A história da rainha Jinga tirada dos livros de Fernão de Sousa

HISTORIA DA RAINHA JINGA MBANDI, D. ANA DE SOUSA.

Tendo morrido em princípios de 1617 o rei Mbandi a Ngola Quiluanji ou, melhor, Jinga a Mbandi a Ngola Quiluanji, como já ficou dito em nota no capítulo quarto, deixou ele um filho já homem, Ngola Mbandi, três filhas já mulheres, e um filho ainda creança. Era a este que pertencia reinar, mas não poude ser eleito por ser pequeno e por isso foi eleito o mais velho. Tratou Ngola Mbandi logo depois de ser rei, de fazer matar seu irmão, para ele nunca lhe poder tirar o logar; matou também muitas outras pessoas, que não aprovaram a sua eleição, e um seu sobrinho, filho de sua irmã mais velha, Jinga.

As suas três irmãs eram: a mais velha Jinga Mbandi, que foi mais tarde a famosa rainha Ana de Souza, a segunda chamava-se Punji, que depois de baptisada teve o nome de Engracia e a terceira chamava-se Mucambo, que depois de baptisada teve o nome de Barbara. Ngola Mbandi reinou até aos primeiros meses do governo do Bispo D. Fr. Simão Mascarenhas, que governou desde 10-8-1623 até 22-6-1624. Quando em 27-8-1617, o governador Luis Mendes de Vasconcelos chegou a Luanda, estava o rei Ngola Mbandi em paz connosco.

Este governador, pouco tempo depois da sua chegada a Luanda, tendo ali deixado o seu filho Francisco Luis de Vasconcelos, foi visitar os presídios ao interior e vendo que o de Ango, que Bento Banha Cardoso sendo governador (governou de 16-4-1611 até princípios de Outubro de 1615) tinha levantado, não estava em bom local, o desfez e foi levantar outro mais perto do Lucala, o qual ele denominou de Nossa Senhora da Assunção de Ambaca. Não se pôde hoje saber onde era o de Ango; parece que era pelo Lucala acima 7 ou 8 léguas, desviado de Massangano, na região que chamavam a liamba.

O novo presídio de Ambaca era em terras do rei Ngola Mbandi. Foi isto a causa de ser derramado muito sangue, tanto dos nossos como dos do rei. Este protestou contra a fundação do dito presídio, mas o governador não o atendeu. Veja-se a nota sobre isto no capítulo oitavo, da primeira parte, a qual vou aqui analisando.

Logo após a retirada do Governador, foi o presídio estreitamente cercado; porém os nossos soldados se defenderam com esforço, sofrendo muito por ser dificultoso de socorrer. O Rei foi vencido e queimados os Paços reais (!!) Depois disto invernaram ali por causa das muitas águas. Ora sendo as primeiras chuvas em Outubro e Novembro, não podia ter sido tudo o que fica dito em 1617; deve-se pois referir às chuvas de 1618.

A guerra ao soba Cassanji deve portanto ter sido feita em Maio ou Junho de 1618, e a seguir as muitas victórias e assalto à cidade do Rei (Ngola Mbandi), que fugiu sendo-lhe apanhadas sua mãe, suas mulheres e muitos escravos. O governador ainda em 1620 continou a guerra contra o rei e lhe cativou a sua principal mulher com outras pessoas de sangue real, que foram tratadas com muita cortezia e respeito; e não achando o nosso exército resistência em todo aquele Sertão, correu aquelas províncias deixando-as desertas de habitantes.

O rei retirou-se para as ilhas do Quanza e ahi ficou vivendo. O Jága Cassanji continuou ainda a guerrear o rei e apossou-se depois de algumas terras dele.

Tendo chegado em 12-10-1621 a Luanda o governador João Correia de Sousa, foi ele sabedor de tudo o que se tinha passado, e que a guerra ao rei fora injusta e que ele estava refugiado nas ilhas do Quanza.

Nesta altura há divergencia na história contada por Fernão de Sousa e o constante de outras fontes. Fernão de Sousa diz: (no I tomo fl. 326 ao fundo e no II, fl. 30) que João Correia de Sousa, logo após a sua chegada a Luanda, mandou ao rei o padre Dionísio Faria Barreto, pessoa categorisada, filho da terra que falava bem a língua d'ali, e com ele (um tal) Manuel Dias para o convencerem a sair das ilhas e a oferecerem-lhe a paz da parte do governador.

