Sexta-feira 7 de Junho de 2013.

“Portugueses são muito bem-vindos a Angola”

Entrevista. Presidente Eduardo dos Santos disse que os portugueses “estão em posição privilegiada para fazer negócios” no seu país. Investimentos em Portugal são para continuar

ALBANO MATOS
"Os portugueses são muito bem-vindos. Aqui há uma grande falta de pessoal qualificado e é do nosso interesse que todos aqueles que puderem venham contribuir nesta altura para nos apoiar em projetos vários de desenvolvimento", disse ontem o Presidente de Angola, José Eduardo dos Santos, em entrevista à SIC, a primeira concedida a um órgão de comunicação português em 22 anos.

Neste momento haverá naquele país africano cerca de 200 mil portugueses, cujo trabalho foi realçado pelo Presidente: "Os portugueses conhecem bem Angola e estão numa posição privilegiada para realizar aqui negócios."

Trata-se de uma nova era. "Já não nos regemos por padrões de relacionamento do passado", disse Eduardo dos Santos, reconhecendo que os primeiros anos de independência "foram diflceis" para as relações entre os dois países. Hoje, porém, já é possível ter uma relação "com vantagens mútuas".

Interrogado pelo enviado da SIC, Henrique Cymerman, sobre as aquisições estratégicas em Portugal e o estado dos investimentos angolanos no nosso país, tomando o exemplo da Sonangol, José Eduardo dos Santos comentou: "Não temos ainda grande experiência. Â Sonangol tem dado os primeiros passos, nuns casos bem sucedidos, noutros menos. O que interessa é caminhar, é trabalhando que se aprende."

O Presidente angolano evocou os tempos difíceis da reconstrução, no fim da guerra civil, desde a criação de infraestruturas "construímos mais de dois quilómetros de estradas" - aos trabalhos de desmi-nagem, quando boa parte do país ficara intransitável e inabitável

"Em 2002 dizia-se que a extensão de minas só era comparável ao Camboja, havia mais de seis milhões, toda a linha de caminho de ferro estava minada. Desenhamos então um primeiro programa de desminagem, com um orçamento de cem milhões de dólares", disse.

Para esse trabalho de grande envergadura foi necessário recorrer à ajuda internacional. Eduardo dos Santos criticou os países ocidentais, que anularam uma conferência de doadores por acharem que, sendo o país rico, não precisava de ajuda. Entrou em ação a China: "Tivemos de procurar soluções e a China foi um dos países que se disponibilizaram para emprestar dinheiro." O Presidente elogiou a cooperação: "Eles fazem construções de boa qualidade e trabalham depressa" Só assim foi possível terem construído, em três anos, uma cidade com 20 mil apartamentos, próximo de Luanda. Neste sector, o objetívo angolano é construir um milhão de apartamentos nos próximos anos.

Reconhecendo os "esforços conjuntos de reconciliação nacional para reconstruir uma pátria que a todos possa orgulhar", o Presidente angolano explicou como se processou a negociação com os antigos inimigos da UNITA: "Dialogando, compreendendo a vontade dos outros e procurando levá-los para a razão."

As realizações de que está mais orgulhoso: "A formação do capital humano e a criação de condições para a consolidação da democracia." Principais desafios? "Ainda a formação de pessoal qualificado, a estabilidade política e as condições para manter o crescimento ao mesmo nível de 7%"; aumentar a riqueza "para a distribuir melhor".

"Combater as assimetrias regionais e as desiguldades e reduzir o fosso entre os ricos e os pobres" são outros dos desafios de Angola.

Quanto ao Presidente, depois de abandonar o cargo, terá o trabalho da sua Fundação e pode escrever as memórias. E só quer que o recordem como "um bom patriota".