Prefácio - Edição de Livros e Revistas
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O autor

                                                                             Porquê o 4 de Fevereiro ?                            

                                                José Victor de Brito Nogueira e Carvalho

Neste excelente livro o autor relata minuciosamente o que se passou com a descolonização de Angola. Sugerimos vivamente a sua leitura a todos aqueles que estão interessados em saber a verdade sobre a descolonização e guerra em Angola. Como o livro tem copyright e não será fácil de adquirir àqueles que vivem em Angola, solicitamos a complacência da Editora e do Autor. Obrigado.

Pag. 76-80.  Havia necessidade de chamar a atenção da ONU para o que se estava a passar em Angola, e da actuação que estava a ser desenvolvida pelos chamados movimentos de libertação.

A ocorrência havida com o desvio do Paquete Santa Maria em 21 de Janeiro de 1961 e que tinha como objectivo ancorar em Luanda, era um factor que não podia ser desperdiçado. Henrique Galvão era um homem ambicioso não alheio ao MPLA, que pretendia ser Presidente duma Angola autónoma, mas sem corte total com a Metrópole.

O aproveitamento da presença de jornalistas de todo o mundo que ainda se encontravam no vizinho Congo, para onde se haviam deslocado para a cobertura da independência uns meses antes. Aí se mantinham ainda, pela sucessiva agitação resultante do golpe de estado efectuado por Mobutu em Setembro de 1960 para deposição de Lumumba, e posteriormente, já em Janeiro de 1961, o facto de oficiais adeptos de Lumumba terem invadido o Norte do Catanga, era também um factor contributivo. Os movimentos do 4 de Fevereiro era só para terem tido lugar a 15 de Março, mas foram adiantados devido a estas ocorrências.

Não só as missões protestantes, mas também a Acção Católica, tinham boas ligações aos chamados movimentos de libertação através do na altura sacerdote Alexandre do Nascimento, e de Joaquim Pinto de Andrade irmão de Mário Pinto de Andrade. Pressionam o Cónego Manuel das Neves (que tinha contactos em Leopoldville e recebia na Sé, elementos da UPA e do MLA) sendo o cónego mais antigo de Angola que quando necessário substituía o Arcebispo D. Moisés, a transmitir instruções para que a libertação de prisioneiros tivesse lugar na noite de 4 de Fevereiro.

(Mais tarde, em 1962 e em resultado dum encontro havido em Brazaville entre o negro Angolano Manuel Mendes Pacavira, Mário Pinto de Andrade e Lúcio Lara, estes, com a finalidade de melhor cativar as populações de Angola, decidem que o MLA passaria a designar-se MPLA - Movimento Popular para Libertação de Angola. Mendes Pacavira é então instruído no sentido de contactar o Dr. Agostinho Neto, e pedir-lhe que aceitasse a direcção do MPLA, e divulgasse a sigla do partido por quantos se interessassem pela independência de Angola, continuando as suas acções, até o objectivo ser conseguido).

Entretanto, acompanhados pela informação da PIDE iam sendo conhecidos os movimentos dos membros da UPA e divulgadas as informações obtidas, por todas as autoridades responsáveis da Província, que estavam por conseguinte a par do que se passava.

Em finais de Janeiro de 1961 surge a informação de que iria haver uma ocorrência violenta, sem contudo se precisar o quê, data e onde. Falava-se contudo que teria relacionamento com os estabelecimentos prisionais.

A 3 de Fevereiro nova informação de que seria na noite daquele dia continuando a desconhecer-se o quê, hora e onde. As autoridades Governativas bem como as Militares são postas ao corrente, mas dada a imprecisão e ausência de recorte de detalhes, não são levadas muito a sério havendo até comentários de que era mais uma da PIDE. Por razões que se desconhecem, o informador que tinha ficado de dar mais pormenores nessa noite, não aparece ao encontro estabelecido.

O Pavilhão Prisional da PIDE está contudo em alerta, tendo-se avisado também o carcereiro da cadeia civil que estava próxima, o carcereiro Arezes, que deveria ter consigo a caçadeira que tinha distribuída bem como cartuchos para a mesma.

Pelas 2 horas da manhã houve-se uma rajada de arma automática, pelo que através do agente Caçola que se encontrava de serviço e de sobreaviso na Sede da PIDE, onde os tiros foram ouvidos, são de imediato contactados, o Pavilhão Prisional e a 7a Esquadra da PSP em Catete. Os terroristas no seu trajecto para a 7a Esquadra da PSP, tinham surpreendido uma patrulha móvel da PSP que se encontrava em serviço nos muceques, e se dirigia para a Casa de Reclusão.

Matam os ocupantes e desencadeiam os ataques. Começa assim a longa noite do 4 de Fevereiro de 1961. Chegados à 7a Esquadra, matam o sentinela e dirigem-se para o interior da mesma onde se encontram vários outros elementos da PSP.