O rei aceitou a oferta com certas condições, sendo a principal que o presídio de Ambaca fosse retirado onde estava antes ou para o rio Luinha, porque, situado como estava em terras de Dongo, um dia de jornada da sua povoação e morada, não se poderia o rei conservar ali estando o presídio sobre ele; que o governador havia de desalojar de Dongo, o Jaga Cassanji, inimigo comum, o qual lhe fazia guerra; que lhe desse o governador os sobas e quixicos de sua obediência (escravos e prisioneiros de guerra) que lhe pertenciam e que Luiz Mendes de Vasconcelos lhe tinha tirado, pois não podia ser rei sem vassalos.

Veio a Luanda Manuel Dias a dar conta ao governador do que o rei queria e pedia, ficando com ele o padre Barreto. João Correia de Sousa fez junta formada do Vigário Geral, Religiosos, Camara e oficiais e todos foram concordes em que o presídio de Ambaca fosse retirado de lá e feito outro no Luinha. Foi cópia do assento da Junta levada pelo capitão Bento Rebelo ao rei para o padre Barreto lh'a ler na sua língua; ficou aquele muito contente, mas a mudança não se fez. Estavam as cousas neste pé quando em 2-5-1623 saiu João Correia de Sousa de Luanda.

Sabendo o rei da sua saída e que no seu logar ficara o capitão-mór, Pedro de Sousa Coelho, mandou a Luanda ao governador sua irmã mais velha, Jinga Mbandi, com uma embaixada a pedir o mesmo que já tinha sido pedido a João Correia de Sousa. Pedro Coelho fez nova Junta a qual concordou em que devia ser cumprido o que fora resolvido na primeira Junta e mais que o governador, capitão-mór, partisse a desalojar das terras de Dongo o Jaga Cassanji, que continuava a estar nelas, (Livros de Fernão de Sousa, tomo I, fl. 326 e II. fl. 30). Como se vê, Fernão de Sousa diz que Dona Ana veio a Luanda no tempo do governo de Pedro de Sousa Coelho e não fala em ela ter sido ali baptisada.


Luanda século XVII (imagem Era Uma Vez...Angola, Paulo Salvador)

Mas é certo que ela veio a Luanda em fins de 1621 ou princípios de 1622, sendo governador João Correia de Sousa, e ali foi baptisada tendo por padrinho o próprio Governador. Di-lo Cavazzi na pág. 496 e 497 e este autor neste ponto merece fé, pois viveu junto de D. Ana de Sousa, já depois de convertida, desde fim de Outubro de 1658 a meado de Junho de 1659 e depois desde Janeiro de 1662 até 17-12-1663, data em que ela morreu.

Ela própria na sua muito extensa carta de 13-12-1655, dirigida ao governador Luís Martins de Sousa Chichorro, fala acidentalmente de João Coreia de Sousa e lhe chama seu padrinho. Esta carta vai inteiramente copiada na grande nota sobre esta rainha, no capítulo décimo da primeira parte do II tomo do autor. Não posso explicar a omissão em Fernão de Sousa não contar que ela foi baptisada em Luanda em 1622 e dizer que ela veio em 1623. Viria ela duas vezes, sendo a primeira com Manuel Dias, e teria ficado em Luanda e a resposta do governador teria ido por Bento Rebelo, pó ela ter ficado em Luanda - e sendo a segunda ao governador Pedro Coelho? Talvez esta seja a melhor interpretação a dar aos factos.

