GRANDE REPORTAGEM

DN.jpg (3296 bytes)   Sábado, 6 de Setembro de 2008


(Foto DN)

Última chamada para o voto


António Henriques Silva (Foto DN)

António Henriques da Silva, 41 anos, engenheiro, é director internacional de uma das duas operadoras de telefones móveis em Angola, a UNITEL Votou nas segundas eleições angolanas no "partido do coração". Votar, para António da Silva, é contribuir para o futuro colectivo de Angola apesar de não ter conseguido fazê-lo em 1992, porque, na altura, estava fora a tratar do seu futuro pessoal: "A estudar". Afirma que este é "um dia muito importante", para o povo angolano devido à possibilidade de, 16 anos depois, "ter a oportunidade de manifestar os seus pontos de vista." Henriques da Silva entende que as eleições legislativas fora m um "exemplo para África e para o mundo", disse repetindo palavras do Presidente da República. Exemplo desta grandeza, diz o angolano, foi o facto de "as pessoas, com todo o civismo, aderiram ao processo eleitoral".

Melhorar democracia e Direitos Humanos para reforçar a CPLP


Pedro Pessoa Costa (Foto DN)

Durante o processo de votação das legislativas angolanas, houve pelo menos uma pessoa que ontem acabou por dar a volta a Luanda em menos de 12 horas. Num só dia, Pedro Pessoa Costa saiu do caos de Cacuaco, nos arredores norte da capital angolana, e mergulhou no centro da cidade. Visitou uma mão cheia de assembleias de voto levando às costas a sigla CPLP (Comunidade dos Países de Língua Portuguesa).

Pedro Pessoa Costa é um dos seis portugueses da missão de observadores da CPLP, que é constituída por 17 elementos e que foram colocados em cinco das províncias angolanas. Na assembleia de voto da Sagrada Família, verificou como ao fim da manhã o processo eleitoral ainda não tinha descolado em algumas das mesas deste ponto de votação no centro de Luanda, embora tenha dito que esperava uma melhoria da situação durante a tarde, o que se verificou.

Para o observador português, as eleições em Angola são muito relevantes para a organização que representa: "Quanto melhor for o registo em termos de democracia, Direitos Humanos e Estado de Direito de cada país, a CPLP vai sair reforçada".

"É preciso olhar para África"


António Alves Martins (Foto DN)

António Alves Martins, um luso-angolano nascido há 55 anos, em Luanda, foi ontem um dos milhares de luandenses que invadiram as ruas da capital para exercer o seu direito de voto. Votou perto das 11.30, a uma hora em que a assembleia de voto da Maianga já estava a escoar eleitores para as cabinas.

Na fila com a sua mulher, o empresário, proprietário da conhecida rede de supermercados Martal em Luanda, aguardava pela sua vez. Solícitos, os técnicos da Comissão Nacional de Eleições (CNE) encaminham António Martins e a mulher para o recinto da votação.

António apresenta o cartão de eleitor e recebe as respectivas instruções. Está muita gente à espera. O processo que levou 16 anos a chegar a Angola demorou-lhe apenas um minuto a executar. Recebeu o boletim onde se distribuem os dez partidos e quatro partidos concorrentes às legislativas, ocultou-se na cabina, dobrou o papel em quatro e votou. "Este processo é da máxima importância para Angola, para África e para o Mundo" refere António Martins. Para Angola porque é um dia de demonstração plena de democracia, para África porque é uma prova total de haver paz", afirmou o empresário. "E para o Mundo também porque é preciso olhar para Angola e para África em particular", declarou.

António Martins é filho de um português que arriscou a sua sorte em Angola em meados do século XX. Constituiu negócios, estes foram crescendo e, no fim, já tinha um pequeno império comercial do qual pouco ficou após a descolonização. Uma dessas partes foi o supermercado Martal, na nobre Maianga, em Luanda de que Martins filho ficou proprietário. Em 1992, não votou. Já tinha a nacionalidade angolana, mas tinha abandonado o país porque "já calculava o que ia acontecer".

Dezasseis anos depois das primeiras eleições em Angola, que reconduziram aquele país à guerra civil, António Alves Martins enaltece a forma como os dois principais partidos, UNITA e MPLA estiveram "juntos" nesta campanha eleitoral para as legislativas. "Houve uma convivência plena, conjunta, e houve uma irmandade".

 

Entrevista Fernando Barros, responsável da pricewaterhouseCoopers em Luanda

"Portugueses em risco de perderem oportunidades"


Fernando Barros (Foto DN)

ANA TOMÁS RIBEIRO

Perfil
Fernando Barros. Nasceu em Lisboa há 40 anos. Vive em Luanda. É casado e tem cinco filhos. Frequentou o curso de Direito, mas não terminou a licenciatura. Ingressou há 18 anos na PrincewaterhouseCoopers e hoje gere o escritório em Luanda.

Como responsável pelo escritório de Luanda de uma das maiores multinacionais de consultoria e como português qual a análise que faz dos investimentos nacionais em Angola e do posicionamento das nossas empresas naquele mercado?

Portugal, contrariamente a outros países, tem muito pouca experiência em negócios fora de portas. Como consequência as empresas nacionais estudam muito menos do que deveriam os mercados para onde vão operar. Um aspecto que é ainda mais visível no que respeita aos países onde os portugueses julgam que têm um conhecimento prévio, só por ter havido uma ligação histórico, como é o caso de Angola.

Só que hoje a realidade daquele mercado é completamente diversa da de há 30 anos. Os investimentos de grandes grupos nacionais em Angola têm corrido bem e sido conduzidos de uma forma inteligente. Mas o investidor médio nem sempre. Porque os investidores partem para aquele mercado com uma série de preconceitos tal como iam há uns anos para Moçambique. Vão com visões e interpretações que têm muito pouco a ver com o que se passa hoje em Angola. Por isso corremos o riscos de perder a corrida em vários sectores onde teríamos grandes vantagens.

Quer dizer que em relação a Angola os empresários portugueses agem mais com o coração do que com a razão?

Eu diria que há uns anos os investimentos nos PALOP baseavam-se mais na emoção do que na razão. Hoje em dia já não é tanto assim. No entanto, continuamos a não preparar de forma bem estruturada os seus investimentos, sobretudo em termos comparativos com outros países, por forma a enfrentar aquele mercado, onde outros investidores apostam bem preparados.

O empresário português investe com a preocupação de ganhar dinheiro rapidamente, quando deveria procurar entrar serenamente no mercado, institucionalizando e consolidando o seu negócio com calma para não correr certos riscos. Por isso, os investimentos portugueses poderão perder competitividade no mercado angolano. O que eu, como português, lamento. Angola seria um mercado alternativo para as empresas nacionais de média dimensão.

Que erros cometem as empresas portuguesas?

Por vezes dão uns primeiros passos menos bem dados, o que inviabiliza negócios ou atrasa a viabilidade dos projectos. E precipitam-se na escolha e na verificação dos parceiros locais. Depois andam três ou quatro anos a patinar completamente até que ao fim de um tempo, e depois de levarem muita pancada, começam a aperceber-se que têm de funcionar com maior evidência e aceitar determinadas verdades.

Como caracteriza o mercado angolano?

É fantástico. Tem oportunidades em todos os sectores. Há uma enorme carência de tudo e de qualidade. Portanto qualquer produto ou serviço com qualidade é bem vindo. Não há problemas de liquidez. Paga-se bem e a tempo e horas no sector privado - sublinho que não estou a falar do estatal. O preço não é um factor de exclusão mas sim a qualidade. Mas ainda é um mercado pequeno e onde os custos são elevados.*