Por sorte, um dos elementos da Companhia Móvel da PSP estava a dormir com a arma junto à cama, e quando houve gritos pega na arma e faz uma série de tiros abatendo vários terroristas, que não esperavam esta reacção.

Simultaneamente atacam também a cadeia civil e o Pavilhão da PIDE, onde são recebidos aos tiros. Atacavam todos os locais em multidão ululante, armados de catanas e aos gritos de mata, mata, sem se preocuparem com os tiros que iam abatendo muitos deles, chegando a cair nas escadas de acesso à cadeia.

Vinham vestidos com calções e camisas pretas, berrando como loucos, mas acabando por fugir quando caíram uma série deles. Mais tarde obter-se-ia a informação de que estes elementos pertenciam à UPA, e que tinham sido drogados com um líquido feito à base de liamba, que antes do ataque lhes fora ministrada por um feiticeiro, que viria a ser preso, corroborando esta informação.

Todos os elementos que foram abatidos nos ataques terroristas bem como na emboscada à patrulha móvel pertenciam à PSP. Estes inesperados ataques alvoroçaram toda a comunidade branca e o resultado foi que no dia do enterro dos vitimados, em que o nervosismo marcava presença bem como o sentimento de insegurança, quando alguém gritou que estavam a ser atacados, houvesse uma reacção inesperada de muitos brancos, que iniciaram uma perseguição e a morte de muitos negros que estavam presentes, talvez mesmo a prestar homenagem aos polícias mortos.

Em resultado de investigações posteriores, não se apurou que tivessem tomado parte nos ataques, elementos do MLA. Os contactos de informação prosseguiram, e desse modo a PIDE viria a saber que um segundo ataque se perpetrava, sabendo-se inclusivamente a hora e o local em que as acções teriam lugar.

Foram informadas todas as autoridades das perspectivas de ataque, que a informação dizia ser às 2 horas do dia 10 de Fevereiro, com incidência sobre a 7a Esquadra da PSP, o Pavilhão Prisional da PIDE, Casa da Reclusão e Administração de S. Paulo, junto ao Pavilhão. Com a data hora sabida e locais em que seriam feitos os assaltos, prepararam-se os alvos para receber os atacantes.

Aconteceu contudo que o Administrador do Posto Administrativo de S. Paulo, conhecido por Poeira, já senhor da informação, fosse com o filho dum Intendente, Aspirante Administrativo Xavier Martins, que com ele se encontrava na Administração, duas horas antes da hora prevista, dar uma volta de jeep e por acaso ter passado pelo local da concentração dos terroristas, um eucaliptal.

Julgando-se descobertos estes anteciparam os ataques, sofrendo contudo imensas baixas pois estava tudo preparado para os receber. A exemplo do que acontecera no 4 de Fevereiro, estes avançaram igualmente como loucos e a gritar, indiferentes às balas que os iam abatendo. Vinham igualmente drogados. A exemplo também do que sucedera nas investigações anteriores, não se apurou que o MLA tivesse tomado parte naquela acção, conjuntamente com a UPA. A notícia destes violentos e perturbadores acontecimentos alastrou rapidamente, por toda Angola, criando um certo mal-estar, misto de revolta e insegurança.

Contudo dada a distância a que nos encontrávamos de Luanda, mais de 300 km, a falta de informação, e sendo os meios de comunicação praticamente nulos, estas notícias rápido se desvanecem nas populações menos esclarecidas, alertando-nos contudo para que passássemos a andar mais atentos.

Intensifiquei as saídas com patrulhamentos das áreas até um raio de 100 a 150 km, com uma viatura apenas, normalmente um velho jipão. Eu tinha então um velho jeep willis da segunda guerra mundial, suspensão em folhas de lâmina, assentos em lona, acolchoados por uma espécie de sisal, duros, e aos altos e baixos.

A cobertura era de lona com alguns rasgões, janelas de mica (já estalada) e velhos pneus que furavam com uma certa facilidade, sobretudo quando encontravam troncos pontiagudos existentes nas picadas.

Rações de combate não havia, bem como meios de comunicação, salvo emissores existentes nos postos administrativos e em algumas fazendas, que eram de imediato e voluntariamente, postos à nossa disposição.

A uns dois km da povoação existia uma pista de aterragem em terra batida e com muita vegetação rasteira, onde só excepcionalmente aterrava um ou outro avião, o que era motivo para deslocação de todas aquelas gentes para ver o grande pássaro de ferro. À noite costumávamos ir para lá caçar coelhos à paulada depois de perseguidos pelo jeep.

Nas nossas deambulações pelas sanzalas, fazendas, Postos Administrativos, fomos criando elementos de contacto e de confiança que se viriam a mostrar óptimos na informação, pois que sendo os soldados e os quadros, africanos, falavam também o próprio dialecto criando mais afinidade com as populações. O que com eles aprendi viria a ser de extrema utilidade ao longo dos cerca de onze anos que acabei por viver em África.