É dito por Cavazzi que ela veio a Luanda com uma embaixada e é ele que conta o que se passou em Luanda na audiência, facto que constitui um lindo episódio, que os catálogos sem dúvida traduziram de lá. Não resisto a não o transcrever aqui, pois Cadornega não o conta. Eis o que os catálogos dizem:

GOVERNO DE JOÃO CORRÊA DE SOUZA

«Tomou posse João Corrêa de Souza, no anno de 1621, e logo no principio do seu Governo, teve huma memorável embaixada, digna de individual narração. Assim que Gola Bandi soube, ser chegado novo Governador, desejando reconciliar-se com os Portuguezes; e não ignorando o máo conceito, em que estes o tinhão, pela sua pérfida conducta; com notável sagacidade, nomeou para embaixatriz, a sua Irmã Ginga Bandi, em cuja viveza e desembaraço, pôz toda a esperança. Vivia aquella Senhora, separada do Irmão, a quem tinha mortal ódio, por lhe ter morto o filho; e elle que bem o sabia, querendo traze-la ao seu intento; mandou significar-lhe o grande arrependimento, que lhe causava aquelle arrebatado procedimento; e juntando affectuozas rogatívas e largas promessas; conseguio que ella se encarregasse da comissão Ginga Bandi, occultaado o rancôr que conservava no peito, até ter opportunidade de o manifestar; preparou-se com presteza, e seguida de huma comitiva numerosa, partio para a cidade de Loanda. Nella foi recebida, pelos Magistrados, e Pessoas principaes; e conduzida, por entre alas das tropas, e com descargas de mosquetaria, ás cazas de Rodrigo de Araújo, destinadas para seu apozento; onde foi á custa da Fazenda Real, com a decência e grandeza devida á sua pessôa.

No dia da audiência, com hum luzido acompanhamento de ambos os sexos, se dirigio á Caza do Governador; e sendo introduzida na sala, observando haver alli huma só cadeira, e defronte deia, duas almofadas de veludo franjadas de ouro, sobre huma rica alcatifa; sustendo-se algum tempo, sem proferir palavra, voltou o rosto para uma das suas escravas; foi esta immediatamente servir-lhe de banco e assentando-se sobre ella, assim esteve todo o tempo que durou a cerimonia.


(foto Net)

Este repentino accidente enchêo de admiração a todos; mas ainda maior foi o assombro, quando ouvirão fallar, e discorrer, huma mulher creada entre os bárbaros e feras, com tanta eloquência, e propriedade de termos, que parecia couza sobrenatural. Todo o seu discurso se encaminhou, a desculpar as inconstancias do Irmão; a persuadir, que Gola Bandi perseveraria na nova reconciliação que pretendia; e a expor as razoens, porque se lhe devia conceder a paz, que pedia.

Respondêo-lhe João Corrêa, que para maior firmeza da alliança, devia seu Irmão, reconhecer-se vassallo d'El Rey de Portugal, e pagar um tributo annual: a isto, com prompta vivacidade, replicou a embaixatriz; que semelhante encargo, só poderia impôr-se, a quem tivesse sido conquistado; e nunca a hum Príncipe Soberano, que procurava a amizade, de outro seu igual. Emfim concedida e ajustada a paz, sem mais condição, que restituir o dito Rey, os escravos fugidos; e huma reciproca assistência, contra os inimigos de ambas as coroas; se concluio esta notável função.

Ao despedir-se, hindo o Governador accompanha-la, reparou que a negra, que lhe servira de cadeira, não se movia da extravagante postura em que estava; e pedindo á embaixatriz, a mandasse levantar, respondêo-lhe ella rindo-se, que ficava alli a sua escrava, não por inadvertência, mas porque lhe não era licito, tornar a uzar de semelhante assento.

Adquirio Ginga Bandi, pela delicadeza e sublimidade de seu juízo, a geral estimação; e persuadido João Corrêa, que hum tão raro talento, poderia com facilidade, capacitar-se das verdades da Religião Catholica, lhe tocou algumas vezes nesse ponto; e observando que ella curiosa, ou abalada; queria conhecer os mistérios da nossa Santa Fé; a fêz instruir nelles por hábeis Eccleziasticos, e percebendo-os ella logo, com a sua natural clareza de engenho; tocada pela Mão de Deus, pedio o Baptismo; e aos 40 anos de idade, no anno de 1622 se lhe administrou o referido Sacramento, na Sé Cathedral, com grande solenidade, e concurso da Nobreza e povo; sendo Padrinho o Governador, e tomando ella o nome, de D. Anna de Souza.

