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Sugerimos vivamente a todos aqueles que desejarem saber pormenorizadamente o que se passou em Angola antes da dita descolonização lerem atentamente este livro onde tudo é relatado ao pormenor. Como o livro pelo seu conteúdo nunca poderá ser publicado em Angola e para que os angolanos e não só saibam o que se passou no essencial antes e depois da "dipanda", transcrevemos parte dos textos que nos pareceram ser suficientemente elucidativos. Como o referido livro tem copyrigth e por isso não é permitido por lei transcrever seja o que for e, pela razão exposta, solicitamos a complacência da autora e do editor. Muito obrigado

O VISÍVEL NO PÓS-INDEPENDÊNCIA

Às zero horas de 11 de Novembro de 1975, enquanto os navios Niassa e Uíge se distanciavam das águas mansas da baía de Luanda, com as altas individualidades militares, que se retiravam para sempre, o MPLA procedia aos cerimoniais do nascimento da República Popular de Angola (RPA).

Na leitura da proclamação da independência em Luanda, Portugal foi referido em três ocasiões: primeiro, foi criticado por ter reconhecido como verdadeiros movimentos de libertação as «organizações fantoches» (UNITA e FNLA); depois, foi citado como alvo de um «contencioso» que o MPLA quer tratar, mas «com serenidade para que não envenene as nossas relações futuras»; e, por último, a propósito da «tarefa prioritária, vital e inalienável» de expulsar, entre outros, os «fascistas portugueses». Umas horas a seguir, Agostinho Neto era investido por Lúcio Lara, membro do comité central do MPLA, no cargo de presidente da RPA.

Quatro dias depois de o MPLA declarar a sua independência convocou os jornalistas para exibir «mercenários portugueses» em conferência de imprensa. Os 12 «inimigos do povo» incluíam Amilcar Barreira, Fernando Lamas e Carlos Las Heras.

Trazem-nos a 15 de Novembro de 1975 do campo de reeducação da Sapu, tal como estavam no momento, sem lhes adiantarem o destino. Em Luanda, o autocarro parou no Palácio do Governo. Entraram pelas traseiras, percorreram corredores até desembocarem onde decorreria, daí a pouco, o espectáculo. Encostaram-nos em fila, num dos lados do salão, frente à mesa dos conferencistas, com a panóplia de microfones e gravadores amontoada. A seguir abriram-se as portas, entrou o magote de jornalistas, angolanos, portugueses e de outras nacionalidades, que tinham ficado depois da cobertura da independência.

Era um momento importante para os homens de Agostinho Neto. Pela primeira vez, o MPLA mostrava o grupo raptado e detido ainda sob a soberania portuguesa. Perante o mundo, estes portugueses eram, disseram, a prova das intenções da reacção, culpados a soldo do imperialismo internacional. Inimigos que lutavam por uma Angola de supremacia branca.


(Foto livro)

A 15 de Novembro de 1975, quatro dias depois depois da independência, O MPLA arrastou 12 "inimigos do povo" para uma conferência de imprensa - sem direito a pergunstas dos jornalistas. Três dos entrevistados neste livro, Amilcar Barreira, Fernando Lama e Carlos Las Heras, foram protagonistas forçados daquele embuste. O novo poder au-instituido em Angola pretendia apresentá-los como mercenários ao serviço do imperialismo americano e dos banqueiros portugueses, mas a imprensa internacional não aceitou o engodo. Em Portugal,  Diário de Notícias reproduzia obedientemente toda e qualquer alegação do MPLA.

Denominador comum: eram conotados com o movimento de Holden Roberto. Alguns não se conheciam, encontraram--se perante o mesmo azar. Fernando, Carlos e Amilcar olham perplexos para um organigrama com setas, rectângulos e conclusões que terminavam em referências à CIA. O comandante Juju, Júlio de Almeida, porta-voz do Estado-Maior das FAPLA, explicava aos representantes da imprensa o esquema dos inimigos do povo. À cabeça da conspiração estava o coronel Gilberto Santos e Castro, aliado à FNLA, com ramificações a banqueiros portugueses, Champalimaud incluído, e a interesses franceses.

