Quinta-feira, 15 de Maio de 1975. A Província de Angola

 

ENCONTRO DE HOLDEN ROBERTO COM A IMPRENSA

"O QUE ME INTERESSA PRIMEIRO DO QUE TUDO É A LIBERDADE DO MEU POVO"


Holden Roberto em 1975

KINSHASA, 14 (via Telex)

(...)

A Uma pergunta sob a eventual influência da sua estadia no estrangeiro, no desencadear dos últimos acontecimentos em Luanda, o Presidente Holden Roberto respondeu:

Não creio que os últimos acontecimentos em Luanda tenham qualquer ligação com o meu afastamento de Kinshasa. Não é a primeira vez que saio e quando dos distúrbios anteriores, encontrava-me em Kinshasa. durante a ausência, a Delegação da FNLA que me acompanhou teve uma certa atrapalhação, porque não tínhamos notícias concretas do que se passava em Luanda. Sabíamos que havia mortos, mas nada mais. Como sabem, a Imprensa internacional, em relação a Angola, dramatiza um pouco as coisas. Coloca os acontecimentos num quadro de lutas entre as tribos e de divergência entre os Movimentos de Libertação e, enfim, para eles, esses acontecimentos são capazes não só de alterar o processo de descolonização, de o complicar, como auguram já para Angola um futuro péssimo.

Creio que os acontecimentos de Angola fazem parte de um plano já elaborado. Já tive oportunidade de dizer, uma vez, em Portugal; durante a cimeira, que o Presidente Agostinho Neto manifestou o desejo de armar as populações. E deu como razão - isto foi, dito em público, aliás que os brancos ultras poderiam tentar qualquer golpe, como aconteceu em Moçambique. Então, a população seria armada para que se pudesse defender contra os brancos.

Eu disse que armar as populações talvez fosse perigoso. Só se arma um soldado depois de se ter formado e educado esse soldado. Armando as populações, poderia acontecer até serem armados dementes, que não pudessem depois ser controlados.

Ele respondeu que não, que seriam militantes dos Partidos a ser armados e que não poderíamos correr risco de deixar esses homens desarmados perante os brancos armados, citando o caso da OPVDCA.

Nesse caso, julgamos a sua proposta séria e aceitamos. Afinal, era para criar, como ele disse, o "Poder Popular" e células de bairro. E foi assim que o MPLA armou as populações. Isto mostra que se tratava de um plano elaborado já há muito tempo.

Ora, eles deveriam ter criado essas células, esse "Poder Popular", durante a luta contra o colonialismo e não depois da luta. Era nessa altura, que deveriam ter armado as população. Agora, estão a armar angolanos para matar angolanos. É triste. Acho que o Povo angolano deveria condenar essa acção.

O sr. Neto armou as populações é há povo que está a morrer. Crianças, mulheres. Não são os filhos do sr. Neto que estão a morrer, são os filhos dos outros, e isso é um crime.

O Povo Angolano deveria compreender isso e condenar os autores desse crime.

Quem armou as populações?

Uma segunda pergunta falou de um plano determinado. Na cimeira com o Governo Português já estaria então esboçado esse plano?

Na opinião da FNLA não sei onde devemos responsabilizar o Governo Português.

Quando dos primeiros acontecimentos, um jornalista francês, que esteve em Angola quis saber do sr. Lúcio Lara qual seria a proveniência das armas. Esse jornalista disse-me que viu o sr. Lara tão preocupado que Ihe deu a impressão de que ele, Lúcio Lara, teria sido ultrapassado pelos acontecimentos. O sr. Lara afirmou-lhe: não somos nós que os armamos. Aceitamo-lo. Foi o sr. Rosa Coutinho quem armou as populações. Hoje, o sr. Rosa Coutinho desempenha um papel importante rio Governo Português. Só queria saber até onde não vai a responsabilidade do Governo Português, ou de alguns dós seus membros, do M.F.A. e, particularmente, do sr. Rosa Coutinho.

A FNLA já deu a sua opinião: não assistiremos a uma cimeira a que esteja associado o Governo Português. Aceitamos um encontro entre os três Movimentos de Libertação e mais nada. Porque a minha impressão é que o Governo Português está por detrás deste jogo.

A entrada de armas em Angola

A questão da entrada de armas em Angola.

Acho que isso são casos a resolver pelo Governo de Transição. Há aviões que aterram em Angola, barcos que desembarcam armas em Angola. Não sei qual é a margem de actuação do Governo de Transição, mas são coisas, que deveriam ser resolvidas por esse Governo.

Tudo isso faz parte de um "complot", porque não creio que o Governo e o Exército portugueses não estejam ao corrente da chegada desses barcos e desses aviões. Acho que o Governo de Transição deveria desempenhar o seu papel para que as armas não pudessem entrar em Angola. Porque quando as armas entram é para matar angolanos. E isso não podemos admitir.

Queremos Paz em Angola. Lutamos durante 14 anos e ficou decidido em Portugal que o processo de descolonização de Angola, se devia fazer em Paz. Foi essa linha de conduta que a FNLA sempre seguiu.