Querendo passar á rezidencia de seu irmão, lhe mandou João de Souza, magníficos regalos e prezentes, e a despedio com as mesmas honras e obséquios, com que fora recebida: chegando a Matamba, dêo conta a Gola Bandi, do êxito da sua embaixada; fallou-lhe muito nas attençoens que devia aos Portuguezes; e participou-lhe que se achava Catholica, e quanto desejava, que elle seguisse o seu exemplo.

Alegre o Rey de Angola, com o bom resultado da missão, escrevêo logo agredecido, ao Governador, e expondo-lhe a vontade que tinha de imitar sua Irmã; lhe pedia hum sacerdote, para o catequizar e instruir.

Deferio João de Souza a sua supplica, remettendo-lhe promptamente o Padre Dionizio de Faria, homem preto, natural do mesmo reino de Matamba, de exemplar vida e costumes; mas não acertou na escolha; porque parecendo-lhe que agradaria a Gola Bandi, em lhe mandar hum compatriota, acontecéo o contrario: pois logo que o Rey vio o Clérigo, com desprezo e ignominia o fez lançar fora da sua presença; dizendo, não podia ser Baptismo, o que administrasse o filho de huma sua escrava; e tomando por affronta, a innocente desigualdade havida entre elle e sua Irmã; como furioso e louco, com vários desatinos provocou a sua ultima ruína.

Sentindo-se o Governador, mais do insulto feito ao sacerdote que da própria desattenção, perseguio aquelle bárbaro Rey, com tão dura e viva guerra, que destruído, aborrecido, e desamparado dos mesmos vassallos, foi refugiasse em huma pequena ilha do Coanza, onde vivendo em continuo susto, de ser entregue aos Portuguezes, veio a cahir nas garras da morte, tragando-a em hum veneno, que lhe fez propinar, sua Irmã D. Anna de Souza, em vingança de lhe ter morto o filho.

Quiz o Jaga Cassange aproveitar a occazião, em que os nossos andavão occupados, com as revoltas de Gola Bandi; e roubando os Pumbeiros, que estavão em seus estados, e aquelles que passavão por elles, para outras partes do Sertão, causou considerável prejuiso aos nossos negociantes, mas por ultimo, custou-lhe cara a ouzadia: impedindo-lhe primeiro, João Corrêa, a comunicação com a Quissâma, para não ser soccorrido, ordenou a Roque de São Miguel, fosse com o exercito, que acabava de desbaratar ao Angolense, tomar satisfação do atrevimento do Cassange; o qual pagou sua temeridade, com tal derrota; que bastarão os captivos que lhe fizérão, para resarcir em tresdobro o damno que havia cauzado.»

Até aqui o que dizem os catálogos; mas, como bem se vê, pelo que fica dito nesta nota, os catálogos erram dizendo:

1.º - Que o rei foi o primeiro a mandar a embaixada ao governador, quando a verdade é que foi João Correia de Sousa o primeiro a mandá-la.
2.º - Que o governador pediu ao rei um tributo anual;
3.º - Que o rei pediu ao governador um padre para o catequizar e instruir; e, que tendo-lhe o governador mandado o padre Dionísio de Faria, o rei o recebeu mal e o fez lançar fora da sua presença.
4.º - Que o governador por este motivo fez viva guerra ao rei.

Como se vê na nota, é isto tudo falso. Mas continuamos com a história de D. Ana, extratada dos livros de Fernão de Sousa. Fica dito atraz que a Junta reunida por Pedro de Sousa Coelho confirmou o que estava resolvido e deliberou mais que, o próprio governador, capitão-mór, fosse desalojar de Dongo o Jága Cassanji.

Antes da partida do governador chegou a Luanda o Bispo D. Fr. Simão Mascarenhas, que tomou conta do governo, em 10-8-1623, entregue pelo Coelho. Logo o rei mandou nova embaixada ao Bispo a pedir-lhe cumprisse o que estava assente pelos seus dois antecessores e juntamente lhe mandou os autos do que estava tratado.