Presente na conferência, o jornalista Georges Lecoff recordou, no livro que publicou sobre este período, que a exposição do comandante Juju «era de tal maneira densa, citava um tão grande número de personagens, que ninguém, de facto, a conseguiu entender» - o que obrigou a um segundo encontro nesse mesmo dia, com os representantes dos media, para uma melhor explicação.

Lecoff, um profissional estrangeiro que se limitou a contar e interpretar o que presenciou em Luanda, situava os exibidos na conferência de imprensa como jovens mercenários portugueses, «nascidos em Angola, que se deixaram arrastar nesta aventura sem saberem bem o que faziam, na esperança de ficarem no seu país natal, com um regime que manteria os brancos num papel preponderante».

A conferência de imprensa ficou-lhes gravada na memória, mas Fernando Lamas é dos que conservou uma imagem mais nítida. «Aquilo era pura e simplesmente um cenário montado, artifício político, marketing, merchandising, oportunismo, como outros que conheci do MPLA, mestre a montar este tipo de situações. Nós não tínhamos nada uns a ver com os outros, nem nunca ouvíramos uma história daquelas. Tomei iniciativa, sabia falar inglês e francês, mas comecei a fazer linguagem gestual com o corpo, virando-me para o organigrama, mostrando o meu espanto. Isso levou a que um dos jornalistas da frente, penso que nórdico, me fizesse uma pergunta, a que respondi em inglês: "Não, não, era a primeira vez nunca tinha visto aquilo, nunca existiu..".

O nosso objectivo era tentar mostrar que aquilo, para nós, era completamente desconhecido. E era verdade. Levantou-se um sururu medonho. Os jornalistas revoltaram-se, queriam falar connosco. Nós aproveitámos, dissemos que aquilo não tinha nada a ver connosco, não éramos um grupo e não nos conhecíamos. Aquilo gerou a expulsão dos jornalistas da sala, à força, pelos militares do MPLA. Recordo aquela mole a virar-se de costas e protestar: "Nós não publicamos nada",'Isto não há direito!'... E nós encostados ao canto. Aquilo acabou subitamente, foi uma barraca. Eles perderam a jogada. Havia o firme propósito de isolar um grupo de brancos, comprovar a ligação destes à CIA, mas atabalhoadamente. A conferência foi política, para mostrar a validade da independência angolana por via do MPLA."

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SEGUNDA PATE DAS ENTREVISTAS

Carlos Las Heras, expulso em 8 de Julho de 1978

«Durante o tempo em que estivemos presos, mas em contacto com a natureza, no campo-prisão da Sapu, arranjei uma casinha com umas chapas de zinco e ali fiz uma enfermaria. Comecei a tratar as pessoas, arranjaram-se uns medicamentos e uma marquesa. Primeiro fiz suturas. Eu era delegado de propaganda médica, mas tinha estudado medicina. O Lamas tinha uma otite que aquilo nunca mais acabava, e eu com uma injecção, olhe, até hoje... E fiz circuncisões que nunca mais acabavam. Todos os negros queriam fazê-la. Muitos da cidade não tinham os rituais antigos da circuncisão. Até fiz uma ao próprio Quilombelombe, o comandante Fortes do campo. E curei-lhe um eczema húmido entre as virilhas. Tinha ali um amigo, tratava-me com respeito. Mas, inicialmente, nós tínhamos medo de todos. A gente estava sempre à espera que alguém descontrolado agarrasse na Kalachnikov e nos matasse.»

«Um dia meteram o Nelson numa pocilga de porcos e ainda lhe bateram. O Garrido chegou a andar à vontade, o Nelo chegou a vir até Luanda. Chegámos a ter uma lavra da mandioca, sabia a castanha, e a gente comia, comia... Às tantas eram disenterias! Começámos a ter melhoria de condições quando fiz a enfermaria. Ainda realizámos uma peça de teatro, em que eu era o imperialista americano, com um chapéu e umas estrelas. Era de loucos, mas fomos muito aplaudidos. Um dia voltei a ser espancado. Havia uns bidões que fizemos de panela depois de cortados e aquilo ia matando as pessoas, porque tinha armazenado restos de insecticida na base. Foi necessária muita calma. Fui espancado e queimado com pontas de cigarro e brasas, porque quis envenenar as pessoas.»

