Jonas Savimbi


Emídio Fernando
Publicações D. Quixote www.dquixote.pt

 

INDEPENDÊNCIA DE «FACHADA»

Sugerimos vivamente a todos aqueles que desejarem saber pormenorizadamente sobre a vida política do Dr. Jonas Savimbi não descrita noutros livros, adquirirem este excelente livro. Dado os temas politicamente polémicos sobre os três partidos provavelmente não será permitida a sua venda em Angola. Por isso, pedidos a condescendência da editora e do autor.

A saída dos portugueses aparentemente desagrada a Jonas Savimbi que, de repente, vê os seus principais apoiantes deixarem as cidades. Aos seus homens delegados em cada cidade, recomenda moderação no tratamento aos colonos que se preparam para encetar a nova vida:

“Se você quer aprender como se trabalha com um moinho, pergunte à pessoa que o construiu. Só depois disso você poderá dizer: «Eh pá, como já aprendi a trabalhar com o moinho acho que posso dispensar-te ou, se preferires, ficas meu sócio.» Nós queremos governar Angola? Então temos que aprender com os que cá estiveram na direcção disto durante cerca de quinhentos anos. Portanto, nada de levantar teses de que os brancos se devem ir embora.”

O discurso agrada aos antigos colonos, mas não evita a fuga em massa, até porque Angola está a ferro e fogo e a capital controlada pelo MPLA. A população branca luandense sente-se desprotegida, mais fragilizada e receosa. Na sua grande maioria, logo que eclodiu o 25 de abril, tomou partido pelos partidos de colonos que se começaram a formar, ou pela UNITA. O caráter racial também ajudou às tomadas de posição. Muito antes dos Acordos de Alvor, ainda em 1974, taxistas portugueses atacaram vários musseques, em retaliação por alegadamente ter sido assassinado um colega, por alguém vindo dos bairros populares e pobres em redor de Luanda. As reações seguintes agudizaram as relações: as lojas dos colonos, mais de 1000, nesses musseques, começaram a ser saqueadas e queimadas com a população a festejar por cada estabelecimento destruído.

É decretado o recolher obrigatório, que não consegue travar a fúria da comunidade branca. Sucedem-se manifestações e ameaças a todos os que defendessem a independência. As intenções dos colonos ficam bem claras nalguns relatos dos jornalistas da revista Notícia e da rádio, entre eles, Sebastião Coelho, igualmente ameaçado:

“Deram-se vivas a Marcelo Caetano, exigiu-se o regresso da PIDE e, de vez em quando, ouvia gritar o meu nome e chamavam--me terrorista. A polícia militar teve de intervir para evitar depredações e eu fui obrigado a sair do palácio pelas traseiras, para evitar encontros com esse grupo que me esperava. E, nessa mesma noite, ao terminar o programa «Café da Noite», recebi, pelo telefone, várias ameaças de morte.”

Por outro lado, a ação de Rosa Coutinho enquanto presidente da Junta Governativa não os tranquiliza. Mal aterra em Luanda, ainda em 1974, o «almirante vermelho» sente a animosidade da população branca, detentora dos principais órgãos de comunicação social e que a usa para fomentar o ódio a Rosa Coutinho. A simpatia dele pelo MPLA, anterior ao 25 de abril e pouco escondida, manifesta-se dois dias após o derrube da ditadura, quando convida o antigo dirigente da Frente de Unidade Angolana, Sócrates Dáskalos, a viajar até Lisboa. Na conversa participa Pinheiro de Azevedo. Ambos garantem ao professor e dirigente angolano que Portugal está disposto a entregar a independência ao MPLA.

Toda esta atividade não passa despercebida à comunidade branca, especialmente àquela que gravita à volta dos poderes do anterior regime e é afeta ao antigo governador Silvino Silvério Marques. Começa uma campanha feroz, em que se espalham rumores e calúnias contra o presidente da Junta. As publicações anti-MPLA, em particular o Província de Angola e o Diário de Luanda, afrontam Rosa Coutinho e acusam-no de ser árbitro que apita “sempre a favor do mesmo lado.”

