francisco Manuel, 54 anos, o primeiro eleitor numa das três filas de cerca de 100 metros cada.

"Isto deve-se ao facto de o país estar em paz", afirmou este angolano que considerou a partilha da mesma assembleia de voto de José Eduardo dos Santos "uma grande honra". Francisco Manuel teve mais sorte do que a maioria dos seus compatriotas de Luanda. No primeiro lugar de uma das três filas rumo às mesas de voto, estava posicionado para exercer o seu direito logo depois de o Presidente abandonar a Cidade Alta sem proferir uma só palavra sobre as demoras que já então se registavam no processo eleitoral.

70 mil elementos da polícia
angolana foram mobilizados para garantir a segurança das eleições ontem em todo o país

Com vizinhanças menos célebres, e já a manhã ia a meio, uma freira partilhava o aborrecimento à solta no bairro de Miramar juntamente com umas 400 pessoas na sua situação: à espera. "Toda a gente já sabia que ia haver eleições", comentou Leopoldina Candeia, que tomou a sua posição na fila às 5:30 (mesma hora em Lisboa). "Este atraso é um desastre", disse por seu lado Luísa Bonfim, que saiu de casa às 7:00. Estava visivelmente desolada. "Desastre."


(foto DN)

Já anteriormente esta palavra tinha sido proferida por Luiza Morgantini e Isaías Samakuva, presidente da UNITA, que votou pelas 10 da manhã no Bairro da Maianga sem demoras. À sua passagem entre os eleitores, um jovem, ao afastar-se para a passagem do líder partidário, deixou escapar "Também gostava de poder chegar, votar e ir almoçar." Teve que esperar pela sua vez.

Preocupações

Samakuva tinha, porém, preocupações maiores. E, além das perturbações que apontou no processo eleitoral, alertou para eleitores a desistir de votar. "Apelo a que regressem às urnas porque está o futuro do país em causa", declarou. Uma dessas pessoas foi a freira de Miramar. "Devia estar tudo preparado, mas agora toda agente está nervosa" afirmou, ameaçando que se ia embora. E, às tantas, foi mesmo.

Erros

Quando a Comissão Nacional Eleitoral reconheceu erros no processo, era uma evidência que ainda permaneciam encerradas várias mesas de voto. Só no Largo da Tourada eram 40 mas apenas quatro tinham o material necessário para receber os eleitores. A CNE prometera entretanto medidas excepcionais para a normalização da votação mas não as detalhara.

Depressa se percebeu que estas passavam pela chegada do material em falta a locais onde até a tinta para mergulhar o dedo indicador e evitar a duplicação de eleitores tinha acabado. Mas também pela disponibilização de mesas diferentes daquelas que estavam destinadas aos eleitores à partida.

A acção da CNE desanuviou consideravelmente a pressão sobre as assembleias de voto e, à medida que o dia se ia aproximando do fim, as fiIas começaram a encurtar, o trânsito a diminuir, a circulação a pé das vagas de gente que hoje encheram a cidade de Luanda sumiu.

No fundo, acabou por prevalecer a liberdade de toda a gente votar, embora com a alteração das instruções fixadas no apito do arranque do processo. Para quem não arredou pé junto das assembleias, cumpriu-se a promessa do voto.

Noémia Sicola, 42 anos, funcionária pública associa esta eleição a "um ponto de viragem" sobre quase três décadas de guerra, privada de paz e de eleições. E as únicas que conheceu resultaram no reacender do conflito, mais violento do que nunca. "São muitos anos que ficámos sem votar e, ao chegar esta ocasião, só temos que nos regozijar", disse na assembleia de voto do Bairro l8 de Maio esta funcionária pública de 42 anos, à espera da sua vez desde manhã cedo.

27 anos
foi a duração do conflito armado em Angola desde a independência, em 1975

Estreia no voto

Florentino Alexandre, 23 anos, também secou ao sol para votar. O estudante luandense estreava-se a votar e, apesar de ter sido difícil chegar ao momento de desenhar a cruz no boletim, "valeu a pena" o tempo gasto por ter sabido fazer a escolha "certa" e porque começa a ter certeza de que o futuro do país também passa pela sua opinião, expressa à reportagem do DN.

"Basta daqueles tempos em que os governantes ficavam anos a fio no poleiro, como donos e senhores dos cargos públicos, agora irão subir outros que, esperamos, sejam mais competentes para levar Angola a bom destino", afirmou Florentino Alexandre. O dedo pintado de preto denuncia a satisfação de se ter tornado parte num processo global, que conheceu pela primeira vez e que decorreu num ambiente de concórdia.

Não houve registo de incidentes graves durante o dia e só muito raramente se vislumbrou nas vagas de gente que invadiu Luanda alusões partidárias estampadas nas suas vestes ou impressas em adereços.

Com a noite já avançada, Luanda foi devolvida à sua paz nocturna. Os angolanos recolheram a casa pensando que só voltariam às urnas no próximo ano, quando está prevista a realização de eleições presidenciais.

A iniciativa da UNITA compromete o calendário e, até resposta da CNE, deixa tudo em aberto nestas legislativas. O MPLA nega a existência de irregularidades, salientando que as eleições correram bem. Apenas reconheceu, em comunicado, ter havido "algumas insuficiências de natureza organizativa". •


(Foto DN)

Figuras da Igreja elogiam "exemplo de civismo" dado pelos cidadãos

O cardeal D. Alexandre Nascimento considerou ontem que "o povo angolano continua a dar um exemplo de civismo", em declarações prestadas em Luanda pouco antes de votar para as eleições legislativas. "O povo tem-se portado muito bem, tem havido muita concórdia", disse o antigo arcebispo de Luanda, que votou na Cidade Alta, precisamente a mesma assembleia do Presidente angolano, José Eduardo dos Santos.

"Sem dúvida, os responsáveis políticos têm estado à altura das responsabilidades", sustentou o prelado. Outra figura muito conhecida da Igreja Católica, o arcebispo do Lubango, D. Zacarias Kamwenho considerou ontem, ao exercer o direito de voto na cidade da Huíla, que o "bom" comportamento dos eleitores nas assembleias e mesas de voto traduz o empenho e a seriedade com que se levou a cabo o processo de educação cívica eleitoral. O prelado disse à agência angolana Angop ter constatado com agrado "a maneira serena e séria como as pessoas votaram."