«Eu controlo a dor física. As dores morais é que não são controláveis. Há rapazes que estiveram comigo que sofreram muito mais. O sofrimento não se pode medir. Cada pessoa é diferente. Tivemos momentos em que não era a dor física, era o desespero em que estávamos. Tomáramos nós que algum dos faplas nos metesse uma bala e acabava-se tudo. Houve alguns que ainda pensaram em suicídio.»

«Talvez em 1976, um ano e pouco depois da Sapu, fomos divididos. Uns foram para a Casa da Reclusão, outros como eu para a Fazenda Tari na Quibala. Aí também fui espancado, partiram-me um braço na altura da revolta do Nito Alves. Fui operado no Hospital Militar por um cubano que tive a sorte de não me ter cortado o braço, como eles faziam. Fiquei com a cabeça do cúbito toda esmigalhada. Os médicos cubanos falavam connosco com certos cuidados.

Não conheciam alguns instrumentos cirúrgicos, não tinham visto carros como os nossos. Eles diziam que uma das condições para irem para a 'batalha de Luanda' era poderem saquear. Contavam os problemas deles, que foram forçados a ir para Angola. Estavam em todo o lado, a mandar como conselheiros. Eu fui aliciado pelos cubanos para ir para Cuba, receber treinos e fazer contra-espionagem em Portugal. Tinha um nome espanhol... E isso foi porque consegui tirar o estilhaço a um cubano que estava junto ao nariz e ninguém era capaz de o fazer. Havia um general Abelardo, falei com ele várias vezes, dava-nos latas de sumo de manga.»

«Na Quibala pedi para dar uma volta pelas fazendas das redondezas, para recuperar alfaias agrícolas para a gente poder comer, porque nem havia população que nos levasse comida. Havia muitos tractores sem pneus porque tinham tirado para fazer sandálias, mas nós recuperámos dois ou três.

Rebocámo-los, levámos uma motoniveladora, montámos uma ceifeira debulhadora. Fizemos batata, milho, uma horta com irrigação, pusemos um gerador para dar luz. Éramos considerados técnicos. Fomos buscar uns cavalos perdidos, fizemos uma cerca para os cavalos. E deram-me um quarto especial, eu e um rapaz angolano coordenávamos aquilo tudo. Tínhamos pão todos os dias. O Monteiro bombeiro era especialista em arroz-doce. Muito arroz-doce eu comi! Até plantámos tabaco que fumávamos num papel qualquer.»


(Foto livro)

Notícia das páginas centrais do Correio da Manhã de 23/5/1987, em que a autora entrevistou Américo Pires Afonso sobre as condições que, onze anos depois da independência, ainda subsistiam nos campos de reclusão angolanos. Na fotografia, o entrevistado exemplifica uma das formas de tortura a que os presos eram submetidos

«Contactos com autoridades portuguesas, consulado, embaixada? Quando estava no Hospital Militar passou lá um senhor Jorge Gonçalves, disse que era do consulado, queria notícias para mandar aos meus pais que me davam como morto. Depois voltou. Na embaixada falei com o embaixador Sá Coutinho, disse que o presidente Ramalho Eanes ia encontrar-se com o Agostinho Neto. Uma altura mandaram-me preparar para ir para o aeroporto. Queriam que fosse num avião da Aeroflot para ser tratado na União Soviética, porque os cubanos não sabiam tratar-me. Recusei.»

«Simulacro de fuzilamentos? Também me levaram ao Grafanil e me encostaram. Vendaram-me os olhos, não me recordo bem. Deram uns tiros, senti alguém a cair, a certa altura começaram-se a rir e vi que alguns tinham desmaiado. Custa-me no meio disto tudo que o Estado português não vá buscar os corpos dos portugueses. Mesmo não fazendo publicidade.»

