HUMBE

A imponente região do Humbe, dadas as características morfológicas e a Ecologia, presta-se sobremaneira para a pastorícia (pastagens em terrenos salitrosos), vegetação nada exuberante e luxuriante, apenas caracterizada, por ervas halófitas ou não, e plantas arbóreas de pequenas estaturas; assim, pelos factores ecológicos enunciados, a pecuária subsiste esplendidamente num campo e «habitat» tão propícios e fecundativos. É surpreendente observarem-se enormes quantidades de bovinos fazendo as habituais pastagens, mesmo aquando da escassez de ervas comestíveis, fazendo lembrar as famosas pampas da Argentina.

Ladeando os dois sentidos do acesso asfaltado (internacional), a objectiva visual, depara com espectáculos não menos importantes, que constituem, indubitavelmente, complementos essencialmente utilitários e paisagísticos; as denominadas gentilicamente de «Ximpacas», que consistem em gigantescos reservatórios de aterro, improvisada e concomitantemente construídos, aquando das desmatações, terraplanagens, da importante rodovia, que liga Sá da Bandeira à fronteira com o Sudoeste Africano. Tais reservatórios, foram uma consequência voluntária ou involuntária, mas reconhecidamente utilitários e essencialmente benéficos. Depreende e infere-se qual o significado absoluto desses inúmeros e gigantescos tanques de aterro, que visam os objectivos: bebedouros para toda a extensa pecuária da árida região, mesmo espécies bravias, e como tanques para recreamento e refrescamento, aquáticos.

É de salientar-se que as populações autóctenes em redor ou afastadas desses tanques, aproveitam integralmente as águas acumuladas no decorrer de todas as quedas pluviais, não só para se dessedentarem, mas também para a indispensável higienização corporal, alheios aos processos microbicidas actuais, preconizados por entendidos em sistemas ultramodernos. E apesar de todos os primitivismos em que aqueles autóctenes (homens, mulheres e crianças) ainda estão arreigados, para gáudio do clímax da civilização contemporânea, coabitando pacífica e fraternalmente em aglomerados familiares e não, nos seus habitais denominados de «KEMBOS», subsistem verdadeiras esculturas humanas, quer em homens, quer em mulheres. OH! que beleza, que simetria, que exótico, que fenómeno escultural nos corpos das mulheres «Muhumbis», com uma semi-nudez ingénua e primitivamente expostas, (ausência absoluta de pudor artificial), em elegantes corpos tropicalmente bronzeados, e uma «cútis» extremamente delicada!! Ê o protótipo de comportamento oriental, que caracteriza básica e vinculadamente os povos do Sudoeste de Angola, a herança genética legada por gerações remotas e seculares, e que hão-de perpetuar-se nas linhagens ulteriores os ditames indeléveis das actuais vivências, patenteadas nas formas e nos costumes.

HUMBE - Tipo de mulher "Muhumbi" das mais belas e esculturais em todo o Sudoeste de Angola, e talvez até de outras etnias. Observe-se o esbelto do corpo, o complicado e elegante penteado, e a excelsa coquetaria. A pose fotogénica, outro atributo digno de elogio.

Os adornos ou coquetaria essencialmente primitivos, que as mulheres (adolescentes e adultas) facultam com uma absoluta naturalidade e despretenciosismos, concominante de uma indumentária descaradamente reduzida e provocante, podem rivalizar (no género) com as mais requintadas e complicadas, coquetarias, dos mais recônditos lugares do mundo. Os penteados, praticados por exímias cabeleireiras (especialistas da arte), normalmente idosas na vivência, revestem-se de um deslumbramento que quase atinge o êxtase da observação! Cada adorno, traço, variante ou demais peculiaridades inerentes, corresponde rigorosamente a um significado mitológico ou tradicionalmente tribal, sendo que cada uma das configurações habilmente executadas, obedece igualmente, a nomes tipicamente gentílicos, cujos sinónimos só os autóctenes «Muhumbis», conhecem e interpretam-nos perfeitamente.