O Bispo concordou e mandou o Coelho, já agora só capitão-mór, a fazer guerra ao Jaga Cassangi. Pedro Coelho não o fez como devia, pois tendo-lhe o rei mandado dizer que fosse ao longo do Lucala e não pelo meio de Dongo, para não destruir alguns poucos que se começaram a juntar naquele reino, ele não o quiz fazer e, por paixões com o Bispo sobre o governo, se recolheu a Ambaca, de que resultou perder-se a ocasião que fora de grande efeito (tomo I, fl. 326).

MORTE DE NGOLA MBANDI

Com este sucesso desconfiou o rei de tal modo e concebeu tais suspeitas, que se saiu o Padre Dionísio de Paria fugido e ficou só com ele Bento Rebelo e brevemente morreu de desgosto; e disse-se que de peçonha, que tomou, dada por sua irmã Ana, porque o rei queria assinar uma carta que tinha feito em que aceitava a paz, e deixou tudo o que possuía a sua irmã, e ao jága Caza o filho que tinha (que era pequeno) por lhe parecer que estava mais seguro com ele.

Tanto que a Jinga se empossou do governo, pediu ao jága o sobrinho e, por dadivas que fez, aquele lh'o entregou, e, tendo-o em seu poder, o matou, para ficar ela sempre no poder foi opinião geral dos seus que lhe comera o coração e lançara o seu corpo no Quanza.

O Bispo corria bem com a Jinga, mas sem feiras nem resgates. Neste estado encontrou Fernão de Sousa esta questão quando em 22-6-1624 tomou conta do governo. A Jinga escreveu-lhe a pedir-lhe que cumprisse o que lhe prometera João Correia de Sousa, e que ela sairia logo das ilhas em que estava e levantaria igrejas e mandaria pedir padres da Companhia (de Jesus) para se fazerem cristãos todos os seus vassalos e que abriria feiras correntes como d'antes.

Fernão de Sousa procurou por meio de Bento Rebelo, que estava com ela, que abrisse as feiras e que se passasse para a terra firme onde os reis costumavam estar, que era Avunga e Cabaça, e desse entrada aos padres da Companhia, certificando-a que por este meio alcançaria o que lhe convinha; que não podia mudar o presidio de Ambaca sem ordem régia e que ia escrever a D. Filipe; assim também não podia entregar-lhe os sobas e quizicos que Luís Mendes de Vasconcelos tinha tomado ao irmão.

Fernão de Sousa em carta de 28-9-1624 (tomo I. fl. 304, ao fundo) relatou tudo a D. Filipe e acabava por lhe dizer - «que, posto que estava assente por João Correia de Sousa, pela Camara e por outras pessoas e por Pedro de Sousa Coelho como governador, e pelo Bispo servindo de governador, por ser mais conforme ao que convém para a Real fazenda de V. Mg.de, não resolvi a faze-lo sem ordem de V. Mg.de por não vir no meu regimento, pelo que me fará  V. Mg.de mercê em mandar a que devo seguir nesta matéria, sobre o que tenho escrito a  V. Mg.de por outra via (tinha sido em 15-8-1624, tomo I, fl. 298, v.), porque não se mudando o presídio não haverá nunca feiras nem se continuará no cristianismo, que é o que   V. Mg.de mais encomenda».

Começaram então a fugir muitos escravos dos portuguezes para ela e ela aceitava os. O governador mandou-lh'os pedir e ela, depois de muitos recados e respostas por Bento Rebelo, que os levou, e de mais um tal Gaspar Teixeira e o língua da terra Domingos Vaz, respondeu que entregaria os escravos se lhe mandassem padres da Companhia e que se ela os não entregasse lhe podiam fazer guerra.

Foram os padres Jeronimo Vogado e Francisco Pacconio até Ambaca com ordem de não passarem adeante enquanto ela não entregasse os escravos. Ela não entregou nem um só escravo. Por essa razão saiu Bento Rebelo de junto dela (das ilhas) e os padres de Ambaca para Luanda.

O governador ainda tentou convence-la a que corresse connosco como devia, fazendo igrejas e abrindo feiras, certificando-a que só queria dela paz e comercio e bem do reino. Ela continuou revoltando os sobas nossos amigos e os quimbares (pretos forros de guerra que estavam subordinados aos presídios) contra nós.

