Jornal de Angola

A batalha de Kifangondo nas vésperas da Independência

Artur Queiroz - 10 de Novembro, 2009

Na frente do Porto Amboim, as forças populares batiam-se contra os exércitos da África do Sul e do ELP. O inimigo concentrou-se ali um número elevado de forças, que beneficiavam de apoios de numerosos meios aéreos. Mas ninguém recuou um milímetro.

A coluna invasora nunca chegaria a Luanda, como os seus comandantes pensavam fazer antes do 11 de Novembro. A coluna zairense, durante todo o dia 9 de Novembro, bombardeou as posições das FAPLA em Kifangondo. Eles estavam concentrados no Morro da Cal, a escassos quilómetros. Dia 10 de Novembro, cinco horas da manhã. Dois aviões a jacto, tipo bombardeiro, atacaram as posições das FAPLA nos morros de Kifangondo. Porque voavam a grande altitude, o dia ainda não nascera completamente e havia uma chuva miudinha, erraram os alvos. Estes aviões constituem um mistério. Não se sabe se eram "Mirage" zairenses e portanto descolaram da Base Aérea do Negage, ou se eram aviões mais obsoletos  e descolaram da Base Aérea de Luanda. Um dia se saberá. Só que, se descolaram de Luanda, eram aviões portugueses pilotados por portugueses, cuja missão em Angola era defender a integridades territorial do país até ao dia da independência.

Cerca das seis horas, as posições das FAPLA foram submetidas a intenso fogo de artilharia. Só muito perto do meio-dia acabaram os bombardeamentos. Mas então os comandantes do MPLA localizaram as forças zairenses descendo o Morro da Cal. Era uma coluna de mais de dois mil homens e à frente vinham os blindados. O chefe do Estado-maior da IX Brigada, comandante Ndalu, inquietou-se. Em ataques anteriores, as forças inimigas costumavam demorar muito mais tempo a chegar à estrada. Naquele dia já se encontravam muito próximas das posições das FAPLA. Avançavam sem qualquer precaução. O comandante Ndozi, que comandava a brigada, deu ordem para que a artilharia abrisse fogo quando o primeiro blindado entrasse na ponte do Panguila, a pouco mais de 200 metros dos morros onde se encontravam os "Órgãos de Staline" ou "monakaxito".

Era claro que o inimigo não sabia que as forças do MPLA haviam sabotado aquela ponte e nunca conseguiriam entrar em Luanda por ali. O primeiro blindado entrou numa pequena curva que antecede a ponte. E pela primeira vez, desde que as posições foram bombardeadas de avião, as FAPLA abriram fogo de artilharia. Logo no primeiro embate três blindados foram postos fora de acção. A infantaria zairense, praticamente a descoberto, foi recebida com uma cortina de fogo. O combate durou pouco tempo. O inimigo desorientado recuou desordenadamente. Em pouco mais de duas horas, mais de metade dos seus efectivos tinham tombado e perdera quantidades impressionantes de material de guerra. Foram feitos alguns prisioneiros, entre os quais membros do ELP, mercenários e soldados zairenses.

Dentro dos blindados foram encontradas malas de roupa. Os seus ocupantes vestiam à civil, trajo de cerimónia. Vinham já equipados para a festa da independência. Um prisioneiro explicou tudo.
Logo de manhã, Holden Roberto aterrou de helicóptero no Morro da Cal. O Estado-maior mandou reunir os soldados. Toda a gente foi informada que à tarde o chefe da UPA estaria em Luanda para à meia-noite receber o poder. A soldadesca recebeu cinco mil escudos para gastar na capital. Depois do bombardeamento aéreo e de várias horas de fogo de artilharia pesada, sem qualquer resposta das FAPLA, os homens que comandavam as forças armadas zairenses convenceram-se que o MPLA já não oferecia resistência. Desconheciam que as posições de Kifangondo estavam intactas e as tropas acomodadas em trincheiras cavadas ao longo de semanas. E mesmo que passassem em Kifangondo, nunca entrariam em Luanda sem primeiro destruir a cidade. O povo de Luanda preferia morrer combatendo que esperar a morte pela tortura dos carrascos da UPA. Para Horden Roberto e seus pares a população de Luanda não podia ser poupada, porque para eles cada Luandense era um militante do MPLA, logo um inimigo.