Rosa Coutinho sabe já dessa aversão da comunidade branca, antes mesmo de aterrar em Luanda. E faz logo da primeira declaração aos jornalistas, ainda no aeroporto, um detonador dessa animosidade: Ver: http://pissarro.home.sapo.pt/memorias20.htm

“Tenho o prazer de informar, em nome do senhor primeiro-ministro, que, em breve, a província gozará de um estatuto administrativo que lhe permitirá governar-se sem ser a partir do Terreiro do Paço ou do Restelo e, portanto, satisfazendo uma ambição que Angola há muito manifesta.”

A possibilidade de independência é vista entre os colonos como a entrega do poder à população negra e a consequente expulsão de quem, até então, detinha o poder. E nem as promessas do almirante aplacam os ódios ou reduzem os medos. Antecipando-se às desconfianças, prevendo o desagrado que poderia causar, ainda nessas mesmas declarações, no aeroporto, Rosa Coutinho promete criar um banco em Angola que guarde as reservas do país. Foi o mesmo que dizer que a população branca é endinheirada. Mais tarde, iria justificar essas promessas:

“Tinha de trazer um rebuçado para esta malta para ver se acalmam. Sei que a situação está um pouco quente e estas medidas pódem constituir um tónico para a incerteza que naturalmente sentem. Sabem que vão perder privilégios, mas ganham noutros campos.”

O medo é tal que, entre a população branca, um grupo organizado tenta assassinar Rosa Coutinho, logo no primeiro dia que passa em Luanda. Inicialmente marcado para a tarde da chegada do novo presidente da Junta Governativa, o atentado é sucessivamente adiado até que acaba por não acontecer. Mas as marcas do ódio são indeléveis, como descreve o jornalista João Fernandes:

“O que arde é para arder... Por todos os musseques sucedem-se as cenas de violência. Tiros, rajadas de metralha, explosão de granadas. Quem disparou contra quem? E mais incêndios e mais assaltos. Ambulâncias que atravessam a noite uivando. E algumas que são apedrejadas e atacadas até com garrafas cheias de gasolina. Procuram-se esclarecimentos e obtêm-se gritos de revolta. Quem matou a velha e a criança que dormiam na cubata? «Foi a tropa» — gritam uns. «Andam por aí tipos fardados a disparar a torto e a direito. E não são militares.'..» - afirmam outros. Uns dizem que são brancos, outros que são pretos. Fervem as histórias. Fala-se de bandos armados que percorrem os musseques, metralhadoras russas à bandoleira, agredindo e roubando indiscriminadamente. Vem para o ar o nome de comerciantes que tiveram as suas casas saqueadas e incendiadas e que voltam ao musseque para bárbaras vinganças. (...) Numa só noite chegaram ao banco do hospital 58 crianças e 125 adultos. Só três eram brancos. Donde vem a violência?”

Enquanto a insegurança vai aumentando, Jonas Savimbi lança na campanha de propaganda, sobretudo na rádio, a favor da permanência desses lojistas, comerciantes e quadros que afinal detinham todo o poder administrativo. Mas a violência em Luanda empurra a UNITA para fora da capital. O último suspiro luandense dá-se com a destruição de uma base do movimento de Savimbi chamada «Pica Pau».

Também a FNLA é expulsa e prefere refugiar-se a Norte, perto da fronteira com o Zaire, a escassas centenas de quilómetros da capital, entre Caxito e Kifangondo. Todos os acontecimentos de 1975 são decisivos para o que se vai passar em Angola. Jonas Savimbi recorre à ajuda da África do Sul. O regime de Pretória coloca tropas no interior angolano e, durante uma operação denominada «Savannah», avança até ao centro, sendo travada apenas em outubro, pelas forças do MPLA numa das margens do Rio Keve. http://petrinus.com.sapo.pt/savana.htm

