ANGOLA NO PERCURSO DE UM NACIONALISTA
Conversas com Adolfo Maria
Fernando Tavares Pimenta
Edições Afrontamento,
geral@edicoesafrontamento.pt

O ÊXODO

Este excelente livro são os relatos do percurso político de Adolfo Maria um ex-membro de Revolta Activa do MPLA. O livro tem copyrigt por isso, pedimos a compreensão e condescendência da editora e do autor porque ele não será facimente acessível ao pessoal de Angola. O tema que aqui descrevemos é por demais pertinente para colocar no site porque não encontrámos noutro lado uma descrição tão clara e séria do êxodo dos brancos de Angola.


Adolfo Maria (foto livro)

90 | F P. - Qual foi a reacção da minoria branca perante o anúncio dos Acordos de Alvor?

A. M. - Os Acordos de Alvor representaram um facto consumado, isto é, em breve Angola iria ser mesmo independente. Ora, uma vez que os três movimentos participaram nos Acordos, se realizariam eleições e se estabeleceu um período de transição sob administração quadripartida (Portugal mais os três movimentos), a maior parte da população branca pareceu sentir-se segura quanto ao futuro. Houve apenas uma parte da minoria branca (e também alguns negros e mestiços) - aquela comprometida na repressão colonial ou imbuída de profundo espírito coloniasta - que decidiu deixar Angola, logo a seguir ao Alvor, possivelmente por medo de represálias. Mas não se registou um fluxo significativo de partidas. Havia tranquilidade nas ruas, a economia continuava a funcionar como antes, a grande maioria dos brancos dava mostras de permanecer em Angola depois da independência e muitos chegaram a integrar os três movimentos.

91 | F. P. - Quando é que começou o êxodo dos brancos?

A. M. - A intranquilidade entre a maior parte da população branca começa a sentir-se logo que, nos primeiros meses de 1975, rebentam os combates entre a direcção do MPLA e a facção Chipenda, em Luanda. A partir de Abril a situação agrava-se em Luanda, devido à troca de tiros, raptos e assassinatos entre militantes dos três movimentos. Mas ainda não há um êxodo dos brancos. O que se verifica são os preparativos para o envio temporário das famílias (mulheres e filhos) para Portugal, enquanto os homens permanecem em Angola.

Eles acreditam que a situação vai acalmar, por isso ficam para ver o que é que se passará até à data da proclamação da independência, marcada para 11 de Novembro de 1975. As partidas das mulheres e dos filhos tomam grande vulto a partir de Junho, isto é, no final do ano escolar. Nessa altura, quer nas cidades, quer nas zonas rurais já se travam ferozes disputas entre movimentos, particularmente entre a FNLA e o MPLA. Aquela vai expulsando do Norte o MPLA e este contra-ataca e procura o controlo das cidades. Os sucessivos e sangrentos combates entre os três movimentos em quase todas as localidades do país alteram radicalmente a situação. O medo instala-se entre a população branca. E vem o pânico a partir da batalha de Luanda, em Julho-Agosto de 1975, conduzida pelo MPLA para a expulsão dos outros dois movimentos da capital, e das batalhas em outras cidades, nomeadamente Uíje, Malanje, Huambo, Benguela, em que a FNLA ou a UNITA expulsam o MPLA de algumas delas. Muitos brancos começam a encaixotar os seus bens para os enviar para Portugal, atafulhando os portos de Luanda, Lobito e Moçâmedes. Numerosos começam a partir e outros ainda não partem. Mas, entretanto, a maior parte coloca os seus bens a salvo, porque começam a duvidar do seu futuro no país.

Em Setembro, Outubro e Novembro de 1975 dá-se o grande êxodo dos brancos, que abandonam uma terra mergulhada na tragédia e no desespero de uma guerra civil acirrada pela invasão de tropas estrangeiras. Julgo que a maioria dos brancos (sobretudo os naturais de Angola) queria sinceramente permanecer em Angola e contribuir, de alguma maneira, para o futuro do país de que se considerava parte. Mas as terríveis circunstâncias em que se produziu a independência levaram a maior parte da população branca a deixar Angola, privando o pais de um grande número de quadros, que eram importantes para o desenvolvimento da economia e sociedade angolanas.

92| F. P. - Para além da insegurança causada pela guerra civil e intervenção militar estrangeira, existiu algum tipo de hostilidade da população negra para com a minoria branca angolana?