PRIMEIRAS HOSTILIDADES DA JINGA

O soba Aiidi Quiluanji, parente mais chegado do Rei Ngola Mbandi, amigo nosso e muito confidente, quiz-se avassalar com outros sobas nesta ocasião e por ser inimigo dela, seu vizinho e fronteiro. Era o senhor do sitio das pedras de Maupungo, muito defensável para o que sucedesse; Fernão de Sousa admitiu-o e mandou-o ir a Ambaca para por ele saber dos desígnios da Jinga e que sobas estariam comnosco, para se prevenir contra o perigo que o ameaçava.

Pela ida de Aiidi a Ambaca declarou-se logo a Jinga inimiga dele e dos outros que tinha levado em sua companhia. Isto deve já ter sido em meados de 1625. A Jinga mandou-o guerrear e ele pediu socorro ao capitão de Ambaca, que lh'o mandou pelo capitão de infantaria, Estevão de Seixas Tigre. Por desordem deste em não ter observado o regimento que lhe fora dado pelo capitão de Ambaca, mataram-lhe 3 soldados e cativaram 6, que levaram á Jinga, que ela não quiz largar.

Sabendo isto, Fernão de Sousa fez Junta em Luanda e foi assente que se lhe devia dar guerra para castigo. O governador mandou o capitão-mór Bento Banha Cardoso (que já em Agosto de 1625 estava em Luanda) fazer a guerra e que antes fosse Sebastião Dias Tição fortificar Ambaca com ordem de recolher o capitão Tigre e os soldados cativos, se a Jinga os désse.

Ela não deu os soldados. Como ela tinha guerra em campo e se ia fazendo poderosa de gente, partiu em 7-2-1626 Bento Banha Cardoso para a conquista em companhia do sargento-mór António Bruto, de alguma gente a cavalo e dos padres António Machado e Francisco Pacconio, para verem se a reduziam pela pregação; foram pelo Quanza até Massangano. Dali se guio em 8 de Março o capitão-mór até ás terras do soba Quiluanji Ca Caçonda. Para lá mandou a Jinga os seus mucunjis com uma carta datada de 3-3-1626, na qual ela se mostrava humilde e se confessava vassala nossa e pedia desculpa da tomada que tinha feito ao Tigre, perto de Dongo. Assinava-se  Ana, Rainha de Dongo.

O Cardoso respondeu-lhe do mesmo local, em carta de 15-3-1626, convencendo-a a que desse licença aos quimbares que viessem aos seus senhores, (tomo I, f). 230-231). Não acedendo ela, foi o Cardoso atacá-la ás ilhas. Por carta de 30 de Junho avisou ele o governador que estava sobre as ilhas, das quais três eram de mais força; que tinha falta de mantimentos e muitas bexigas na gente preta e que começavam a dar nos brancos; que entre mortos e doentes seriam quatro mil.

A Jinga os atacou de noite, havendo mortes na gente preta e frechadas em brancos de que morreu um deles. António Bruto e Lopo Soares Laço, que também para ali tinha ido, foram cada um em sua lancha atacar a ilha de Mapolo, e, posto que houve resistência, foi entrada pelos nossos, havendo grande presa de gente e de alguns mantimentos, (tomo I, fl. 233). Por carta de 15-7-1626 Bento Banha Cardoso avisou que em 12 entrou na ilha em que estava a Jinga, mas ela tinha fugido para a outra banda da Tunda. (fl. 233, v.). Neste ataque ás ditas ilhas morreu de bexigas o soba Aiidi Quiluanji.

ELEIÇÃO DO PRIMEIRO REI DE DONGO, OU DE PUNGO-A-NDONGO, COMO DEPOIS FOI CONHECIDO.

Acabada esta guerra, retirou-se Bento Banha Cardoso para o soba Quiluanji Ca Caçonda, onde estava antes. Ali, sem ordem do governador, fez o capitão-mór eleger para rei de Dongo, em logar do rei Ngola Mbandi, o soba também nosso amigo, Ngola Aiidi, que era meio irmão do falecido Aiidi Quiluanji e era a quem pertencia o reino. A eleição foi em 12-10-1626, estando presentes os dois padres Jesuítas, António Machado e Francisco Pacconio, sabendo este bem a língua ali falada (o kimbundo).