«Foram três anos de cativeiro, torturas, medo de morrer, a ânsia da liberdade, a saudade da família, a recordação dos filhos, os espancamentos, a fome e tudo o mais. Na prisão os minutos passavam com uma lentidão desesperada, e nunca se sabia o que poderia vir a acontecer. Espancamento? Fuzilamento? Ou saída para junto dos outros? Nunca se ama tanto a vida como quando se está prestes a perdê-la. A fome foi outra das dificuldades que tive de enfrentar e me habituei a vencer. Aprendi a sobreviver com quase tudo, desde ratos, carne dos animais que morriam por doença, folhas de árvore, etc.»

«Cheguei a Lisboa às nove e meia de 8 de Julho de 1978, de muletas e braços com ligaduras, e apenas alguns dentes no maxilar inferior. Eu não andava. Paralisei. Cheguei cá com 48 quilos. Saí do avião ao colo de uma hospedeira, angolana, que pediu para não dizer que me ajudou. Trazia umas muletas, se calhar foi a defesa psicológica que me tolheu completamente as pernas. Foi ultrapassado, mas a massa muscular levou tempo a recuperar. É pena não ter nenhuma foto dessa altura. Parecia aquelas crianças subnutridas, com as pernas muito fininhas. No aeroporto, sem qualquer identificação, mal vestido e dizendo que vinha de Angola, sou proibido de passar pela guarda da fronteira. Peço então para contactar o MNE, e é aí que o embaixador Sá Coutinho se desloca ao aeroporto para explicar a minha situação. Estivemos a falar, disse-lhe que tinha estado no hospital internado, e que ainda lá tinham ficado portugueses, dos presos antes da independência.»11

«Vim a ser preso novamente em Lisboa. Como estava sem documentação tive de passar a noite no Governo Civil, até poder sair em liberdade. Só não dormi nos calabouços porque houve boa compreensão do polícia, que fez todas as diligências até entrar em contacto com os meus pais. Em Portugal já tinham acabado os apoios para os retornados, e as estruturas estavam praticamente encerradas. Mas lá consegui quinze contos não reembolsáveis do general Gonçalves Ribeiro, o alto-comissário para os Desalojados, que me pediu total discrição.»

CASOS PÓS-INDEPENDENCIA

Carlos Pacheco: do poder ao cárcere

Carlos Pacheco, investigador da História de Angola, com estudos publicados sobre a primeira metade do século X!X e também sobre o período contemporâneo, tem dupla nacionalidade: portuguesa e angolana. Dividindo a sua existência entre Portugal e o Brasil, já que é casado com uma professora brasileira, dedica-se neste último país a proferir palestras e conferências em universidades.

Em 1975 e 1976 colaborou directamente com Agostinho Neto. Mas acabou por ser detido na onda de depurações internas no MPLA e acusado de alinhar com as ideias de Nito Alves. Sofreu as agruras da prisão entre 30 de Maio de 1976 e Agosto de 1979. Conheceu bem a organização de Neto por dentro, da qual foi uma das vítimas, «entre milhares de outras, justamente por causa de intrigas monstruosas em que o MPLA se afundou». Com os anos, a situação levou-o, na qualidade de historiador, a procurar clarificar esse passado, que considerava propositadamente deturpado por dirigentes do movimento. Especializou-se em História Contemporânea de Angola. Através dos seus trabalhos tem-se afirmado como voz dissidente em relação à história oficial consagrada pelo poder político angolano.

Nasceu em Luanda, em 1945, rio Bairro dos Coqueiros. O pai, português de nascimento, emigrou para Angola nos anos 30 e angariou ao longo da vida uma experiência africana de quase meio século. «Foi ele quem me transmitiu a semente do independentismo. Só que a independência não foi nada do que sonhávamos», diz. O historiador viveu em Luanda até ser convocado em 1969 para o serviço militar. Nesse mesmo ano, na qualidade de oficial miliciano, foi destacado para Montepuez, em Cabo Delgado, Moçambique, onde permaneceu até à desmobilização, em 1970. Logo a seguir, e durante três anos, tirou o curso de História na Universidade de Lourenço Marques. Contudo, vivia profundamente descontente com o ambiente social reinante na colónia. Era-lhe penoso confrontar-se diariamente com a discriminação que atingia a comunidade negra. Carlos Pacheco decidiu então partir com a família para o Brasil. Também não queria graduar-se «por uma universidade fascista».

