ÚNICA

Expresso nº 1705 2 Julho 2005.

Reportagem de Manuel Goucha (textos) e António Pedro Ferreira (fotografias), em Angola.

Alimentar o futuro

Na cidade da Jamba Mineira e nas aldeias em redor vivem 50 mil pessoas subnutridas. E como "criança com fome não consegue aprender", a AMI está no terreno a melhorar a vida e o futuro destes meninos angolanos durante, pelo menos, 18 meses.

Combater a fome

Na Jamba Mineira vivem 50 mil pessoas, das quais dez mil são crianças. Muitas delas estão aparentemente gordinhas e alimentadas, e até nem apresentem as tradicionais barrigas de raquitismo. No entanto, têm carências alimentares tão acentuadas (resultantes de uma alimentação monótona à base de arroz, feijão e fuba, a tradicional farinha de milho), que originam anemias graves e outros problemas de saúde e imunidade. Uma geração de jovens doentes significa o futuro de um país comprometido. E, apesar de Angola produzir 980 mil barris de petróleo/dia (dados dos serviços secretos norte-americanos CIA), e de apenas recentemente ter comprado 45 milhões de euros em armas ao Reino Unido, a verdade é que muitos meninos deste país continuam a passar fome. A AMI e o Banco Totta decidiram dar um contributo localizado para minorar este drama na província da Huíla: o Totta doou 500 mil euros (50 euros por cada nova conta aberta durante uma campanha) àquela ONG, que os aplicou em três programas - combate à Má Nutrição, nas vertentes Severa e Moderada, e Comida por Educação -, bem como à possível reestruturação do hospital da Jamba. Esta acção tem a duração prevista de 18 meses.

'O nosso país do amanhã precisa criança que sabe...'

A vida da enfermeira Elisabete alvoraçou-se com a imagem dos meninos que poderia ajudar no Sul de Angola. Aos 66 anos, esta mãe de três filhos e avó de quatro netos, decidiu aproveitar a sua condição de reformada para cumprir o velho sonho de trabalhar como voluntária numa missão de ajuda humanitária: «Cheguei à Jamba Mineira há quatro meses e já envelheci quatro anos». Pior do que o trabalho, «é a miséria que vejo à minha volta. E as saudades dos meus filhos» - que tolhem o seu coração.

Paradoxalmente, Elisabete está feliz. Respira serenidade porque se sente mais útil do que nunca. Ainda mais necessária do que quando tinha 25 anos (1966) e se instalou em Lourenço Marques (a convite do professor Ibérico Nogueira) para «montar a maternidade dos (então) Estudos Gerais» da capital de Moçambique. Trabalhou durante três anos na antiga colónia portuguesa e foi contaminada pelo «bichinho de África». Aquele bicho que faz com que (quase) todos os que por lá passaram tenham vontade de regressar um dia.

Casou-se, teve filhos e divorciou-se. Pelo meio fez uma brilhante carreira como enfermeira na área materno-infantil e pediátrica e, depois de ser avó, decidiu reformar-se do seu local de trabalho no Centro de Saúde da Ajuda, em Lisboa: «Comprei uma casa em Vila Nova de Cerveira para poder estar mais perto dos meus filhos que vivem todos no Norte de Portugal, mas mantive a casa de Lisboa». Em Janeiro deste ano desceu à capital para tratar de assuntos e, no meio dos papéis do seu apartamento quase fechado, encontrou uma antiga ficha de inscrição como voluntária da Assistência Médica Internacional (AMI): «Achei que tinha chegado a hora e no dia seguinte - que era uma quarta-feira - fui lá entregá-la pessoalmente, voltei para Cerveira e na segunda-feira recebi um telefonema da responsável deste projecto, perguntando-me se estaria disponível para partir para a Jamba». Conversou com os filhos, fez as malas e no dia 2 de Fevereiro já estava em Angola.


A papa das 11h é a única refeição diária para a maioria
das crianças da escola de Colui (foto Única)

Na Jamba Mineira (um dos distritos da província da Huila, no Sul de Angola, a dois mil quilómetros da Jamba que era o bastião da UNITA) não há telefone nem rede de telemóvel. O correio e o telefone mais próximos ficam no Lubango, a antiga Sá da Bandeira: «Demoramos 12 horas de carro, aos saltos, para lá chegar». A picada é inexplicável, como conta a nutricionista Carla Ganhão, 26 anos, que também é uma estreante em missões de ajuda humanitária. As duas mulheres conheceram-se naquela terra tatuada pelas marcas da guerra e da fome. Elisabete revê em Carla a jovem que ela era quando partiu para Moçambique, enquanto Carla sente em Elisabete o apoio e a experiência de uma pessoa mais velha. «Quando chegámos, a primeira sensação foi de tristeza e falta de conforto», recorda Elisabete, tentando explicar por palavras aquilo que salta à vista. Na Jamba não há nada que se assemelhe ao primeiro mundo em que vivemos. A água que abastece o hospital é bombeada à mão por uma angolana, que faz girar uma velha nora com o esforço dos seus braços, e os raros geradores que existem só trabalham quando há combustível.