O novo rei prometeu dar cada ano á Fazenda Real cem escravos, em sinal de vassalagem. Fez-se auto de tudo, tendo o capitão-mór (Bento Banha Cardoso) aprovado a eleição em nome de D. Filipe III. Aclamado o novo rei, foi ele viver com os ditos dois padres para as Pedras de Maupungo, que então começaram a ser a corte dele, e que por isso foi intitulada por nós Rei de Pungo-a-Ndongo.


Pungo-a-Ndongo, 1890 (foto Memórias de Angola, João Loureiuro)

Para efectivar a sua vassalagem pôz o governador em Ambaca o capitão-mór Cardoso e em Pungo-a-Ndongo o capitão Bento Rebelo Vilas Boas para com o padre Pacconio o advertirem das suas obrigações. O rei mandou a Luanda um seu filho fazer-se cristão e, em 31-5 (Domingo de S.m* Trindade) de 1627, o vigário geral, Bento Ferraz, o baptisou na igreja matriz com o nome de Francisco, sendo o governador padrinho.

O rei e a rainha foram baptisados em 29-6-1627 pelo padre Pacconio que pôz ao rei o nome de Filipe, em honra de D. Filipe III, sendo padrinho por procuração o governador, representado pelo capitão Bento Rebelo. Com ele se baptisou uma filha e uma irmã e logo se deu o primeiro pregão para o seu casamento com a rainha, (tomo I, fl. 338, ao fundo).

MORTE DE BENTO BANHA CARDOSO E SUA SUBSTITUIÇÃO POR PAIO DE ARAÚJO DE AZEVEDO.

A Jinga foi-se refazendo das perdas que tivera e, ligando-se ao jága Caza, veio atacar o novo rei. Pela obrigação que tínhamos de o defender se assentou que a essa defeza fosse Bento Banha Cardoso, o qual estava em Ambaca e tendo adoecido quiz vir curar-se a Luanda; saiu pois de Ambaca em companhia do padre Francisco Velho da Silva; chegando ao Lembo quiz descançar no arimo de Pêro de Carvalhaes Dantas e, carregando a doença, morreu no dito arimo em 8-8-1628; foi levado a Massangano e ali o enterraram com a decência que convinha. Ele tinha deixado no seu logar o sargento-mór António Bruto.

Fernão de Sousa nomeou para o dito logar Paio de Araújo de Azevedo, de que lhe deu provisão em 23-8-1628 (tomo I, fl. 253 ao alto e tomo II, fl. 129) e saiu de Luanda em 9-9-1628, indo pelo Quanza para Massangano. (tomo I, fl. 253, v.). Parece que houve demora em atacar a Jinga, pois só em 25-5-1629 é que Paio de Azevedo a foi atacar ao Quilombo, tendo ela fugido. O capitão de infantaria, Diogo de Carvalho, com a sua companhia, e António Dias Muzungo, tandala, capitão preto, com a sua guerra preta, por ordem do capitão-mór, a seguiram, sem a poderem alcançar; mas no mesmo dia tomaram Cambo e Quifunji, suas irmãs, e todos os sobas e os macotas que ela tinha consigo, conseguindo ela fugir também desta vez.

Com esta presa se recolheu o capitão-mór e o tandala por ser já noite. Em 26 juntou o capitão-mór a sua gente e foi em seguimento dela. Em 27 foi sitia-la onde ela estava alojada, que era a Quina Grande dos Ganguelas. No dia 28 foi atacada, mas ela se lançou abaixo por cordas e paus.

Era tal a altura que debaixo ao cume não se ouvia falar ninguém, senão de noite. Em 29 seguiram-na, mas não a puderam apanhar, tendo ela ido para os Songos, que eram antropófagos. (Tomo I, fl. 258, e 350 n." ao fundo). O capitão-mór mandou para Luanda, entregues ao capitão da guarda, Domingos Lopes de Sequeira, as duas irmãs da Jinga, uma sua tia chamada Quiloji e onze pessoas entre sobas e macotas. Em Luanda, aonde chegaram em 20-7-1629, foram recebidas com grande aparato pelo governador, que as entregou a D. Ana da Silva, mulher do capitão-mór.