Instalou-se em São Paulo e retomou o curso de História na maior universidade do país, a USP. Aí, entre os estudos curriculares e a investigação histórica que foi desenvolvendo sob o patrocínio de instituições de apoio à pesquisa no domínio da História do Brasil, foi apanhado, em 1974, pela notícia da revolução dos cravos em Portugal. Durante algum tempo, e em plena ditadura militar brasileira, deu conferências na própria universidade sobre a jovem democracia portuguesa e as possíveis implicações do 25 de Abril nas colónias africanas. A par disso, deu aulas e liderou um processo de salvaguarda dos direitos dos estudantes estrangeiros e brasileiros dentro da USP. Mas as suas intervenções e depoimentos nas maiores cadeias de televisão valeram-lhe a interdição de entrar no perímetro da cidade universitária.

«Em finais de 1974 comecei a ser chamado ao DOPS, a polícia secreta brasileira. E se a PIDE era terrífica, do DOPS é melhor nem falar. Um dia o professor Eurípedes Simões de Paula, então director da Faculdade de Letras e Ciências Humanas, avisou-me do perigo que corria: 'Vá-se embora, porque qualquer dia matam-no.' Eu já tinha percebido, pelos interrogatórios e perseguições do DOPS, que eles estavam decididos a ir mais longe.»

Em Março de 1975, Carlos Pacheco regressou à cidade onde nasceu, entregando-se de alma e coração à revolução angolana.

«Quando aterrei em Angola envolvi-me imediatamente com o MPLA, com o qual me identifiquei desde sempre, por razões históricas e pelo meu percurso de vida. No liceu, tinha estudado com uma boa parte dos homens que depois integraram a constelação do poder em Angola. Toda a gente me conhecia, fiquei militante, voltei a ser professor. Depois, surgiu o momento em que pessoas próximas do Palácio Presidencial me convidaram para trabalhar com o presidente. 'Precisamos de ti!', disseram-me. E assim entrei no Palácio, em Julho de 1975.»

«Fiquei a trabalhar directamente com o Agostinho Neto, até Março ou Abril de 1976. Respondia sempre ao presidente. Às vezes, ele telefonava-me para casa e chamava-me ao palácio. Até tive um cartão para aceder às áreas mais sensíveis. Só nunca fui a prisões. Foram vários meses de trabalho desgastantes, toldados por confabulações e intrigas criadas à minha volta, por pessoas do círculo do presidente, que viam com maus olhos o que eu e outros tentávamos fazer no cumprimento das ordens de Agostinho Neto.»

«O Agostinho Neto pediu-nos — a mim, ao João Almeida e ao Rui Coelho — que arranjássemos percutores para as armas que os portugueses abandonaram em Angola. Havia milhares e milhares de armas ligeiras G3, sem essa peça. A nossa função, através de contactos em Portugal — ou seja, junto de homens ligados ao Otelo Saraiva de Carvalho e a militares do 25 de Abril de 1974 -, era arranjar maneira de levar percutores para Angola. Nada conseguimos, verdade seja dita, porque houve uma grande intriga à volta de nós. Inclusive aqui em Portugal, na Casa de Angola, cujo grupo dominante era um satélite dos interesses de Iko Carreira. Por fim, o Agostinho Neto acusou-nos de incompetência.»

«As coisas extravasaram e tomaram aspectos violentos quando fui preso e interrogado no Ministério da Defesa, em Luanda, acusado de ter ideias fraccionistas. A preocupação do grupo que me interrogou, no qual se incluía Pepetela, era saber o que andara a fazer junto do presidente.»

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(Pepetela)

«E porquê? Isto serve também para se perceber o 27 de Maio de 1977, no qual se fez a depuração dos chamados comunistas. Naquela altura, eu era marxista-leninista, identificava-me com os ideais de Moscovo. E as pessoas que trabalhavam junto do Neto eram todas do mesmo talhe político-ideológico. Por isso é que viemos a sofrer represálias. Estive muito próximo de Rui Coelho, que era o braço-direito e director do gabinete do Nito Alves, na Administração Interna. Ele era politicamente mais preparado do que qualquer um de nós. Tinha militado em Portugal na União dos Estudantes Comunistas (UEC). Dizia que tínhamos de construir um país diferente, em liberdade. Confesso que nesse tempo não conhecíamos a verdadeira natureza do nosso pensamento político. Percebemos, por tudo quanto testemunhámos — as torturas, os espancamentos e as mortes -, como o MPLA de Agostinho Neto era uma organização criminal, de pendor protofascista! Nos dois anos e meio de reclusão, tivemos tempo para ponderar e discutir estas coisas.»

