Holden Roberto - dados biográficos

3 de Agosto de 2007, 00:08

Lisboa, 03 Ago (Lusa) - O líder histórico da Frente Nacional de Libertação de Angola (FNLA), Holden Roberto, que morreu quinta-feira, em Luanda, aos 84 anos, foi um dos três dirigentes angolanos subscritores do Acordo do Alvor, que levou Angola à independência.

Álvaro Holden Roberto nasceu a 12 de Janeiro de 1923 em Mbanza Congo, ex - São Salvador, província angolana do Zaire e fez os estudos primários e secundários em Léopoldville (actual Kinshasa, capital da RDCongo), onde viveu de 1925 a 1940, altura em que regressa à terra natal, onde fica pouco mais de um ano.

Durante oito anos foi contabilista na administração colonial belga e jogou futebol com alguns futuros políticos congoleses.

Conta-se que a opção pela política resultou de um caso de brutalidade que Holden Roberto presenciou durante uma visita a Angola, entre um chefe branco e um velho negro, mas a escolha resultou também dos contactos que manteve nos anos 50 com um circulo de "evoluídos" congoleses e figuras como Patrice Lumumba.

Em 1956, lançou-se na luta de libertação nacional, dois anos depois da criação da União dos Povos do Norte de Angola (UPNA), mais tarde designada UPA.

Foi já como representante da UPA que levou, em 1958, à primeira Conferência dos Povos Africanos, realizada no Gana, a questão do trabalho forçado em Angola.

Dois anos mais tarde, na segunda Conferência dos Povos Africanos, defendeu a independência de Angola, mas recusou-se a aderir ao Movimento Anti-Colonialista (MAC), que juntava Amílcar Cabral, Mário de Andrade e Lúcio Lara.

Além de Lumumba, manteve também contactos com Kenneth Kaunda, Tom Mboya, Franz Fanon, entre outras personalidades da vida política africana.

Também chamado Holden Carson Graham, em homenagem ao missionário que o batizou, o líder histórico da FNLA usou outros nomes como Joy Gilmore, o que, segundo a tradição angolana, levou Salazar, Presidente do Conselho de Portugal durante a derradeira fase do colonialismo, a comentar que "Eles usam vários nomes para parecerem muitos".

Rejeitou a via marxista, mas aderiu à ideia maoista de que "é impossível a revolução sem derramamento de sangue".

Sob a direcção de Holden Roberto, a UPA iniciou, em 1961, a guerrilha no norte de Angola, com o massacre de 15 de Março.

Em 1962 criou a Frente Nacional de Libertação de Angola (FNLA), da qual se tornou presidente. Seria esta organização que viria a constituir, ainda em 1962, o Governo Revolucionário de Angola no Exílio (GRAE), onde Jonas Savimbi surge como ministro dos Negócios Estrangeiros.

Em 10 de Outubro de 1974, Holden Roberto encabeçou a delegação da FNLA nas conversações com o Governo português, em Kinshasa, com vista a pôr fim às hostilidades em Angola, entre a FNLA e o exército português.

O acordo de suspensão das hostilidades foi assinado no iate do Presidente Mobutu Sese Seko, do Zaire, entre Holden Roberto e o general Fontes Pereira de Melo, chefe da Casa Militar do então Presidente da República Portuguesa, general Francisco da Costa Gomes.

Em Janeiro de 1975, Holden Roberto, juntamente com Agostinho Neto (MPLA) e Jonas Savimbi (UNITA) assinaram com o Estado português o Acordo do Alvor, que estipulava o processo e calendário do acesso de Angola à independência, proclamada a 11 de Novembro do mesmo ano.

Depois da independência e com o início da guerra civil em Angola, a FNLA foi derrotada pelas forças do MPLA (Movimento Popular de Libertação de Angola, no poder) e Holden Roberto refugiou-se no Zaire (actual RDCongo), de cujo presidente (Mobutu Sese Seko) era cunhado.

Em 1979, Mobutu assina um acordo com Agostinho Neto, então Presidente de Angola, e Holden Roberto vê limitada a sua actividade, já que passou a ter residência fixa e vigiada.

Expulso de Kinshasa, Holden Roberto procurou asilo político no Senegal e na Costa do Marfim, mas os dois países recusaram-lhe esse estatuto.

Depois de uma passagem pelo Gabão, chegou a Paris, onde obteve em 1980 o estatuto de exilado. Regressou a Luanda a 31 de Agosto de 1991, após a assinatura, Lisboa, a 31 de Maio, do Acordo de Paz de Bicesse.

Nas primeiras e únicas eleições gerais realizadas em Angola (30 de Setembro e 01 de Outubro de 1992), a FNLA elegeu conquistou cinco lugares no parlamento, enquanto Holden Roberto ficou em terceiro lugar, depois de José Eduardo dos Santos, o vencedor da primeira volta, e Jonas Savimbi, o segundo mais votado.

Crises internas na FNLA, chegaram a afastar Holden Roberto da presidência do partido, concedendo-lhe o título de presidente honorário e, mais tarde reconduzindo-o à presidência, primeiro de uma facção e depois do partido, após diversas tentativas de reunificação.

A última reunião do Bureau Político da FNLA, sob a presidência de Holden Roberto, decorreu a 25 de Julho, e propôs ao Comité Central a realização de um congresso extraordinário para debater a sucessão do seu líder.

A data proposta (05-07 de Novembro próximo), deveria ser votada pelo Comité Central da FNLA numa reunião prevista para finais do corrente mês.

Com a morte de Holden Roberto, cuja saúde estava há muito debilitada, a FNLA terá agora mais urgência em eleger novo líder.

NV. Lusa/fim

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Luanda, Angola (PANA) – Os restos mortais do líder histórico da Frente Nacional de Libertação de Angola (FNLA, oposição), Álvaro Holden Roberto, seguiram terça-feira para a cidade de Mbanza Kongo, capital da província nortenha angolana do (Zaire), onde serão enterrados quarta-feira.

Antes, o Presidente da República, José Eduardo dos Santos, rendeu homenagem àquele político angolano de 84 anos, falecido quinta-feira depois de uma prolongada doença.

Pouco depois da sua morte, o chefe de Estado angolano, na sua mensagem, considerou Holden Roberto "um dos pioneiros da luta de libertação nacional, cujo nome incentivou uma geração de angolanos a seguir a via da resistência e do combate pela independência de Angola".

Para o bispo auxiliar de Luanda, dom Anastácio Kahango, Holden Roberto foi um homem que deu o seu melhor para a conquista da independência.

Por seu turno, o bispo da Igreja Metodista Unida de Angola, dom Gaspar Domingos, disse lembrar com alguma saudade Holden Roberto, mas que também "podemos olhar para atrás e ver os seus feitos e empenho para o país".

Holden Roberto, fundador da União dos Povos de Angola (UPA) em 1958, que posteriormente se transformou em Frente Nacional de Libertação de Angola em 1962, depois da sua fusão com o Partido Democrático Angolano (PDA), foi líder de um dos movimento de libertação contra o colonialismo português.