14 de junho de 2014

General Silva Cardoso (1928-2014)

Nasceu para a vida militar na Armada mas depois foi para a Força Aérea. Em 1975, representou Portugal no início da transição angolana para a independência. Um tempo amargo que contou em livro


Silva Cardoso (esq) empossando o Governo de Transição de Angola (janeiro de 1975)

Representando Portugal, viu nascer a guerra civil em Angola

O general António de Silva Cardoso, antigo alto-comissário de Portugal em Angola em 1975, morreu ontem em Lisboa, aos 86 anos, vítima de doença prolongada, disse à Lusa o seu neto.
Silva Cardoso ingressou nas Forças Armadas pela Marinha e depois transitou para a Força Aérea, ramo ao qual chegou por via da aviação naval. Entre janeiro e agosto de 1975, foi alto-comissário em Angola. Foi também adido militar na Alemanha, comandante-chefe da Força Aérea nos Açores e presidente do Supremo Tribunal Militar. Escreveu dois livros: Angola, Anatomia de Uma Tragédia e 25deAbríl:A Revolução da Perfídia.

Como alto-comissário em Angola em janeiro de 1975 deu posse ao Governo de Transição, que incluía representantes de Portugal e dos movimentos nacionalistas (MPLA, Unita e FNLA) e cuja criação resultou dos chamados "acordos do Alvor". Esse Governo rapidamente paralisou, e os acordos começaram a ser sistemática mente violados. Os movimentos nacionalistas entraram em guerra entre si, com o conflito instalado dentro da capital angolana Em 30 de julho de 1975, o general Silva Cardoso demitiu-se de alto-comissário, sendo substituído pelo almirante Leonel Cardoso. A guerra civil internacionalizou-se, com a intervenção de tropas de países vizinhos (Zaire e África do Sul) e de Cuba ao serviços dos três intervenientes angolanos.

Silva Cardoso nunca escondeu a amargura com que viu desenvolver-se a guerra civil em Angola, responsabilizando essencialmente a classe política. Em Angola: Anatomia de Uma Tragédia, escreveu: "Naquilo que me diz respeito, afirmo que a descolonização, tal como se cumpriu, será considerada como o episódio mais catastrófico, mais desprezível e mais estúpido de toda a história de Portugal."

Com honras militares, foi enterrado ontem à tarde na Pedreira, Tomar, onde nasceu em 3 de fevereiro de 1928. JPH.