Pergunto ao historiador se, tendo estado tão perto do presidente Neto, tinha tido conhecimento ou ouvira mencionar que, em 1975, o MPLA utilizava prisões, clandestinas para aprisionar civis e militares, portugueses e angolanos. «Não sabia, mesmo considerando o facto de estar próximo de Agostinho Neto e de trabalhar também em estreita ligação com o aparelho de segurança do Estado (DISA). Mais precisamente com o seu subdirector, Veríssimo da Costa (N'Zagi), de quem volta e meia recebia orientações. Digamos que a minha posição se parecia um tanto, guardando naturalmente as devidas proporções, com a de Liev Demidov, personagem literária de Tom Rob Smith no romance Criança 44. Não obstante ser um funcionário do KGB, Liev, que se ocupava das investigações, nada sabia do que se passava nos porões da Lubianka e dos presídios em geral, onde os detidos eram interrogados, maltratados e acusados de espionagem e agitação anti-soviética.»

«Mas hoje, olhando para o passado, a minha perspectiva das coisas é diferente. O que posso dizer é que presenciei o oportunismo de alguns empresários portugueses, mas só vim a perceber o significado de tais comportamentos mais tarde. Na altura, não dei crédito a algumas denúncias que chegaram ao meu conhecimento. Alguns desses portugueses queriam ter o terreno livre para as suas negociatas, mas para tanto precisavam que os rivais desaparecessem: ou fossem presos, ou repatriados. Isto aconteceu no meio daquele caos, em que o aparelho de justiça não funcionava. Só a delação. Assim, muitos portugueses fizeram mal a outros portugueses. Alguns continuam em Angola. A traição, a ignomínia e as acusações foram moeda corrente, pois havia ambiente para isso. Tais portugueses, à força de se proclamarem adeptos do MPLA, estavam seguros de poder usar da perfídia para com os seus compatriotas e delatá-los à polícia de segurança de Estado, a DISA. Dou um exemplo: houve comerciantes que, sabendo da minha ligação ao Palácio Presidencial, me procuraram várias vezes, na minha residência, ou em casa de amigos, para tentarem convencer-me de que fulano e beltrano, todos portugueses, deviam ser detidos.»

«Por outro lado, naquele tempo eu e outros incorremos em atitudes infantis nos nossos arroubos de militância 'eme-pê-elista'. O nosso amor pelo MPLA traduzia-se numa paixão inconsciente. Não conhecíamos a organização. Mas hoje, conhecendo-a em profundidade, tudo se torna claro: o que aconteceu em 1975, 1976 e 1977 não foi senão o corolário de um processo histórico que remonta ao tempo da luta armada. Não nos esqueçamos de que em 1972, numa Assembleia Geral Extraordinária da l .ª e 2.a Regiões realizada em Dolisie, perto de Brazzaville, onde o MPLA tinha o seu quartel-general e os respectivos centros de preparação militar — e onde, por sinal, se eliminaram vários militantes à bala —, os delegados decidiram por maioria que o Comité Director não devia permitir que os brancos tivessem acesso aos documentos da organização. Isto diz tudo. Já então, um largo sector do MPLA estava imbuído de um messianismo racial que nada tinha a ver com um projecto de verdadeira libertação nacional.»

Peço ao historiador para me contar como era, então, o círculo restrito do presidente. Agostinho Neto saberia das prisões, dos raptos, dos desaparecimentos, dos fuzilamentos? «Estava inteirado de tudo. Tinha mil olhos. Havia pessoas, é certo, que lhe cerceavam informações, como de resto acontece a todos os presidentes, mas ele sabia perfeitamente o que se passava à sua volta. Por estar à cabeça de um regime ditatorial, amparado num corpo policial repressivo que espiava e devassava a vida dos cidadãos, nada lhe escapava. Ele, por natureza, era um homem desconfiadíssimo, sabia manipular muito bem as pessoas, impondo-se mais pelo medo do que pelo respeito.