Ver também: http://petrinus.com.sapo.pt/ponte14.htm

Mas o MPLA já recebe a colaboração, agora clara e inequívoca, dos cubanos, que são os principais responsáveis pela mitigação das poderosas tropas da África do Sul. A batalha entra na História contemporânea de Angola como a mais importante e mais decisiva. Atracam navios vindos de Cuba que reforçam a presença em Angola com armamento pesado e homens. A «Operação Carlota», - http://petrinus.com.sapo.pt/bastardos.htm - http://petrinus.com.sapo.pt/ay_carlota.htm - que praticamente se iniciara no ano anterior, tem o resultado que o MPLA tanto espera: garantir a vitória militar sobre Luanda. Ainda restam forças ao movimento de Agostinho Neto para rechaçar a FNLA a 25 quilómetros de Luanda, em Kifangondo. As FAPLA (Forças Armadas Populares de Angola) afastam os últimos resistentes das tropas que combatiam pela FNLA e que juntavam zairenses, franceses e portugueses, entre eles o Coronel Santos e Castro. Acaba-se assim o sonho prometido por Holden Roberto de tomar Luanda a 11 de novembro. Ver: http://kuribeka.com.sapo.pt/batalhaluanda.htm

Sem alternativas, longe dos palcos principais onde se trava, encarniçadamente, a guerra, Jonas Savimbi refugia-se nas bases que sempre o acolheram. Os seus homens são espalhados por BengueIa, Bailundo, Lubango, Sumbe, Namibe e Ondjiva. Em vésperas da declaração da independência de Angola, a 11 de novembro, a FNLA está praticamente remetida à fronteira com o Zaire, mas a UNITA controla grande parte do território a Sul. Daniel Chipenda, dissidente do MPLA, junta forças e assume o controlo do Kuando-Kubango, que, futuramente, será a praça central de Savimbi.

Derrotados militarmente, Jonas Savimbi e Holden Roberto concordam em lutar juntos e constituírem um governo, dado que ainda recebem apoio de Chipenda. Assim, a 11 de novembro de 1975, data acertada em Alvor para a declaração da Independência, dirigentes da UNITA e da FNLA proclamam, na cidade do Huambo, a República Democrática de Angola. Nesse dia, Jonas Savimbi não se encontra no Huambo. Está em parte incerta, mas no dia anterior esteve reunido, em Pretória, com membros do governo sul-africano: o ministro da Defesa, Magnus Malan, e o dos Negócios Estrangeiros, Pik Botha. Ambos lhe prometem não deixar que a independência seja proclamada por Agostinho Neto, no dia seguinte, em Luanda, garantindo que a capital angolana iria ser bombardeada e entregue à FNLA. De certa maneira, as intenções sul-africanas acabavam por justificar as ações anteriores de Rosa Coutinho:

“Eu bati-me sempre para não deixar que Angola caísse nas mãos da boca do rio Zaire. Seria mais uma província de Mobutu e isso repugnava-me instintivamente e representaria uma falsa independência. Na altura, a FNLA era o único movimento que tinha realmente um número de guerrilheiros e uma força militar extensa. Estava avaliada em 16 mil homens recrutados no Zaire, entre muitos refugiados angolanos que se tinham refugiado no Zaire e por homens, mercenários, que não se consideravam angolanos e nem falavam português.”

Na celebrada independência do Huambo, a UNITA é representada por Miguel N'Zau Puna, José N'Dele e Jerónimo Wanga. Holden Roberto opta por fazer o mesmo no Ambriz. A proclamação nas duas cidades «não foi oficial», reconhece mais tarde o líder da FNLA, mas «um ato simbólico». Na cerimónia do Huambo, estão representantes do Zaire e da África do Sul, que se faz representar pelo general Gonstand Viljoen, que viria posteriormente a ser considerado, pelo regime de Pretória, um «herói da guerra».

Constand Viljoen reforma-se em 1985 depois de ter comandado várias companhias sul-africanas em Angola e na Namíbia. Algum tempo depois, após o fim do regime de apartheid, abriria o seu baú de memórias e, entre elas, a ligação a Jonas Savimbi:

“A missão era dar assistência à UNITA e à FNLA e, mais tarde, ao grupo de Daniel Chipenda, para retomarem as suas áreas tradicionais de modo que, a 11 de Novembro, a Organização da Unidade Africana estivesse em posição de obrigar à formação de um Governo de unidade nacional em Luanda.”

