Jornal d’África, Agosto 2006

Os dias de uma professora na Gabela, em Angola

As terras onde se cala a dor

Crianças semi-nuas a brincar nas lixeiras, que se reproduzem pela cidade e se confundem com os mercados e com os bairros. É esta a Gabela, cidade Angolana, quase igual à capital.


Qualquer canto serve para os miúdos da Gabela aprenderem
(foto jornal)

Denise Cadete | texto e foto

Gabela é uma terra envolta em montes e cacimbo, onde iríamos trabalhar, sendo eu professora de Filosofia e a Luísa Rodrigues a leccionar o 1º ciclo, no pré-universitário, a par da formação a crianças e professores. Avisam-nos para ter cuidado, com as minas, com os assédios, com os subornos e, sobretudo, com o que se; diz e o que se escreve. Estamos a sair de Luanda.

Deixando a paisagem de mar e embondeiros para trás, surge uma vegetação de árvores que se atropelem ao longo das montanhas que escalamos de jipe. Conhecida pela cultura do café, agora abandonada, a Gabela, situada no Cuanza Sul, é «ma cidade onde a guerra se denota mais pelo isolamento do que pela destruição, É. absurdamente rica e absurdamente desaproveitada. Durante a guerra; era muitas vezes a grande abastecedora de Luanda. Actualmente, a Gabela está muito aquém de ver garantidos os direitos proclamados na carta da ONU. Todos os dias se ouvem gritos de mulheres, um choro de pietá que vê o filho morrer, impotente para o socorrer. A primeira vez a que assistimos, vimos as mulheres a correr, uma tinha um embrulho nos braços, erra a criança que partiu sem ter adquirido sabedoria para ser respeitada no outro mundo. Morando nós perto do hospital, tornou-se comum escutar o choro da morte, um hábito que nunca devia de o ser.

Ensinar segundo a tábua rasa

Leccionamos na escola pré-universitária do Amboim, em turmas com aproximadamente 50 alunos, sem quaisquer manuais, tendo de escrever a matéria quase na íntegra, no quadro. Também temos aulas à noite, para os trabalhadores: enfermeiros, professores, vendedores. O grande obstáculo é a deficiente formação de base, devido à guerra mas essencialmente pelo baixo grau de formação dos professores do 1° ciclo, os quais necessitam apenas da quarta classe e de seis meses de pedagogia. Naturalmente, toda a construção do raciocínio, do entendimento e da escrita será debilitada. Nas minhas aulas de Inglês, ao 10° ano, utilizo a matéria do 5° ano; ensinar tudo desde o começo é o único método possível.

Na fachada da escola sobressaem os rostos de Marx e Lenine, por todo o lado, as pessoas vestem-se com a imagem de Che Guevara, sem saberem quem é. Há escadas para rapazes e outras para raparigas, não há vidros, nem casas-de-banho, mas há cadeiras, secretárias e quadro, uma raridade no ensino público angolano. Além de trabalharem durante o dia, têm dificuldade em estudar, uma vez que não têm livros e vivem numa casa de barro sem mobília, com uma só divisão para a numerosa família. Para minimizar esse problema, além da biblioteca do centro social e paroquial, há uma sala de estudo, onde também auxiliamos com explicações. Os que têm mais anos de estudo, por norma, vão para as grandes cidades, às quais todos aspiram, Luanda, Benguela e Lubango. Buscam um conceito de civilização e modernidade que pensam haver nas capitais das três províncias; talvez se sintam isolados pelas montanhas ou amaldiçoados pela casa de espíritos onde ninguém entra, à entrada da Gabela.

Saúde e sistema cultural

Nas aulas de Biologia, a Luísa ensina o funcionamento do sistema reprodutor, indo mais além das ciências exactas, para falar do planeamento familiar. Surge a afirmação pronta de um aluno: «O planeamento familiar só traz desvantagens!» Além do sistema cultural "obrigar" as mulheres a terem desde cedo muitos filhos, há ainda o problema da mão-de-obra infantil, sendo os filhos úteis para o trabalho no campo. Aproveitando és comentários dos alunos mais esclarecidos e gerando um debate na aula, a Luísa fá-los alargar a sua concepção de paternidade, que deve englobar a alimentação, a educação, cuidados de saúde, o que, para a maioria, não faz parte do papel do pai ou da mãe. Surge ainda a questão do aborto, que é aqui um hábito bem mais comum do que os métodos contraceptivos, sendo muitas vezes mortal.

Um parto medicamente assistido consiste em deitar a mulher na maca, retirar o bebé sem luvas, escorrer os líquidos para uma gaveta e colocar na parturiente um pano que ela mesma traz. A mulher veste-se sozinha e levantasse, levando, o bebé. isto sem utensílios, medicamentos ou água potável e, caso seja à noite, à luz da vela. Os medicamentos só aparecem se for apresentado dinheiro, oficialmente nunca há nada. Grande parte dos produtos farmacológicos usados é doação da cooperação portuguesa. Aqui, qualquer doença ou infecção simples pode degenerar até à morte, por escassez de recursos humanos formados, de meios, de medicamentos. Os níveis de mortalidade devem-se bastante à má nutrição, à ausência de saneamento e condições básicas de higiene e às abundantes lixeiras, havendo mesmo uma em frente ao hospital. A praça está cercada de vários montes de lixo, nos quais comem as cabras e galinhas, as quais andam à solta e onde até as crianças e bebés buscam utensílios ou restos de comida. É difícil perceber onde começa ou acaba uma lixeira, nesta cidade.

A condenação de auto-suficiência

Dizem os da Gabela que a actual busca de identidade nacional e auto-afirmação os coloca num período mais difícil do que os últimos tempos da guerra. As massas inflamam-se de um orgulho de teor nacionalista, têm um olhar agressivo e vazio de fundamento, de segregação tribal, a par de um distanciamento das tradições nativas. Importam a cultura brasileira e alguma coisa do modelo americano, adequando-os ao estilo angolano, perdendo os valores da sua cultura de raiz, da sabedoria dos mais velhos, assim que procuram a cidade. As pessoas só gritam quando alguém lhes morre, não antes, não quando podem evitar, enquanto escrevo isto ouço lá fora os berros e a cantilena em umbundo, foi algum filho pequeno que perderam sem razão e sem

A Gabela, com o potencial da sua localização, da antiga cultura do café, do clima ameno, da terra fértil, da natureza, é agora uma cidade onde os acessos são buracos com pedaços de estrada, onde uma das lixeira se situa frente ao hospital, onde a electricidade só é cedida quando o rei faz anos (quase literalmente), onde não há rede nem linha telefónica permanente, onde os correios funcionam à base da sorte, onde as casas de cimento, actualmente degradadas, não têm saneamento básico, tudo isto rodeado casas de barro que se estendem até aos montes de pedra.|