Além disso, tinha uma característica que me perturbava: não respondia às perguntas ou às dúvidas que lhe colocavam. Em várias ocasiões sucedeu-me perguntar-lhe: 'Camarada presidente, quais são as suas directivas?' Jamais lhe ouvi dizer: 'Façam isto, façam aqueloutro.' Éramos nós que tínhamos de encontrar as soluções, agindo por conta própria. Ele dificilmente fornecia orientações. Ficava ao nosso critério descobrir as melhores vias para sermos bem sucedidos. Isto foi sempre assim em toda a história do MPLA. Quando alguém tinha êxito nas tarefas partidárias, a direcção abençoava. Caso contrário, o militante passava pelos piores vexames. Podia até ser castigado. Ficava entregue a si próprio, o que era o pior drama para qualquer pessoa no MPLA com altas responsabilidades. Actualmente, ao analisar milhares e milhares de documentos e testemunhos para o livro que estou a preparar, percebo melhor o fundo de tantos antagonismos que sacudiram o MPLA e o colocaram, em 1974, quase à beira da desintegração. O MPLA foi sempre uma ilha de monólogos, nada se resolvia pelo diálogo franco e aberto, e sim pela força. Muitos militantes foram fuzilados por ordem de Agostinho Neto.»

Carlos Pacheco foi libertado em Agosto de 1979 da prisão de São Paulo, em Luanda, onde se aglomeravam «políticos, intelectuais, médicos, engenheiros, enfim, a elite». Ainda assistiu, no segundo semestre de 1978, à célebre visita à prisão do ministro moçambicano do Interior, Jacinto Veloso, que foi completamente ludibriado pelo MPLA, ao ser convencido presencialmente de que aquela cadeia estava vazia. Lá dentro, centenas de presos ameaçados não puderam emitir qualquer som, qualquer ruído que sinalizasse presença humana.

O historiador recorda. «Uma noite, o tenente Miranda percorreu as celas, e disse: 'Amanhã não podem ter nada de fora, a partir das primeiras horas da manhã.' Nós não tínhamos janelas, púnhamos a roupa a secar nuns fios amarrados às gretas que davam para o exterior. 'Retirar fios e tudo. O café vai ser servido muito cedo, e durante toda a manhã não pode ouvir--se nada nas celas, senão vocês vão passar o pior.' Ficámos intrigados. Ele não nos disse que ia haver uma visita. No dia seguinte, e apesar das ameaças, alguns atreveram-se a espreitar e depois contaram.»

«Os Mercedes entraram na prisão, pararam no pátio, para deixar sair o director da DISA, o comandante João Rodrigues Lopes 'Ludy', que se fazia acompanhar pelo ministro moçambicano. Olhavam, apontavam para baixo e para cima, convencendo o ministro Jacinto Veloso de que estava perante uma penitenciária desactivada: 'Não, aqui já não está ninguém, nós já libertámos toda agente. O camarada presidente decretou a amnistia e toda a gente foi mandada para casa." Justamente quando aquela prisão abarrotava de gente. No interior do cenário montado, estavam centenas de pessoas em silêncio. Foi impressionante. O ministro não entrou na zona das celas. Se pedisse, não lho permitiriam. Mais tarde, soube através do Luís Cabaço, da Frelimo, que conheci no Rio de Janeiro, que o ministro moçambicano fora enviado pelo bureau político da Frelimo, para saber se eram verdadeiras as notícias que corriam mundo sobre as prisões e as matanças em Angola após o 27 de Maio de 1977, porque a situação estava a causar mal-estar em Moçambique. Como aliado e, sobretudo, como país irmão de Angola na luta de libertação nacional, Moçambique — que prezava apresentar--se internacionalmente como Estado progressista - jamais poderia aprovar actos de violação brutal dos direitos humanos. Apoiar Angola, ainda que pelo silêncio, poderia deste modo comprometer tal imagem.»