A tradição manda que as tarefas quotidianas sejam um encargo das mulheres. São elas que cuidam dos filhos, cozinham, lavam a roupa no rio e limpam as casas rudimentares. Também são elas que cuidam das lavras, que garantem um mínimo de alimentos (insuficientes) num sistema de agricultura de subsistência... porque aquela terra vermelha está seca e cansada. Os homens pairam por todos os cantos onde existe uma sombra; são homens de todas as idades, a maioria muito jovem, porque em Angola 43% da população tem menos de 14 anos e a esperança média de vida é de 36.


Enfermeira Elisabet com mulheres do Katoto (foto Única)

São ainda as mulheres quem cozinha para as crianças das sete escolas (todas longe da cidade) incluídas no programa Comida por Educação. Este projecto da AMI passa pela confecção de uma refeição diária de papa (leite em pó, açúcar, fuba - farinha de milho - e água) ou arroz doce, com um valor nutritivo de 600 calorias por criança. A papa é preparada pelas «mamãs» no «jango» (um redondel onde funciona uma cozinha rudimentar) da aldeia. Em troca do seu trabalho como cozinheiras e lavadeiras de tigelas e colheres, as «mamãs» recebem um cabaz semanal para si e para as suas famílias com fuba, arroz ou feijão, sabão e óleo. Nas terras hoje perdidas da Jamba Mineira troca-se tudo por um pedaço de comida e já nada faz lembrar os tempos em que ali houve uma movimentada e rica cidade graças à exploração da mina de ferro. Agora, a velha linha de caminho-de-ferro (construída para o transporte do minério) está desactivada e só é usada como pista de passagem para os jipes que circulam entre as diversas aldeias.

Elisabete coordena a distribuição de alimentos a várias escolas: «A maior parte das crianças só come esta refeição que é preparada no 'jango'». Nenhum europeu chamaria escola aos locais onde são ministradas as aulas; paredes sem tecto, alunos que transportam durante muitos quilómetros os seus banquinhos de casa, meninos sem cadernos nem folhas de papel e que, de tempos em tempos, têm a miragem de uma caneta. O professor usa um quadro de ardósia para ensinar as letras e algumas frases num português rudimentar. As crianças, os únicos seres cujo olhar ainda não ficou perdido no vazio, entoam lengalengas que apelam à construção de um homem novo: «O nosso país do amanhã precisa criança que sabe...» E cantam em português, orquestradas pelo professor David - para darem as boas-vindas à equipa da AMI - naquele fim de mundo palpitante de dialectos africanos, onde poucos, muito poucos, conhecem a língua oficial do país.


Carla Ganhão com um  menino (foto Única)

Rio doente

A vida é dura para estas gentes que vivem claramente abaixo do limiar mínimo de sobrevivência (é a situação, de 70% dos 12 milhões de habitantes de Angola). Na cidade da Jamba existe uma torneira de água para abastecimento público. Nas aldeias que visitámos - Colui, Katoko - este é um luxo distante do sonho mais colorido. As mulheres e crianças acartam a água de lugares distantes e, muitas vezes, contaminados. A cidade é banhada por um rio apetecível - que forma a bonita lagoa do Colui - onde não é, ou pelo menos não deveria ser, possível tomar banho porque existem chistosomas (parasita que contamina os seres humanos e mata um milhão de pessoas/ano em todo o mundo).

Na época das chuvas, o grande inimigo é o mosquito transmissor da malária, a doença que mais mata em África. Subnutridas, as crianças atacadas pelo paludismo têm muito poucas hipóteses de sobreviver. A maioria «tem anemias graves», conta a enfermeira Elisabete, recordando que quando chegou à Jamba a sua primeira tarefa foi fazer um inventário do material que era necessário no hospital: «Não tínhamos ventilador nem aspirador (para os bebés), não havia laboratório de análises nem técnico que as fizesse, e os medicamentos eram escassos». Hoje, o hospital continua a ser um local onde - de acordo com os nossos padrões ditos ocidentais - falta quase tudo. Mas aquele mínimo que Elisabete conseguiu impor já é suficiente para tratar muitas crianças e suas mães: «Houve um parto em que julguei que ia perder a mãe, porque ela chegou aqui com um bracinho do bebé de fora. Felizmente acabou tudo em bem».

