21 de Março de 2006

Eduardo dos Santos, assessores e "vice" da "secreta" montaram "conspiração" de Miala

A golpada do alegado "golpe de estado" em Angola

Acusado de estar a preparar um «golpe de Estado para destituir e assassinar o presidente» angolano, o general Garcia. Miala foi afastado da chefia da «secreta» externa do país. Agora começa a ficar claro que, afinal, a alegada «conspiração» não passou de uma «intriga política» elaborada por dois inimigos «de estimação» de Miala: os generais Hélder Dias «Kopelipa» e José Maria, assessores da Presidência da República, com o auxílio do «vice» dos SIE, brigadeiro Veríssimo da Costa. Fontes conhecedoras do caso garantem que a trama teve a conivência dó próprio Eduardo dos Santos


Presidente José Eduardo dos Santos

João Naia

Três semanas depois do rebentamento da «bomba» que deixou os meios políticos, a comunicação social e a sociedade civil angolana em alvoroço, começam a ser conhecidos os verdadeiros contornos da alegada «conspiração» para destituir e, até, assassinar Eduardo dos Santos, supostamente liderada pelo general Fernando Garcia Miala, ex-chefe dos Serviços de Inteligência Externa (SIE). Segundo fontes conhecedoras do processo, tratou-se de uma «bem urdida cabala política elaborada por dois assessores do presidente»: os generais Hélder Vieira Dias «Kopelipa» e José Maria, chefes da Casa Militar da Presidência da República e dos Serviços de Inteligência Militar (SIM), respectivamente, que terão contado com o auxílio do brigadeiro Gilberto Veríssimo da Costa, «vice» de Miala nos SIE. As mesmas fontes garantem que o próprio Eduardo dos Santos «estava por dentro» do plano.

«Intriga palaciana...»

Os factos que levaram à exoneração do general Miala, no passado dia 24, e à instauração de uma sindicância aos SIE tiveram por base «uma intriga palaciana como há muito não se via no país», protagonizada por «homens do presidente» que, para o efeito, constituíram uma «aliança de circunstância», dizem fontes angolanas contactadas por O DIABO. Em causa, acrescentam, estaria o controlo da «secreta» e, através desta, de dados confidenciais «eventualmente comprometedores» para várias figuras de topo da nomenclatura de Luanda envolvidas em «diversos negócios de petróleo e diamantes».

A direcção de um serviço estratégico do país e que funciona sob a tutela directa de Eduardo dos Santos concedeu a Miala espaço de manobra e poder de influência no palácio do Futungo de Belas. Para desespero dos generais «Kopelipa» e José Maria, que não viam com bons olhos a concorrência. Para combater Miala nada melhor do que aliarem-se. Foi o que fizeram.

Segundo as fontes contactadas, ambos começaram a interferir em alguns dossiers que até então estavam a cargo do SIE, como o relativo a Cabinda. Miala não se terá apercebido do «contra-ataque», o que lhe terá sido fatal.

O «caso Van-Dunem»

O princípio do fim do director dos SIE aconteceu há um ano, altura em que Miala apresentou a Eduardo dos Santos elementos que comprovavam que António Van-Dunem «Toninho», secretário do Conselho de Ministros, se preparava para se «abotoar» com parte substancial dos 2 biliões de dólares emprestados pela China. «Toninho» e Carlos Feijó, chefe da Casa Civil do presidente, foram exonerados. «Kopelipa» entendeu a acção de Miala como um ataque aos Van-Dunem, família a que ele próprio pertence e, com o apoio de José Maria, moveu uma guerra sem tréguas ao homem forte dos SIE, tendo contado, também, com a opinião «anti-Miala» de muitas outras figuras da «nomenklatura» luandense que entendiam que estaria ali «um temível precedende para futuras demandas da "secreta" externa sobre eles próprios. Temiam que os homens de Miala pudessem um dia obter também provas comprometedoras de falcatruas em que tenham estado envolvidos ao longo dos anos, fazê-las chegar ao presidente e, desta maneira, acabarem como acabou Van-Dunem».

A «aliança circunstancial» fez tudo para desacreditar Miala junto de Eduardo dos Santos, dizendo que era intriga do chefe dos SIE, e conseguiram impor ao presidente uma fórmula para que o assunto fosse resolvido familiarmente e fora dos tribunais. Nesta luta contra Miala foi determinante a acção do brigadeiro Veríssimo da Costa que ambicionava ficar com o lugar de Miala.

Destronar Miala, o homem mais importante e poderoso do sistema de inteligência do país era a prioridade. Minar a relação de confiança de Eduardo dos Santos no patrão dos SIE era fundamental.

«Fazer a cabeça do presidente...»

O plano para afastar Miala avançou definitivamente. «Conseguiram fazer a cabeça do presidente», dizendo, nomeadamente, que o patrão da «secreta» estaria a preparar um «golpe» para o afastar do poder. Eduardo dos Santos acreditou na informação passada e, na noite de 24 de Fevereiro, assinou o decreto de exoneração de Fernando Miala. Na manhã seguinte, foi posto a circular nos meios diplomáticos acreditados em Luanda, particularmente ocidentais, de que uma tentativa de «golpe de Estado» liderada pelo chefe dos SIE teria justificado o seu afastamento. E disseram mais. Puseram a correr a informação de que Miala teria fugido para o Congo Democrático na sequência do «fracassado golpe». Uma informação que assentava que nem uma luva pelo facto de Miala, precisamente naquele dia, ter agendada uma deslocação ao Congo, devidamente autorizada por Eduardo dos Santos. Era o «quadro perfeito».

Só que o plano sofreu uma alteração não prevista: Miala adiara a viagem e ficou sossegada e tranquilamente em Luanda.

Exonerado Miala, Eduardo dos Santos instaura uma sindicância aos serviços, de cuja comissão fazem parte precisamente «Kopelipa» e José Maria. No âmbito das averiguações reuniram com os chefes do Estado-Maior General das Forças Armadas angolanas, e tentaram fazer passar a mensagem da tentativa de «golpe» liderada por Miala. Só que as chefias militares «torceram o nariz» à informação, dizendo que «não se faz nenhum "golpe" e em nenhum país, muito menos em Angola, com todo o seu poder militar, sem tropa. E a verdade é que nenhuma unidade militar das FA apareceu envolvida». Mais ainda. A mesma fonte acrescenta que a ser verdade a tentativa de «golpe», as próprias FA seriam usadas para dar caça imediata aos «golpistas». Porém, «os "golpistas " não estão presos, andam à solta, têm uma vida normal». Caiu definitivamente a tese do «golpe».

E agora Eduardo dos Santos?

O DIABO apurou junto de meios de Luanda que o presidente terá começado a ser pressionado pelas tais figuras do topo da «nomenklatura» angolana logo após o «caso Van-Dunem» para afastar Miala, figura que poderia tornar-se incómoda com as suas investigações. Eduardo dos Santos «a dada altura, teve conhecimento do plano de "Kopelipa" e de José Maria mas terá optado por deixá-lo desenvolver-se. Com as consequências agora conhecidas», dizem-nos.

Precisamente no auge do «caso Miala», Eduardo dos Santos decidiu sair do país e efectuar uma viagem privada ao Dubai, deslocação que tornou impossível a sua presença na tomada de posse de Cavaco Silva.