Jaime Van Dúnem Carrascalão

                          A GOVERNAÇÃO DE LUANDA

Luanda - O mundo desportivo tem nos surpreendido às vezes com decisões pragmáticas que transportando para a realidade objectiva tem o seu "quê" de aplicável e significância.

Nas modalidades colectivas, quando táctica, e tecnicamente alguns sectores chaves do conjunto não funcionam, cabe ao treinador tomar as devidas decisões, que passam necessariamente pela mudança táctica e estratégica das peças do xadrez, na introdução de novos jogadores e por vezes na correcção deste ou daquele erro técnico, táctico, de marcação ou de atitude perante o jogo. Porém acontece que depois de várias mudanças tácticas, técnicas, estratégicas e de valores individuais, a equipa continuar a não carburar, normalmente rola a cabeça do treinador.

Nasci e cresci nesta urbe e acostumei-me, à falta de água canalizada, à falta de luz, em ter grandes charcos de água sempre que chove provocando a cólera, assisti a vários óbitos ocasionados pelo paludismo que por sua vez derivam do lixo nauseabundo que nos fustiga diariamente e a minha ingenuidade e incompetência em perceber as coisas, tal como os órgãos de informação a que me habituei, ensinaram-me que a principal razão para todos esses males que nos apoquentam era o defunto presidente do maior partido da oposição.

Passados alguns anos desde a sua morte, os problemas persistem, oh mais do que isso, pioraram!!! Acordo à noite a suar por causa do calor, porque não posso ligar a ventoinha, muito menos o ar condicionado. Saio de casa para ir trabalhar sem banhar-me, porque nunca tenho água, pago seis a oito "azuis-brancos" por dia para o trabalho, porque o sistema de transporte público já não existe e isso desequilibra as contas domésticas por causa do parco salário que aufiro, o lixo amontoa-se mesmo em frente a minha casa, porque os serviços de recolha pertencem à filha do "maioral", provocando-nos doenças curáveis mas que desconseguimos por não existir um sistema digno de saúde público, que a taxa de infecção HIV está a aumentar e as autoridades ocultam, o caos em que se transformou o trânsito em Luanda provoca-nos trombose, olho para a televisão e só vejo elogios ao trabalho do governo, que o nosso PIB per capita cresceu, que há projectos de tal milhões de dólares, que houve uma descoberta petrolífera no bloco X, que o ministro fulano assumiu a pasta, e a minha vida continua na mesma.

Olho para os meus botões e não vejo políticas palpáveis, vejo chineses a trabalhar e os angolanos a vaguearem, vejo algumas obras a fluírem e duvido das suas qualidades, visito algumas instituições estatais chaves e descortino inexplicáveis graus de parentesco nas hierarquias, olho para algumas obras e serviços de interesse público e deparo-me com insuportáveis conflitos de interesse, olho para os nossos governantes - muitos tecnicamente excelentes mas com questionáveis condutas pessoais - e não entendo onde estou. Estarei frustrado?

Diz-se por ai à boca cheia que provavelmente haverá mudanças na estrutura do GPL, lembro-me dos governadores que por lá passaram, como se fossem os meus botões, uns mais gordos, outros mais bonitos, uns inteligentes, outros mais estrategas, uns tecnicamente refinados, e alguns provavelmente competentes, mas não se nota o toque deles, porque provavelmente o problema não são eles.

O treinador principal de toda a governação angolana, a quem todos consideram o verdadeiro pai da nação, o principal mentor e garante da paz e estabilidade nacional, o maior milionário do país, o presidente, chefe de estado, comandante em chefe das forças armadas, e o chefe coordenador de muitas comissões que se criam no país deve realmente ponderar, se a equipa não carbura porque estrategicamente está mal montada, tecnicamente é deficiente, se o plano de jogo não está a funcionar ou se deve haver uma chicotada psicológica.

É impressionante como é que nós angolanos, principalmente os chamados intelectuais que formam o governo de unidade e reconciliação nacional, e que em alguns sectores, criticam a própria governação de que eles fazem parte, não conseguiram ainda descortinar que depois de tantas mudanças a nível governamental em todos os sectores, a letargia, a ineficiência, a impunição, a intransparência a violação total de todas as regras intelectuais, cientificas, da ética e dos valores sagrados aprendidas em prestigiadas universidades e de referência mundial continuam a persistir e a serem violadas e ninguém se demite? Os verdadeiros "doutores" nunca se sujeitariam a isso! Os doutores têm princípios, defendem doutrinas, uma conduta pessoal irrepreensível e normalmente têm uma mente incorruptível.

Meu Deus, tanta gente nesta terra e nenhum "leader" novo emerge? A "inexistente" oposição que temos não tira partido do descontentamento popular? Como pode uma grande nação estar a mercê dum só homem? A cobardia tomou conta de nós e faz-nos andar quilómetros a pé debaixo do sol, madrugar nas estradas para trabalhar, obrigar-nos a roubar e matar por falta de pão e a ter uma qualidade de vida inqualificável? E depois gabam-se de que o PIB/capita é 2500 dólares americanos?

Por mais dança de cadeiras que haja, por mais comissões que se criem, por mais promessas que se façam, não tenho dúvidas nenhumas em afirmar peremptoriamente de que o problema de Luanda não são os governadores nem a Comissão de Gestão que por lá "sentaram". O grande problema de Luanda e de Angola em termos gerais, é o "treinador principal", que precisa urgentemente de uma chicotada psicológica, por claramente mostrar sinais de desgaste motivacional, falta de critérios de nomeação, falta de democracia e pior do que tudo, incompetência! A sua equipa já não marca golos à muito tempo, e quem não marca… não vence! Demita-se!

Fonte: Club-k.Net