Quando as nossas tropas chegaram a Luanda, foi com essa missão : manter a Paz.

Durante um certo tempo fizeram isso, mas depois houve manobras e provocações. Continuarem a entrar armas em Angola é uma prova de que as provocações vão continuar.

Rosa Coutinho

A opinião sobre Rosa Coutinho?

Conheci o, sr. 'Rosa Coutinho em 1961. Ele foi prisioneiro da F N L A. O sr. Rosa Coutinho, a chorar, a dizer-me que era mandado, que não era responsável, que era militar na Marinha, capitão de fragata ou tenente, não sei. Hoje, depois de ter servido o fascismo, hoje, o sr. Rosa Coutinho diz-se progressista... Para mim, é o agente típico do imperialismo: depois de ter servido o fascismo, diz-se progressista.

Em Portugal, durante o jantar que o Presidente da República Portuguesa ofereceu aos elementos das Delegações dos Movimentos de Libertação, o sr. Rosa Coutinho falou. Realmente, o sr. Rosa Coutinho sabe falar, fala muito... Houve um Ministro que estava ao seu lado e que lhe disse: foste corrido de Angola, não foi? Todos nós ouvimos... E acrescentou: tu não és político, É melhor não falares, porque cada vez que falas, abres a boca e só dizes asneiras.

Defini quem, é o sr. Rosa Coutinho.

A diferença que existe entre o sr. Rosa Coutinho e o general Silva Cardoso, é que apesar da tarefa deste não ter sido fácil, é difícil, conseguiu até agora desempenhar o seu papel. Tem cometido os seus erros. è normal, pois num trabalho destes, os erros não podem ser evitados. Mas reconhecemos uma coisa: até agora tem feito o que lhe é possível.

A questão da eleições

Poderá falar-nos das eleições em Angola? .

Em Mombaça, quando falámos das eleições, o sr. Neto negou-se redondamente. Disse que não queria eleições, porque o Povo angolano estava ainda pouco maduro e era um Povo de carneiros - isto, foi dito em presença de todas as delegações - que o Povo angolano não é um Povo politizado e que amanhã não saberia escolher, podendo acontecer que os militantes da FNLA escolhessem um representante do MPLA, e vice-versa, achando naquela altura que as eleições não eram necessárias.

Insistimos, nós e a Delegação da UNITA - nesse caso, a nossa opinião era a mesma -, em que houvesse eleições. Quando chegámos a Portugal, houve também da parte dos membros da Delegação portuguesa uma manobra, para ver se nós desistíamos das eleições. Porque não havia diferença entre o Povo angolano e o Povo português, porque eram povos não politizados, porque não eram capazes de escolher.

Nós insistimos em que estamos numa Democracia - e o Povo tem de escolher.

Isto, note-se, mostra que já naquela altura havia um plano para sabotar as eleições. Fizemos um calendário. A Lei Eleitoral e à Lei Fundamental deveriam estar prontas no fim do mês de Março - e ainda não estão... e ultimamente, o sr. Neto teve a coragem de dizer que o Governo de Transição foi incapaz de aprontar essas leis em devido tempo!

Por uma lado sabota. Por outro acusa o Governo de não ter sido capaz de fazer as duas leis...Em princípio, o MPLA recusou as eleições e é natural que o MPLA seja o único responsável por este atraso.

Para a FNLA, há duas coisas em que a sua posição é irredutível: em 11 de Novembro, Angola deverá ser independente. Essa data não poderá ser alterada. Para nós, as tropas portuguesas, em Fevereiro de 1976, como ficou estipulado nos Acordos de Alvor, deverão partir de Angola. Consideramos o Acordo de Alvor um tratado internacional e não podemos admitir que esse acordo seja alterado de qualquer forma.

Vamo-nos reunir, os três Movimentos em comum sem a presença do Governo Português, e situar as responsabilidades em que o Povo angolano vai ser associado a esses problemas. O Povo angolano vai agora saber quem é que está a atrasar a independência. Há pessoas que talvez cegamente estão a apoiar certo Movimento. O Povo deve ser esclarecido para ver quem é que está a atrasar a independência. Até agora, ainda não se fez esse trabalho de esclarecimento.

O Povo angolano não pode aceitar que a data da independência seja alterada de qualquer maneira. *

OBS. Devido à grande extensão do texto não o transcrevemos na íntegra mas procurámos transcrever as mais partes importantes e contundentes. Pelo que nos foi possível observar pela leitura do texto verificou-se que o MPLA com a conivência dos membros ultra-esquerdistas do 25 de Abril, como Rosa Coutinho e Melo Antunes que apoiavam o MPLA descaradamente permitiram que os seus militantes e não só se armassem no chamado "Poder Popular"nas costas dos outros partidos dai resultando a guerrilha urbana provocada pelo MLPA nas principais cidades de Angola que mais tarde, devido ao desembarque de material bélico moderno com o consentimento dos ditos "camaradas traidores portugueses" degenerou numa guerra civil que arruinou completamente Angola.