Este entrou em Luanda em 8-11 do mesmo ano. (fl. 260 a 263, v, ao fundo). Passado isto confederou-se a Jinga com o jága Cassangi, inimigo nosso e muito poderoso, que trazia 80 mil arcos de guerra em campo e, depois de estar com ele, este a mandou com guerra sua meter nas ilhas, com que se levantaram novos movimentos e fez repreza nos nossos.

Neste tempo já D. Manuel Pereira Coutinho estava em Luanda, tendo tomado conta do governo em 4-9-1630. O que ela agora pretendia era ser aceite como rainha de Dongo ou então uma das suas Irmãs. (Relaçfio de 2-3-1632, no tomo II. fl. 30 e seg.). Dos livros de Fernão de Sousa nada mais se pôde saber, pois nada relatam d'aqui para deante. Por este extrato do muito que em varias cartas Fernão de Sousa diz para D. Filipe III, se conclui que os culpados da rainha Jinga nos ter hostilisado durante vinte e oito anos, cometendo e deixando ou fazendo cometer os maiores crimes, foi primeiramente Luís Mendes de Vasconcelos pela guerra injusta e grandes roubos que fez a Ngola Mbandi; os outros governadores tiveram grande culpa, mas especialmente Fernão de Sousa a teve, por causa do seu excessivo escrúpulo em não sair fora do seu regimento, podendo sair legalmente fora dele, pois os autos das Juntas o defendiam plenamente.

A Jinga assistia-lhe o direito e a justiça e tudo isto foi calcado. A precipitação de Bento Banha Cardoso em querer eleger rei foi a causa das primeiras hostilidades dela, que dahi por diante se lançou abertamente no caminho da grande inimisade contra nós, que se exacerbou no tempo da ocupação holandesa, época em que, unida com eles, se ia perdendo Angola de todo.

Em 19-10-1641, o Conselho Ultramarino censurou o procedimento de Fernão de Sousa em ter tirado a realeza á Jinga. Veja-se a nota no fim do capitulo 5.* da 2.ª parte deste tomo. Pelo que fica dito se vê que Pungo-a-Ndongo, não tinha importância antes de para lá ir viver o novo rei que se chamou Filipe. A residência dos reis era Cabaça, que distava duas léguas de Pungo-a-Ndongo, e Avunga que não se sabe onde era. Também se vê bem que a rainha D. Ana de Sousa nunca lá esteve e que portanto não fugiu d'ali, obrigada por quemquer que fosse. Ao viajante que vai a Pungo-a-Ndongo é-lhe mostrada uma curiosa pegada que dizem, ser da rainha Jinga. É uma lenda sem fundamento algum.

ETIMOLOGIA DO NOME PUNGO-A-NDONGO

Pungo-a-Ndongo, antes de para lá ir morar o rei Filipe, tinha o nome de Matadi Maupungo (Matadi ma upungu), que quere dizer Pedras Altas.
Fernão de Sousa chama-lhe Pedras do Maupungo; Cavazzi Pedras de Maopungo, Upungu significava altura; esta palavra desapareceu ficando só no nome de Pungo-a-Ndongo.
No Congo: Mpungu é altura.
Era portanto: Matadi ma upungo.
Pedras de altura.
Pedras Altas.
Esta maneira de formar adjectivos é ainda hoje usada.
Assim, em Ambaca: Matadi ma unene.
Pedras de grandesa, Pedras grandes.
Como se vê: o ma não fazia uma palavra com upungo era o genitivo de matadí.
Em 1680 Cadornega diz só: Pedras do Mapungo; já tinha caido o u de upungo.
A queda do prefixo u das palavras que o têm no singular, quando formam o seu plural, dá-se em muitas.
Assim, ainda hoje em Ambaca:
Makembu, enfeites, por maukambu;
Mahaixi,
doenças, por mahuaxi;
Mata,
espingardas, por mautas, e outras muitas.

Fonte: História da Raínha Jinga Mbandi, D. Ana de Sousa, está descrita no livro História Geral das Guerras Angolanas, 1680, António de Oliveira de Cardonega, Tomo I, Agência Geral do Ultramar, Lisboa 1972, páginas 154 a 167.