Jonas Malheiro Savimbi


Jonas Malheiro Savimbi
Edição Portuguesa de Revistas Lisboa - 1979

 

O ÊXODO DOS BRANCOS: CAUSAS E EFEITOS

O êxodo dos brancos desequilibrou profundamente a vida político-económica de Angola. Houve quem escrevesse que a maior parte dos brancos residentes em Angola tinha aderido à UNITA e desertou dela, depois de certas afirmações de dirigentes do Partido, nomeadamente o meu discurso de Julho de 1975 no Cuma. Falou-se, também, de pretensas traduções diferentes das minhas comunicações de português para umbundo. Tudo isso, porém, não passava de especulação.
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A UNITA foi o único movimento que tomou posições claras, límpidas, em relação à nacionalidade angolana. Foi ela que manteve (como mantém) a sua posição de que nas circunstâncias do nosso País, angolanos podem ser os pretos, os mestiços e os brancos. Quinhentos anos de vivência em comum representam alguma coisa. Quinhentos anos de mistura de costumes e de sangue não são pouco.

A UNITA defendeu o ponto de vista da nacionalidade para brancos e mestiços, desde que esses estratos populacionais se identificassem com a construção harmoniosa de uma nova Angola, aceitando entrar na "escola da História", para que os pretos, que são a maioria, não vivessem constantemente dos seus ressentimentos e os brancos quisessem transpor para uma Angola independente a sua vida de privilégios passados durante a época colonial.

Construção harmoniosa de uma nova Angola não significava para a UNITA apenas exclusão de guerra. Significava, além da exclusão da violência, que as camadas mais privilegiadas do tempo colonial aprendessem que tinham entrado numa nova vida, numa Nação acabada de nascer. Mas significava também que os oprimidos se capacitassem de que a Independência traria para eles oportunidades iguais, para dessa forma evitarem precipitações e rancores.

Foi essa base única, anunciada pela UNITA, que fez com que brancos, pretos e mestiços aderissem em massa à filosofia do nosso Partido. Quanto ao meu discurso no Cuma, ele foi apenas um reflexo da situação que se vivia. Na manhã desse dia, tinham estado a dialogar comigo naquela vila certos elementos brancos, que se diziam amigos da UNITA, como o banqueiro Espírito Santo e o engenheiro Fernando Falcão, do Lobito, Pinto Leite, do Huambo, engenheiro Corte Real, da Gabela e outros, mas com objectivos um pouco diferentes.

O Falcão ia para convencer-me de que a UNITA devia capitular diante do MPLA, porque ele tinha estado em Luanda e vira ali desembarcar armas electrónicas. Era uma atitude de medo, de tibieza, própria de um homem que nunca combateu. Os dirigentes da UNITA não podiam aceitar lições ou conselhos do Falcão, que nunca pegou em armas contra o colonialismo, da mesma forma que actualmente não tem coragem de pegar em armas contra os russos e os cubanos. Cooperou com o colonialismo português; coopera agora com os novos dominadores. O Falcão não tinha, pois, base moral nenhuma para dar lições aos combatentes.

Outros dos meus interlocutores, sustentavam que os únicos brancos que tinham escolhido um Movimento de Libertação por se identificarem com o seu ideário, eram os que tinham aderido ao MPLA. Segundo eles, os brancos filiados na UNITA tinham-no feito para procurarem da parte dela protecção para os seus privilégios. Era exactamente aquilo que a UNITA não queria, nem consentiria. Proclamando que pretos, brancos e mestiços eram iguais, eram todos Angolanos, a UNITA pretendia formar entre eles uma corrente fraternal que possibilitasse a construção de uma Pátria única.

Dizerem-me que os brancos procuravam na UNITA a defesa dos seus privilégios, era o mesmo que me confessar em que eles se opunham ao nosso programa. Foi por isso que eu quis lembrar aos brancos, no Cuma, que a Independência exigia de cada um uma dose de sacrifício. Tanto bastou para que logo se propagasse que a UNITA tinha mudado de filosofia. Não. Angola independente é que iria exigir de cada lado a compreensão das mutações históricas operadas na vida da nossa terra.

E se, a propósito desse tema, eu quiser examinar erros cometidos nas áreas controladas pela UNITA, no Huambo, Lobito, Lubango e Moçâmedes, fácil me será concluir que as populações pretas, brancas e mestiças não estavam absolutamente nada preparadas para esse encontro fraternal.

A população branca queria manter os seus privilégios dentro de um Pais independente. Para ela, a única mutação que se teria operado na vida do País era o aparecimento dos Movimentos de Libertação Nacional, com os seus dirigentes "todos armados em doutores". E a maioria da população negra não devia passar da situação colonial. Era uma atitude incompreensiva, que exigia uma educação política, e esta não podia ser feita através da euforia dos comícios. Tornava-se necessário, também, que a vida organizada quotidianamente, indicasse à classe menos privilegiada de ontem que a Nação angolana tinha sofrido no seu espírito e na sua alma uma mutação profunda, mas que essa circunstância não implicava de forma nenhuma uma exaltação de racismo, para se atacar, roubar ou desferir golpes em toda a gente.