O general sul-africano está convencido que participava nos combates porque a África do Sul «luta ao lado de todas as forças anti-comunistas na África Austral» e que «contribui para a destruição dos regimes totalitários no mundo». Constand Viljoen viaja para o Huambo na companhia de Jonas Savimbi. Um dia antes, a 10 de novembro, o líder da UNITA encontra-se em Pretória, mas sai quase desolado. O primeiro-ministro John Vorster informa-o que há uma coligação do mundo ocidental para colocar a FNLA no poder em Luanda. Mesmo assim, Savimbi consegue convencer a África do Sul a estar presente nos festejos da «sua» independência e a FNLA «transporta» o Zaire.

São os únicos países que aceitam participar na proclamação do Huambo. O resto do mundo divide-se: uns apoiam incondicionalmente a nova Nação, o lado ocidental conforma-se. No entanto, de facto, a estratégia ocidental era outra: tanto os Estados Unidos como a África do Sul estão interessados em colocar Jonas Savimbi na liderança de Angola independente e, em Luanda, antes mesmo da independência. Até porque ambos os governos estão convencidos que, mais cedo ou mais tarde, haverá uma intervenção direta e massiva de Moscovo. Contudo, a União Soviética encolhe-se, limita-se a enviar uns submarinos que poderiam servir para retirar de Luanda os principais dirigentes do MPLA. A verdadeira surpresa é Cuba que rapidamente coloca mais de 10 000 militares prontos a combater ao lado do MPLA. O apoio cubano, inesperado pela dimensão, perturba os planos dos norte-americanos que, à última hora e inesperadamente, rompem com os apoios prometidos. Vinte anos depois, o antigo presidente da África do Sul, Pete William Botta, iria culpar os EUA pelo falhanço:

“As tropas sul-africanas não chegaram a Luanda, porque os americanos não cumpriram com a promessa de minar a zona marítima circundante de Luanda.”

O futuro de Angola provoca divisões nas cúpulas governativas dos Estados Unidos. Desde a sua fundação que a FNLA — antes a UPA - de Holden Roberto é apoiada pelos norte-americanos, umas vezes de forma mais aberta, outras, via organizações não-governamentais. Em janeiro de 1975, esse apoio passa a ser legal e sem «letras escondidas». O Comité dos 40, criado no Senado e que fiscaliza as operações clandestinas dos Estados Unidos, autoriza a ajuda monetária à FNLA que, na primeira tranche, chega aos 300 000 dólares. Em agosto, a CIA propõe que os EUA contribuam igualmente com o apoio à UNITA, depois da visita do agente Jock Stockwel ao reduto de Jonas Savimbi. No entanto, o secretário de Estado, Henry Kissinger, sugere que se aguarde por novos desenvolvimentos. O Departamento de Estado mostra assim desconfianças sobre a postura de Jonas Savimbi que lhe viriam a ser fatais meses antes da Independência.

Na madrugada de 11 de novembro, apesar da vitória na guerra pela Independência, a contabilidade não é favorável ao MPLA. Juntos, UNITA e FNLA controlam 12 das 17 províncias. Pouco a pouco, a correlação de forças altera-se radicalmente. Na república proclamada no Huambo, a aliança entre a UNITA e a FNLA dura pouco tempo. Não tarda que as tropas dos dois movimentos, o ELNA (Exército de Libertação Nacional de Angola), por parte da FNLA, e as FALA, por parte da UNITA, se envolvam em trocas de tiros que gerou uma guerra, dando corpo a um clima de tensão que se vivia há muito tempo. Mesmo assim, ainda conviveram quase um mês. Jonas Savimbi e Holden Roberto anunciam a formação do governo da RDA a 3 de dezembro, enquanto as suas tropas, apoiadas pela África do Sul, se aguentam no Huambo, Sumbe, Benguela e Lobito. No entanto, não param os confrontos entre elas. A 25 de dezembro - a data mítica de Jonas Savimbi - a FNLA é expulsa dessas cidades pela UNITA e só lhe resta recorrer, de novo, à fronteira com o Zaire.

Jonas Savimbi começa a ser dono e senhor de grande parte do centro e Sul de Angola, mas enfrenta um adversário... internacional. E, de novo, vai ficar isolado aos olhos do mundo.