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PROA À LIBERDADE


General Del Pino (2006 TV foto)

Neste excelente livro o general Del Pino relata minuciosamente o que se passou em Cuba e na guerra em Angola. Sugerimos vivamente a sua leitura  a todos aqueles que estão interessados em saber a verdade sobre a descolonização e guerra em Angola.  Como o livro tem copyright e não será fácil de adquirir àqueles que vivem em Angola, solicitamos a complacência da Editora e do autor. Obrigado

28 de Maio de 1987, 13:00 hora local de La Habana.

O céu está totalmente limpo e o seu intenso azul parece-me mais formoso que nunca. Digo à minha família que se dirija ao automóvel, regresso ao interior da casa e permaneço uns instantes de pé no meio da sala.

Quero observar bem pela última vez a minha casa, o lugar onde nasceu e deu os seus primeiros passos a minha pequena filha, os seus brinquedos, as suas roupinhas. Sinto um terrível nó que me prende a garganta, mas a sorte está deitada e tenho que levar a minha decisão até às últimas consequências. Fecho as portas e saio apressadamente sem olhar para trás.

Em todo o caminho até ao aeródromo, milhares de pensamentos assalta o meu cérebro: estás certo Del Pino do que vais a fazer? Não estás arriscando a segurança e o futuro da tua família? És um herói nacional; tens condições e todas as comodidades e privilégios de que goza um general; o teu bem estar e da tua família estão garantidos. Vais abandonar tudo isso por um futuro incerto?.

- Nem por todo o ouro do mundo estou disposto a continuar sendo cúmplice dos que oprimem o meu povo! ... digo resolutamente cá para mim e continuo decidido na direcção à estação principal do Estado Maior da Força Aérea. Ao aproximar-me, os soldados de serviço franquearam-me a entrada saudando disciplinarmente. Contorno o edifício principal e sigo pela rua que leva até onde está o meu avião na rampa de estacionamento.

São 13:15 horas. O meu filho Ramsés que também é piloto encarrega-se de acomodar o resto da família no interior da aeronave, enquanto eu realizo a revisão exterior regulamentar. Meu plano de voo está previsto para um passeio local sobre La Habana e ninguém tem a menor suspeita. Sou o último a subir a bordo.

- Torre de controle Liberdade: este é o CUT-118; autorização para por a trabalhar os motores.

- Autorizado, CUT – 118.

Ligo os interruptores necessários para o arranque; olho uns segundo para Ramsés que já ajustou o seu cinto de segurança no assento do co-piloto à minha direita e primo o botão que de imediato faz girar a hélice do motor esquerdo. Imediatamente, sentimos como os pistões impulsionam aceleradamente a hélice. Depois de repetir as acções com o motor direito, iniciamos a rodagem até à cabeceira da pista 26.

A minha pequena Laura, com os seus dois anitos, aplaude e salta de alegria nas pernas da sua mãe; é a sua primeira experiência num avião e para ela é sensacional. Que longe está de pensar no perigo que corremos neste momento.

São 13:00 horas. Estou na posição de descolagem, controlo os instrumentos da cabine e faço a última comunicação por rádio.

- Torre de controle Libertad, o CUT – 118 pronto para descolar!

- Descole, CUT -118!

Deito uma última olhada a todos no interior do avião, pressiono fortemente com a mão direita ambos os aceleradores e aplico a máxima potência quando começamos a mover-nos pela grande pista de asfalto. Segundos depois estávamos no ar. Atrás ficou o grande pesadelo de vinte e oito anos!

Subo lentamente e dirijo-me sobre a cidade de La Habana de acordo com o meu plano de voo. É preciso não chamar a atenção desde o primeiro momento. Faço uma viragem a mil e quinhentos pés de altitude e, já nivelado, rumo a trinta graus para o meu destino. O meu coração bate aceleradamente. Sinto as mãozinhas da minha pequena Laura que me tocam o ombro direito indicando-me com assombro como vê pequenos os carros nas ruas.

Decorridos só uns minutos desde a minha alteração de rumo e recebo a primeira chamada do controle de radar.

- CUT-118, você começa a afastar-se da costa, é necessário que efectue uma viragem para a direita para rumo um-oito-zero; escuto.

Não respondo à chamada do controle de radar e em poucos segundos escuto novamente as suas instruções, desta vez de maneira mais agitada.

- CUT-118, execute a viragem pela directa para rumo un-oito-zero imediatamente! Copiou? Imediatamente!