Na conjuntura, era inevitável que a ascensão da população desprotegida ocasionasse desequilíbrios na população privilegiada na época colonial. Mas quem não aceitasse isso, era porque não pretendia trabalhar para a reconstrução harmoniosa de Angola. Todo o Movimento de Libertação, todo o Partido político que prometesse a uma minoria privilegiada a continuação dos seus privilégios contra uma maioria desprotegida, mais não faria do que cavar um abismo para ambas as etnias, isto é, para os dois grupos.

A filosofia da UNITA nunca sofreu tergiversações: assentou sempre no reconhecimento de que a nacionalidade não partia da cor da pele, da origem, dos meios financeiros ou da terra de nascença, mas sim de uma vocação de cooperação entre todos os grupos sociais angolanos. Sempre disse e ainda acredito que os pretos, brancos e mestiços poderão conviver harmoniosamente em Angola, desde que aceitem como necessárias e inevitáveis as mutações da sociedade. Mas ter-se-á que providenciar para que o desequilíbrio que vai sofrer a classe mais privilegiada, para que a menos privilegiada suba, não tome uma forma violenta nem crie frustrações, a fim de que esse equilíbrio temporário procura novamente um equilíbrio.

Os erros cometidos em Angola resultaram da intransigência de certos elementos, umas vezes negros, outras vezes brancos, que não estavam prevenidos de que todo o extremismo gera calamidades e que não aceitavam moderação nas suas reivindicações. E foram certamente esses elementos dos extremos, que não aceitavam a conjugação ou a simbiose de valores, o equilíbrio entre os extremos, que acusaram a UNITA de ser um Movimento racista. Felizmente que as nossas posições claras têm granjeado, ontem como hoje, à UNITA simpatias e apoios em todos os meios angolanos, sejam eles pretos, brancos ou mestiços, porque continuamos a acreditar que uma Angola feliz só é possível nestas bases.

Retomando a questão do êxodo dos brancos, quero dizer que, no meu entender, ele não foi ocasionado pela sucessão dos acontecimentos ou pela falta de tempo para a educação das massas. Foi deliberadamente precipitado por Rosa Coutinho, que sabia bem que a única coisa que faltava ao MPLA, nessa altura, para poder aguentar a administração, eram os brancos, que não tinham contudo nenhuma simpatia por aquele Partido. Por isso, Rosa Coutinho fomentou atrocidades contra os brancos, para que eles se precipitassem para os portos e aeroportos e para os seus carros — em direcção ao Sudoeste Africano — deixando um vácuo que só o MPLA poderia preencher, graças ao envio apressado, de Lisboa, de quadros do Partido Comunista Português, para reforçarem a sua posição. Foi essa a razão fundamental do êxodo dos brancos.

Habituados à acalmia colonial, os brancos não conseguiram encontrar um equilíbrio para tentar resistir. A guerra de libertação decorrera nas zonas pouco povoadas por eles, no Leste do País, na fronteira com o Zaire e na fronteira entre Cabinda e o Congo-Brazzaville. As zonas mais povoadas de população de origem europeia tinham ficado ao abrigo da luta armada. Logo, os solavancos criados pela mutação natural de uma nação que nascia, agravados pela linguagem extremista e pelas instruções de violência dimanadas de Rosa Coutinho, levaram os brancos à demissão e ao desespero.

Houve quem me perguntasse o que se teria passado se a população europeia tivesse ficado em massa em Angola, ao lado da UNITA. Penso que nada se teria passado, que a luta teria continuado. Não creio que os cubanos não avançassem por esse facto. Pelo contrário. Interessar-se-iam por fazer propaganda entre essas populações, para que elas desertassem da UNITA e se ligassem a eles e ao MPLA.

Alguns brancos ficaram em Angola, nas zonas da UNITA. Nas aldeias e nas Forças Armadas. Não se fala deles porque são dos mais simples; são, na sua maior parte, analfabetos; são aqueles que realmente se identificaram com Angola, e ao mesmo nível que a maioria da população local. Se fossem intelectuais, médicos, advogados, se pertencessem àquela classe melhor equipada para a vida e que em Angola ou em Portugal podem conquistar sempre lugar para sobreviver, talvez se falasse deles. Mas porque são de uma condição social inferior, ninguém, lá fora, se Interessa pelos seus actos de coragem, de identificação à Causa angolana.

Os considerandos "se" — "se os brancos não tivessem partido", "se a UNITA tivesse recebido armas antes", "se o Ocidente não tivesse feito intervir a África do Sul" — servem apenas ao exercício intelectual de análises. A realidade é que os brancos partiram, é que o MPLA recebeu armamento primeiro do que qualquer outro movimento, é que os cubanos precederam qualquer soldado estrangeiro em Angola, é que a UNITA não podia cooperar na formação de um governo da República Democrática, no Huambo, porque ele não tinha requisitos para poder sobreviver.

Estes são os factos. Não vamos, portanto, basear a nossa análise na imaginação dos considerandos "se", mas tomar em consideração a realidade "é".