Mas a batalha de Kifangondo não terminou com o rechaçar da coluna invasora. Ela só terminou quando o último soldado do Zaire e do ELP, o último mercenário, abandonou o país. A IX Brigada lançou-se imediatamente no encalço do inimigo que, para ganhar tempo, foi destruindo as pontes por onde passava. O comandante Ndozi disse-nos que o problema maior era a chuva miudinha que caía e que tornou tudo num imenso lamaçal.

Na fuga, zairenses e mercenários sabotaram dezenas de pontes. Estradas foram cortadas. As FAPLA continuavam no encalço do inimigo. E, sucessivamente, caíram praticamente sem combate Caxito, Libongos, Ambriz, Ambrizete, Negaje, Uíje. É verdade, o Uíje caiu praticamente sem um único tiro, dois dias depois do "chefe supremo" ter proclamado a Independência de Angola, na "capital" da UPA. Quando o mercenário Barcker, agente da CIA e então "comandante militar" do Soyo (Santo António do Zaire) era preso pelas FAPLA, enquanto se refrescava com um duche, terminou a batalha de Kifangondo. O Norte de Angola estava libertado. O inimigo fora completamente derrotado, a despeito de Mobutu Sese Seko e os "ianques" terem empenhado nesta guerra um impressionante número de soldados e o mais moderno e sofisticado material de guerra. Apesar de na parte final terem recorrido às matilhas de mercenários.

Eles tinham tudo para vencer a guerra. Apenas lhes faltou o povo. E sem apoio popular, o exército mais poderoso é derrotado, mais cedo ou mais tarde. E foi esmagado em Cabinda num combate desigual. Foi derrotado em Porto Amboim e em todo o Sul de Angola. O "invencível" exército da África do Sul, reforçado com os nazis do ELP, não chegou a Luanda. Foi travado em Porto Amboim e depois recuou. Recuou sempre, deixando atrás de si um rasto de morte e destruição. Em Março de 1976, quatro meses após a Independência, o exército da África do Sul abandonava Angola, sob o peso de uma humilhante derrota. Acabava-se a aventura do regime de "apartheid" em Angola. Atrás dos sul-africanos, ficou a destruição. A grande destruição. Mais de cem grandes pontes foram destruídas pelas forças de Vorster em fuga.

(Extraído do livro "A Via Agreste da Liberdade", Maio de 1978 e reeditado em Setembro de 2006)

Notas do editor deste site:

Encontrei casualmente na Google este texto sobre a Batalha de Luanda que aqui é referida como a Batalhe de Kifangondo. Quem ler este texto fica absolutamente convencido de que foi o MPLA com a ajuda dos recém chegados cubanos e com o armamento sofisticado para a época cedido pela URSS que ganharam esta batalha e assim foi de verdade. O autor refere exactamente como a batalha foi ganha e a FNLA repelida até ao Uige.

Mas há uma parte interessante do texto que dá para entender que a FNLA estava absolutamente confiante na vitória e que o autor do texto não procurou saber o porquê.: "Dentro dos blindados foram encontradas malas de roupa. Os seus ocupantes vestiam à civil, trajo de cerimónia. Vinham já equipados para a festa da independência".

Efectivamente a FNLA tinha razão para estar confiante de que ganharia a batalha se não fosse a ordem dada pelos EUA ao exército sul-africano para desmancharem as culatras dos três super-canhões G-5 instalados no Morro da Cal (cujas ogivas tinham 1,5 de comprimento e 50Km de alcance) e as levassem de helicóptero para um barco ancorado no Ambriz. Com esses super canhões a FNLA arrasava por completo as forças das FAPLA e cubanas inclusivamente os "monokaxitos" (órgãos de Estaline) acabados de desembarcar como podereis ver no texto escrito pelo Coronel de Cavalaria português Mendonça Junior no seguinte link: http://www.tpissarro.com/batalha.htm

No texto sobre a Batalha do Cuito Cuanavale edição russa escrita por José Milhazes residente ao tempo na URSS por isso mesmo absolutamente fiável, podereis ver o comportamento dos soldados angolanos na guerra. Foi pena que no site cubano Secretos de Cuba tenham eliminado os textos onde os cubanos relatavam o mesmo comportamento dos soldados do MPLA na batalha de Luanda
: http://kuribeka.com.sapo.pt/cuitocuanavale.htm