A outra «guerra» de Elisabete foi convencer os doentes e o pessoal local do hospital a usarem lençóis nas camas: «Não sabiam como utilizar o lençol de cima; além disso, os lençóis que já existiam significavam mais trabalho porque a lavadeira tem de os lavar à mão».

A escola de Katoco

O programa Comida por Educação está a ser um sucesso na escola do Katoco. Na manhã abrasadora em que os repórteres do Expresso visitaram aquela aldeia, a enfermeira Elisabete descobriu que havia mais crianças que queriam comer papa do que tigelas disponíveis para as servir: «Foi a AMI que forneceu este material todo e demos tigelas que coincidiam com o número de alunos indicado pelos professores de cada escola. Acontece que há crianças que passaram a vir à escola desde que aqui é servida uma refeição, o que nos deixa felizes», já que aumentar a frequência escolar é um dos objectivos deste programa. «Estamos sempre a dizer aos professores para nos comunicarem logo que haja um aumento do número de crianças, para nós podermos mandar mais comida».


Bebé no colo da mãe, no cento de Má Nutrição Severa,
do hospital da Jamba Mineira (foto Única)

Um dos motivos que pode atrasar este pedido de alimentos é a atitude de cerimónia polida e recatada com que os habitantes das aldeias e os professores das escolas recebem a equipa da AMI. Na aldeia de Colui, o professor David Chimoco vestiu um fato escuro e pôs gravata para dar um tom solene à recepção: «Num sítio onde nunca há acontecimentos (nem rádio, nem televisão) estas coisas assumem um carácter de festa», explica Carla Ganhão. Por isso é que os meninos alunos do professor David fizeram formatura para cantarem e dançarem num gesto e boas-vindas aos visitantes, enquanto os sobas de cada aldeia (homens mais velhos que exercem a autoridade local) envergavam um uniforme quase igual à antiga farda de chefes de posto dos tempos coloniais.

O sorriso dos meninos...

Na escola primária (antes da Revolução de 1974), os portugueses aprendiam que o território de Angola era 14 vezes maior do que o de Portugal. Trinta anos depois, as fronteiras daquele país nascido a 11 de Novembro de 1975 permanecem intactas, mas albergam apenas 12 milhões de habitantes (só mais dois milhões do que Portugal), sendo a maioria muito jovem. Angola é um país mais do que rico para não precisar de nenhuma ajuda do exterior. Mas, 40 anos de guerra e o curso de outros acontecimentos históricos fizeram com que o contributo das organizações não governamentais (ONG) seja decisivo para minorar a falta de condições de vida das populações. «Quando aqui cheguei, chorei muita lágrima», conta a enfermeira Elisabete: «O índice de mortalidade infantil - e não só - era muito elevado. Não podíamos fazer diagnósticos porque ainda não tínhamos laboratório nem outros meios».


População da aldeia de Colui, de olhar perdido vo vazio (Foto Única)

O médico ucraniano Mykola Babyuk trabalha há três anos em Angola - tem estado noutros locais deste país - e encara o seu trabalho na Jamba Mineira com uma tristeza pesada: «Fazemos tudo o que podemos. Há muitos casos de paludismo, que é uma doença muito séria», especialmente em populações que estão muito debilitadas. Para além do trabalho no hospital, os programas de Combate à Má Nutrição Severa e Moderada também têm contribuído para fazer descer (pelo menos pontualmente) a taxa de mortalidade. O Combate à Má Nutrição Moderada passa pela distribuição semanal ou quinzenal (consoante a distância a que as crianças beneficiadas moram da cidade da Jamba) de um cabaz de alimentos que inclui leite e soja para fazer «matete» (papa nutritiva), enquanto o tratamento da Má Nutrição Severa implica internamento no centro contíguo ao hospital.

Carla e Elisabete sabem que a sua atitude perante o mundo nunca mais será a mesma depois de terem vivido seis meses na Jamba Mineira. «Vou sair daqui mais madura, menos stressada, a saber distinguir o que é verdadeiramente importante. Nunca me esquecerei de que aqui não há nada, mas as pessoas andam sempre a cantar», diz Carla. É esta alegria de estar que toca o coração de Elisabete: «Têm sempre um sorriso, um bom-dia, uma pergunta para saber como estamos. Podem não saber falar português mas cumprimentam-nos sempre. E isto é uma lição de vida». Sobretudo quando ouvimos o professor David dizer: «Criança com fome não consegue aprender».