A. M. - Bom, nos Acordos de Alvor os três movimentos nacionalistas reconheceram que «angolanos» eram todos os naturais de Angola sem distinção de cor. Foi a primeira vez que essa posição foi assumida publicamente pelos três movimentos. Como tal, não havia uma prática anterior que tranquilizasse o anónimo cidadão branco, pouco politizado. Na verdade, a prática vivida a partir de meados de 1974 e, sobretudo, durante o ano de 1975 era de facto de uma profunda hostilidade das populações, militantes e quadros negros em relação aos brancos em geral, salvaguardando-se, dentro dos movimentos de libertação, os seus elementos brancos reconhecidamente militantes. Nestes casos estavam sujeitos ao ódio dos movimentos rivais, tal como os seus companheiros de cor diferente.

Essa hostilidade existia porque o próprio sistema colonial tinha criado uma situação em que a população branca era um instrumento da política colonial portuguesa, portanto era muito fácil confundir o branco com o colonialista, nomeadamente em meios pouco instruídos. O facto de nenhum dos três movimentos nunca ter explicado bem a questão do colonialismo e a questão da nação angolana, nas suas componentes, acabou por manter ou acentuar o equívoco. Uma grande parte dos brancos sentia-se angolana: eram filhos da terra, mas não se sentiam reconhecidos como tal pelos futuros dirigentes do país.

Por fim, no período pós-25 de Abril (sobretudo durante o ano de 1975), nas várias estratégias de corrida ao poder, os três movimentos privilegiaram o populismo e a demagogia, apresentando a independência como a passagem dos cargos e das riquezas directamente para as mãos do povo, obviamente identificado com a população negra. Acrescente-se a isto todo um conjunto de acções individuais de pessoas, militantes e quadros que queriam apoderar-se dos vários meios económicos, instigando assaltos e outros crimes, tendência que se acentuou depois da independência, durante algum tempo.

93| F. P - Mas houve ou não uma estratégia deliberada de algum dos três movimentos para obrigar os brancos a abandonar Angola?

A.M. - Eu julgo que não, ao nível de decisão das suas direcções. Mas não sei até que ponto as facções mais racistas de cada movimento (falo de alguns dirigentes e quadros) não teriam influenciado certos acontecimentos.

Verificaram-se situações e sentimentos extremamente contraditórios naqueles conturbados anos. Desde 1974 e sobretudo início de 1975 que havia militantes brancos em cada um dos três movimentos - até havia famílias em que as pessoas estavam repartidas pelos três movimentos. Aliás, ocorreu uma coisa curiosa. Em 1974/1975, os movimentos mais antibrancos, isto é, a FNLA e a UNITA, foram os que se mostraram mais abertos à entrada de brancos nas suas fileiras como militantes e quadros. Subitamente, a FNLA chegou a ter muitos brancos - talvez mais do que o próprio MPLA - possivelmente porque a FNLA não tinha implantação urbana e, como tal, precisava dos brancos para se implantar nas cidades. Além disso, a FNLA estaria ideologicamente mais próxima da maioria dos brancos (pelo contrário, o MPLA representava o «papão comunista»).

Como disse, a guerra civil despoletou, em Julho de 1975, um êxodo que foi crescendo até se tornar maciço em Outubro e Novembro. Os desmandos nas zonas controladas pela UNITA e pela FNLA fizeram fugir os brancos em direcção ao litoral ou à Namíbia (então Sudoeste Africano). Mas as exacções podem não ter sido emanação das direcções desses movimentos, em colectivo, mas sim de alguns dirigentes e quadros médios ou de militantes de base no sentido de afugentar os brancos para se apropriarem dos seus bens.

Em Luanda, apercebi-me de que a maior parte dos brancos teria a intenção de voltar, só que as circunstâncias no pós independência não lhe facilitaram o regresso. Por exemplo, logo a seguir à independência, o governo do MPLA publicou um decreto pelo qual nacionalizava os bens de todos os indivíduos que no espaço de quarenta e cinco dias não estivessem presentes em solo angolano. A maioria dos brancos não teria conseguido regressar em quarenta e cinco dias mesmo que a situação de segurança em Angola se tivesse normalizado. Isso teve influência decisiva na opção da maioria dos brancos permanecer em Portugal, no Brasil, na África do Sul ou em qualquer dos outros países que acolheram os refugiados brancos de Angola. Refira-se que, mesmo sem o tal decreto, muitos desses bens começaram a ser tomados por indivíduos, normalmente familiares de gente ligada ao poder (sobretudo membros da DISA - a polícia política, das FAPLA - as Forças Armadas, etc.). Acrescente-se que a facção de Nito Alves, que vinha a ganhar significativas posições no seio do MPLA, desde meados de 1974, começou a impor-se no aparelho do Estado e tinha um discurso e uma prática cada vez mais radicais de apelo à «verdadeira revolução» e às «massas populares», com a exclusão obrigatória (ou mesmo esmagamento) dos «burgueses» e «pequeno-burgueses», que eram invariavelmente conotados com a cor da pele, visando-se os mestiços e os brancos. Através da imprensa angolana daquela época pode-se avaliar como a linguagem e os actos políticos daquela facção eram eivados de alusões raciais.

