Domingo, 19 de Outubro de 2008

Entrevista. Luís Araújo anda pela Europa a denunciar violações dos direitos humanos em Angola com a conivência do Velho Continente. Ao DN explicou o que tem a habitação a ver com essa situação

"Estão a desenvolver um "apartheid" social"


(Foto DN)

PATRÍCIA VIEGAS

Na semana passada, estava em Bruxelas com um cartaz que acusava a UE de cumplicidade com Angola. O que foi denunciar?
A atitude dos Estados membros da UE, mais interessados nos rendimentos económicos do que no respeito pelos direitos humanos. Os acordos da UE com os países de África, Caraíbas e Pacífico obrigam ao respeito por esses direitos. Eles são cúmplices por omissão. Têm medo de José Eduardo dos Santos.

A UE e Portugal mantêm o silêncio por causa do petróleo?
Portugal é o líder dessa omissão. O senhor primeiro-ministro, José Sócrates, um mês antes das eleições, numa mensagem subliminar de apoio à candidatura do MPLA, disse que havia uma boa governação. Quando eles despejaram, expulsaram, demoliram, etc...

A sua ONG, SOS Habitat, denuncia o desalojamento forçado. Qual é a situação actual?
Muita dessa gente continua abandonada, construíram barracas e estão lá, como no caso das Cambambas. Mas o problema é também o facto de terem usado a força, as armas, a polícia, nas mesmas.

Isso passou-se em 2005...
Aconteceu nos últimos anos... um mês antes das eleições [de Setembro] ainda houve demolições.

Quantos ficaram sem casa?
Muitas centenas, ameaçadas, aliciadas com indemnizações arbitrárias, sacos de plástico com dólares, como se o processo de expropriação se processasse nesses moldes.

Que ajuda presta a SOS Habitat?
O que temos tentado pedir e tem sido recusado pelo Governo é deixar-nos, com as pessoas, organizar as condições para desenvolver os subúrbios de uma forma ordenada que permita o acesso da água, dos carros, da energia, a numeração das casas, etc...

perfil

LUÍS ARAÚJO

• Membro coordenador da organização SOS Habitat
• Tem 54 anos
• Foi membro do MPLA até quase ao final dos anos 70
• Viveu exilado em Cabo Verde
• Vive em Lisboa. Tenciona voltara Angola em 2009

Não há processos abertos?
Nada. Há inclusivamente pessoas que foram baleadas e não conseguem apresentar queixa. Há um caso que está há anos no Supremo.

O Presidente angolano anunciou, no dia 6, a construção de mais um milhão de casas até 2012...
Até podiam ser dez milhões. O que eles fazem são sítios para depositar as pessoas e usam os terrenos que elas ocupavam para construir condomínios de luxo. Estão a criar depósitos de pobreza, como fizeram no Zango, no município de Viana. Estão a desenvolver um apartheid social

A questão da habitação, em Luanda, pelo menos, não deriva de um problema demográfico? Uma cidade erguida para meio milhão de pessoas tem hoje cinco milhões...
Houve alteração demográfica durante a guerra. O Estado recebia aqueles que fugiam das zonas da UNITA, porque interessava, mas não foi capaz de alinhar as casas. As pessoas não são helicópteros que ficam no ar suspensos, têm de morar nalgum sítio...

Que apoios tem tido na Europa?

Da Amnistia Internacional e da Human Rights Watch, de euro deputados, como Ana Gomes e Assunção Esteves, fui ouvido por uma comissão do Parlamento da Irlanda. Mas da Comissão Europeia, só silêncio.*


(Foto DN)


(Foto DN)

Notícia de Angola

Ministro refuta indicadores da ONU

O ministro da Saúde angolano, José Van-Dúnem, afirmou em entrevista à agência Lusa que os dados apresentados pelas organizações internacionais sobre a saúde angolana "não correspondem à realidade". José Van-Dúnem admite os actuais baixos indicadores da qualidade da saúde em Angola são "muito preocupantes", mas frisou que estão "desactualizados face aos esforços dos últimos anos feitos pelo Governo". O índice de desenvolvimento humano (IDH) das Nações Unidas coloca Angola no 162.9 lugar. "Se se tiver em atenção os esforços feitos com as campanhas de vacinação, assim como o aumento da oferta de serviços para responder às principais causas de doenças e de mortes, particularmente nas crianças e mulheres, esses números não correspondem à verdade", notou. Nos indicadores de diversas instituições internacionais, como a Organização Mundial de Saúde, Angola surge colocada nos últimos lugares em matérias como a mortalidade infantil ou incidência de doenças curáveis. "Esses números decorrem do facto de não ter sido feita a actualização de dados e baseiam-se no último inquérito de indicadores múltiplos de 2001, numa altura em que o país estava em guerra, e não têm em conta os esforços feitos de então para cá", disse.


              (Foto DN)