Mário Soares



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Bruno Oliveira Santos.: Em 1968, foi nomeado para acompanhar Mário Soares na viagem para o exílio.

P122 - Abílio Pires.: O Mário Soares foi deportado para São Tomé por deliberação do Conselho de Ministros. Fui nomeado no próprio dia para o acompanhar. Creio que me nomearam porque eu já tinha feito dois ou três processos ao Mário Soares. Dava-me muito bem com ele! Se ele me visse no Chiado, atravessava a rua para me cumprimentar! Como deve calcular, fui um bocado contrariado porque não gostava de levar ninguém para fora do seu país.

B.O.S.: Soares escreveu no Portugal Amordaçado que a imagem que tem de si é a do pide bom!

A.P.: Ora aí está! Dei-me sempre bem com ele! Eu utilizava sempre o mesmo método nos interrogatórios: eu ditava a pergunta e ele ditava a resposta. O meu escrivão, Furtado Marques, ia escrevendo. Lembro-me de que, confrontado com certas perguntas, o Soares dizia que tinha de pensar. Às vezes eu deixava-o a pensar e ia tomar café à Brasileira. Quando regressava, ele ainda estava a pensar!

B.O.S.: Ele foi deportado por causa da história dos ballets rose.

A.P.: Essa história foi apenas a gota de água que fez transbordar o copo. Naquela altura, estava toda a gente farta das patetices do Mário Soares. Inclusivamente, ele fazia campanha contra a NATO. Depois, foi Presidente da República e, por inerência, Comandante Supremo das Forças Armadas! Ele que, como funcionário do PCP, distribuíra panfletos contra a NATO às portas dos quartéis! Como é que um homem com este curriculum pode ser Comandante Supremo das Forças Armadas de um país da NATO?

B.O.S.: Como é que correu a viagem?

A.P.: Saímos de Lisboa ao princípio da noite. Caía uma chuva miudinha. Faríamos escala em Luanda. O Soares, coitado, fora apanhado de surpresa com a deportação e ia atrapalhado, falava-me na família... Sobretudo falou--me do filho, dizendo que estava preocupado porque ele revelava algumas tendências marxistas-leninistas... Às tantas, faz-me uma proposta: queria assinar um documento comprometendo-se a abandonar toda a actividade política para poder regressar à metrópole. Eu disse-lhe que não podia fazer nada — a decisão não era minha, era do Conselho de Ministros. Mas garanti-Ihe que, logo que voltasse a Lisboa, falaria com o governo. Prometi-lhe ainda que, se o governo aceitasse a proposta, eu próprio iria buscá-lo a São Tomé.

Estive uma manhã inteira no gabinete do dr. Silva Cunha, ministro do Ultramar. Não consegui convencê-lo. O Silva Cunha dizia que, logo que regressasse, o Soares iria envolver-se novamente em actividades políticas.

Foi uma grande asneira. Hoje, o Soares não seria ninguém. Nunca mais se livrava da acusação de ter negociado o seu regresso com a PIDE.

Quando fizemos escala em Luanda, fomos dar uma volta pela cidade. Como só havia avião para São Tomé três ou quatro horas depois, dei ao Soares a oportunidade de conhecer a África Portuguesa. Ele não queria! Chegou a dizer-me para o meter num calabouço e ir à minha vida, mas eu levei-o comigo. Fomos num Volkswagen. Recordo-me perfeitamente porque foi o carro que eu passei a usar sempre que me deslocava a Luanda. Sabe porquê? A matrícula era AAP — as iniciais do meu nome! Posso dizer-lhe que o Mário Soares ficou deslumbrado! Percorremos a belíssima Baía de Luanda. Tomámos café numa esplanada. O Soares ficou encantado quando viu que serviam a cerveja com um prato de camarões, como se fossem tremoços! Tão deslumbrado ele ficou que, no regresso ao aeroporto, disse-me: Eu sou um europeu, não conhecia nada de África. Confesso-lhe que pensava encontrar toda a gente de chapéu colonial e pistolões à cintura! Afinal, Luanda é uma cidade como Lisboa, talvez ainda mais calma e mais linda! Decididamente, tenho de rever a minha política em relação a África!

Quando chegámos a São Tomé, estava lá um antigo aluno do Colégio Moderno à espera dele. O Soares insistiu comigo para ficar mais dois ou três dias até ele se instalar. Mas eu não podia ficar. Pediu-me então para eu ir a casa dele, em Lisboa, dizer à família que chegara bem. Eu respondi-lhe que a casa dele não ia, mas prometi-lhe que telefonava à família. Assim fiz. Quando cheguei a Lisboa, telefonei para casa dele e falei com a mulher.

B.O.S.: Depois disso, voltou a vê-lo?

A.P.: Via-o muitas vezes no Chiado. Antes e depois de o ter acompanhado a São Tomé, ele cumprimentou-me sempre muito bem.

B.O.S.: E depois do 25 de Abril?

A.P.: Nunca mais o vi. Quando foi Presidente da República, fez uma presidência aberta em Bragança e, como sabia que eu resido em Castro de Avelãs, mandou alguém da comitiva dizer-me que gostava de falar comigo. Eu não fui. Se tivesse ido, não tenha dúvidas de que o Mário Soares me dava um grande abraço. O pior é que estavam lá as televisões todas. Não sou anjinho a esse ponto!