TU TAMBÉM MORRERÁS, FIDEL


Rafael del Pino

Julho de 2005.

Por: General Rafael del Pino.

Castro não é só o dono dos cubanos vivos. É também o dono dos mortos e faz com eles ou com a sua recordação o que lhe dá na vontade. Exalta-os e exibe-os ou esconde-os, denigre e humilha: como quiser. Por isso o general Ochoa não tem sepultura, por isso o coronel Tony de la Guardia e o resto dos seus companheiros fuzilados não tem sepultura. Por isso do jazigo do general Abrantes, ex-ministro do Interior, foram retiradas e confiscadas as suas fotografias. Por isso aos familiares dos homens que o regime executa coloca-se-lhe uma etiqueta branca com instruções que não podem levar flores nem colocar nomes nas sepulturas. Por isso as turbas fascistas atacam e agridem os familiares dos assassinados no massacre do rebocador 13 de Março, ocorrido em 13 de Julho de 1994, quando vão a lançar flores ao mar em recordação dos seus seres queridos. Esses mortos são muito perigosos. O regime encarregou-se de que não tivessem sepultura, que os mar os engolisse, mas as flores são uma arma de guerra do inimigo interno e há que castigá-los por render tributo aos mortos. Há que humilhar os que ficaram vivos e se atreveram a desafiar o governo.


Fidel Castro (foto Net)

Eu não tinha chegado a compreender em toda a sua magnitude este aberrante procedimento repressivo até que pude comprovar no passado 11 de Julho na própria carne que efectivamente, o castigo aos mortos é já parte inseparável do extenso manual de repressão da tirania Castrista. Nesse dia faleceu a minha mãe na cidade de Pinar del Rio. Teve que se sepultada numa tumba alheia. O jazigo da minha família tinha sido confiscado e os restos dos meus avós, meus pais e outros familiares queridos tinham sido lançados numa lixeira. De algum modo o Comandante em Chefe tinha que encontrar a forma de ajustar contas com o seu subordinado rebelde. "Matar os mortos de este desgraçado para que se recorde até onde pode chegar a minha mão justiceira".

São curiosas as recordações que me vem à mente nesta hora amarga. Quando faleceu Lina Ruz, a mãe de Fidel Castro, eu era chefe da Defesa Aérea na região oriental de Cuba e a maioria dos familiares de Dona Lina, incluindo Fidel e Raul, chegaram pela Base aérea de Holguín para assistir ao seu funeral. Na dita base debaixo do meu comando, tive que recebe-los na escada dos seus respectivos aviões executivos, os Ilushin-14 CUT- 824 e CUT - 825. Já desde esse tempo ambos os líderes tinham decidido viajar sempre separados, temendo que um atentado decapita-se por completo o regime que tinham implantado. O chefe do Exército Oriental naquela época, o comandante Reineiro Jiménez, pediu aos chefes das principais unidades para que assistíssemos também ao funeral para oferecer as nossas condolências. Por uma dessas casualidades da vida encontrei-me próximo do Raul e chegaram-me as lágrimas. O comandante em Chefe não podia não podia dar cabimento às reacções emocionais que experimentam os seres humanos comuns e correntes, assim que, sem medir as suas palavras nem considerar a presença dos que estávamos à sua volta, fustigou de imediato e sem piedade: "Raul, porque choras por essa..."? Os meus dedos resistem a escrever reproduzindo semelhante frase.

Em que podia afectar uma Revolução ou a autoridade dos seus dirigentes exteriorizar os sentimentos humanos num momento como esse? Marcar a imagem do tipo duro? Ou é que este senhor pensa que o sofrimento e as lágrimas são exclusivas do sexo feminino na nossa espécie. Aquele episódio ficou-me gravado por muito tempo. Quando ocorreu, pensei que naqueles momentos difíceis do processo cubano o seu máximo dirigente teria que forjar o espírito dos directores de defendê-lo. No entanto o tempo, esses juiz severo, encarregou-se de demonstrar outra coisa mais complexa e perversa. Quando a mãe de Fidel Castro morreu, como disse, o azar colocou-me numa situação de render-lhe homenagem, algo que não lamenta nenhuma pessoa honrada. Quando morreu a minha Castro encarregou-se de vexar os seus restos mortais, e de passagem, a minha família descobriu que tinha mandado fazer o mesmo com os meus antepassados.

Algum dia eu ou os meus filhos poderemos dar-lhe uma sepultura e o último adeus. Algum dia Fidel Castro também morrerá e, pela sua infinita vilania, os cubanos maldirão o seu nome eternamente.

Tradução livre.

http://www.cubafar.com/newsHome/news/news_item.asp?NewsID=49