94 | F. P. - Durante o ano de 1975, face ao desenrolar dos acontecimentos, as elites brancas de Angola - as chamadas «forças vivas», isto é, as direcções das associações económicas e as chefias políticas e militares locais herdeiras da administração colonial - permaneceram, aparentemente, apáticas. A única excepção parece ter sido o Coronel Gilberto Santos e Castro, relacionado com círculos da direita portuguesa no exílio, que comandou o célebre Exército de Libertação Português (ELP). Como é que isto se explica?

A. M. - Eu penso que as elites brancas foram surpreendidas quer pelo próprio 25 de Abril de 1974, quer pela rapidez como os acontecimentos se sucederam. Daí que não tenham tido capacidade de resposta e força suficientes para tentar impor uma solução que lhes conviesse politicamente. Também não creio, dada a sua prática anterior, que estivessem politicamente preparadas para tal. E é claro que após os Acordos de Alvor, já estabelecida a data da independência, ficaram drasticamente reduzidas as margens de manobra para qualquer movimentação visando realizar uma independência favorável aos interesses brancos instalados. Eram também impossíveis as veleidades de contrariar a próxima independência de Angola.

Contudo, logo após o 25 de Abril de 1974, houve movimentações no sector branco da população, tendo algumas continuado até à proclamação da independência. Uma grande parte das elites brancas dos planaltos procurou instrumentalizar a UNITA, lançando-a como terceiro movimento; outros foram apoiar a FNLA e alguns outros — inclusive o próprio Fernando Falcão — iriam colocar-se ao lado do MPLA, depois de uma efémera tentativa de relançamento da FUA. A ala reaccionária dos brancos, liderada pela PIDE e pelo Coronel Gilberto Santos e Castro, organizou-se como força militar de apoio à FNLA. Santos e Castro recrutou uma série de militares - comandos - e pides portugueses e angolanos, armando-os com o apoio da CIA. O objectivo deles, em 1975, não seria o de instaurar um poder branco (tal já não se podia pôr nem como hipótese), mas de implantar um poder favorável à África do Sul e, quiçá, fazer de Angola uma base de rectaguarda de forças reaccionárias portuguesas para um futuro combate ao novo regime de Portugal.

Parece evidente que o objectivo de Santos e Castro, em Angola, era derrotar o MPLA, que era apresentado como agente do comunismo soviético. Neste sentido, em Novembro de 1975, o ELP entrou em Angola pelo Norte, conjuntamente com as forças da FNLA e do exército zairense, numa tentativa de tomar Luanda antes da data de independência, mas foram todos travados à porta da capital, no Panguila, pelas forças do MPLA, reforçadas pela artilharia cubana, que desempenhou um papel fundamental. Pelo Sul tinham entrado tropas sul-africanas que foram detidas no Ebo, Kwanza Sul, por forças militares cubanas (aí morreu um general cubano). Face à derrota do Panguila, apenas a quinze quilómetros de Luanda, o ELP deslocou-se para o Centro, apoiando a ala de Chipenda, que partilhava o poder com a UNITA e a FNLA no Huambo, na proclamada «República Democrática de Angola».

Posteriormente, o recuo estratégico do Secretário de Estado norte-americano, Kissinger, alterou a pressão sobre o MPLA e levou à retirada dos sul-africanos em finais de Março de 1976. Estava selado o destino dos apoiantes de Santos e Castro que retiraram para a África do Sul, via Sudoeste Africano (actual Namíbia). Convém acrescentar que embora o ELP tivesse simpatias em alguns sectores da população branca de Angola, nunca teve o apoio da maior parte desta população (pelo menos da grande maioria dos brancos nascidos em Angola que não se reviam nas soluções aventureiras e militaristas representadas por Santos e Castro).