Sistematicamente no decurso das colheitas das oleaginosas inicialmente citadas predominam grandiosos festivais nocturnos, com nomes devidamente apropriados, nos quais se fazem representar donzelas que irão passar manifestamente, do período de juvenis para a puberdade, podendo a partir da data dos festivais, as raparigas tomarem compromissos matrimoniais, relações lícitas ou ilícitas com o sexo oposto, porque estão devidamente reconhecidas pelas tribos respectivas (hierarquia das sociedades autóctenes). Antes dessa altura, todos os actos praticados, consideram-se ilícitos, portanto reprováveis e condenáveis.

A imponência e a magnitude desses festivais, geralmente nocturnos, são indescritíveis, inefáveis - Impressionantes concentrações populacionais de espectadores de toda a vasta região e outros tantos, que se fazem deslocar dos mais diversos e longínquos recantos limítrofes, circundam maciçamente as homenageadas, podendo-se computar em centenas senão milhares de circundantes, e dezenas ou centenas das protagonistas em destaque, e que testemunham um dos cenários mais empolgantes dos trópicos! A coreografia do conjunto, os abrasantes e iluminantes fogos, os diabólicos e electrizantes tam-tans, em uníssono e infernais rufares, coadjuvados pelos cantares folclóricos e o acompanhamento de palmas, fazendo bambolear num requebrado altamente estonteante e provocante, todas as componentes protagonistas e exibicionistas, quais as que demonstram compleição física mais esbelta, mais sensual e assim mais atraente e sedutora...

HUMBE - Mulheres "Muhumbis, tamborileiras, matraqueadoras e flautistas, exibem compassos rítmicos, com sons executados dos diabólicos "bombos gentílicos", fazendo contagiar os componentes exibicionistas do grupo de bailados e danças, tipicamente africanos. Imagine-se o rufar estridente dos tambores, cujas peles são esticadas com frequência pelo aquecimento de fogueiras incandescentes. 

Aqueles deslumbrantes e extasiantes espectáculos, de características tipicamente africanas, podem equiparar-se a algumas das plagiadas danças brasileiras, exemplificando os sambinhas, baiões, toadas, marchinhas, canções, etc., nos seus requebrados e contagiosos compassos rítmicos. Estas danças, hoje oriundas e peculiares do grandioso Brasil, pressupõem-se demarcantes consequências e influências, dos ritmos-básicos, tipicamente Angolanos, outrora transportados por trabalhadores-escravos que demandavam o Brasil por imperativo das circunstâncias. Assim se infere a revelante analogia concernente a certos protótipos folclóricos, vigentes nos tempos actuais, e que através das eras e gerações, os folclores de Angola e Brasil, por muito que se transformem, que passem da moda e que os ritmos se ajustem e coadunem com as épocas próprias, jamais olvidarão aquilo que os antepassados legaram à posteridade, numa perfeita harmonia de folclores e músicas tipicamente regionais. É das relíquias mais valiosas que os dois prodigiosos territórios orgulhosamente demonstram, e poderão ser mantidos, como sinais e testemunhos indeléveis das procedentes amizades e comunidades e mesmo intercâmbios, a despeito de todo o género de modernização, (no capítulo presente), que vertiginosamente acompanha o processo mundial-evolutivo.

Parecerá, à primeira vista, fastidiosa a longa narrativa que se apresentou acerca das mulheres, dos usos e costumes (Etnologia), «Muhumbi», mas acontece que na região HUMBE, o valor que lhes é atribuído, conceituada e prestigiosamente, é de longe ultrapassado, às palavras elogiosas, ora patenteadas. Só um testemunho ocular estritamente individual, fará ou conjugará imaginações utópicas ou realísticas, porém, não esquecendo que unicamente a observação atenta no local, é tanto mais autenticada e enriquecida, quanto uma prodigiosa fraseologia do autor.

Fonte: A Conjuntura de Aspectos e Perspectivas no Distrito do Cunene – Angola, José Alberto Pires, 1975.