Desliguei o rádio para não ouvir mais aquela voz e iniciei uma descida rápida rasando o mar. Começo a modelar a minha mente o que está passando nestes momentos no aeródromo de Santo António dos Banhos. Já os Migs da guarda combativa tem de ter os motores a funcionar e estar rodando na pista para a posição de descolagem.

São 13:27 horas; decorreram somente cinco minutos de ter descolado e parece-me toda uma eternidade. Acabo de deixar a costa para trás e ainda que voe rasante à água, sei que serei observado pelos radares de da Foxsa e La Cabana até à distância de oitenta quilómetros, onde a curvatura da terra começará a proteger-me dos olhos electrónicos. À velocidade de cento e sessenta nós que voa o meu avião, apenas percorro cinco quilómetros por minuto, pelo que serei seguido durante mais de um quarto de hora, tempo suficiente para ser interceptado pelos Migs que se deslocam a vinte quilómetros por minuto.


General Del Pino e o seu filho Ramsés num Mig de assento duplo (foto livro)

Segundo todos os cálculos, o ponto provável de intercepção encontra-se a sessenta quilómetros da costa o que representa quinze minutos de voo..

São 13:32. Ligo novamente o rádio e sintonizo a frequência de Controle de Intercepção. Quase de imediato começo a escutar a voz dos interceptores que repetem as ordens e o rumos que lhe indicam da terra. Por sorte, só Ramsés sabe realmente o que está sucedendo e o terrível perigo que corremos nestes momentos. Consigo identificar o indicativo do líder o qual responde ao Controle de Intercepção de La Cabana como "14-32". Tinha chegado o momento de actuar. Empregando o indicativo do Posto de Comando da base aérea de Santo António dos Banhos, estabeleço contacto com os pilotos interceptores e começo a preocupá-los.

- Catorze, três, dois, é "Halcón", tome precauções, porque na vossa direcção dirigem-se dois F-16 na altura de dois mil metros, ascenda para os dois mil e quinhentos!.

Com o fim de que não se apercebessem de que as indicações eram falsas, comuniquei-lhes que continuassem guiando-se pelos rumos que lhe deu La Cabana mas que se mantivessem a dois mil e quinhentos metros devido à presença de dois F16. Como piloto de caça, sabia que os interceptores iam a concentrar a sua maior atenção sobre aqueles supostos objectivos que podiam derruba-los. Com isto se reduziam em grande medida as suas possibilidades de localizar-me visualmente. Além disso, a diferença de altura com respeito a mim lhes dificultaria mais ainda a intercepção.

- 14.33, presta a tua atenção aos F-16 para eu me concentrar na procura do objectivo – lhe comunica o líder do interceptores ao seu piloto número (flying man). Ao escutar aquela indicação, apercebo-me de que o 14-32 quer distribuir a observação, tratando de facilitar a busca do meu pequeno avião. Pela potência com que escuto a voz do líder sei que estão bastante próximos e saio outra vez ao ar simulando ser o Posto de Comando da Base Aérea de Santo António de los Baños.

- 14-32 é "Halcon", avance!

- Avance "Halcon" para 14-32, escuto.

- Mantenha você também os olhos bem abertos, já que os F-16 estão manobrando para se situarem na sua retaguarda.

- OK, inteirado o 14-32!

Aquilo deveria ter sido um verdadeiro trovão para os perseguidores. Dificilmente concentrariam agora a sua atenção no meu indefeso aeroplano e já devíamos estar próximos ao paralelo 24, onde se verão obrigados a regressar.

São 13:43 quando escuto a última comunicação do 14:32 informando que regressa ao aeródromo. De imediato começam a relaxar-se todos os meus músculos. Cruzo o meu olhar com o de Ramsés que me observava sorridente.

Separo as minhas mãos entorpecidas dos controles e digo a Ramsés que tome conta deles. O perigo tinha passado; só esperamos que comece a surgir ante nós a terra da liberdade.

Com o relaxamento da tensão e o contínuo ronronar dos motores vou sumindo-me inconscientemente nos meus pensamentos. Quantas coisas passaram em todos estes anos, quanto sacrifício em vão, quantos sofrimentos! (...)

- Velho, velho, toma os comandos que me parece ver terra diante de nós – disse-me Ramsés tirando-me do estupor. Fixei a minha vista no vasto horizonte e efectivamente, começava a distinguir-se o contorno da costa. Sintonizei a frequência da torre de controle da estação naval de Boca Chica e estabeleci contacto com o controlador. Identifiquei-me, informei o meu rumo e posição e este me confirmou pelo radar que a minha direcção estava correcta. Segundos depois comecei a distinguir as silhuetas dos edifícios e posteriormente apareceram as pistas da base aérea. Todos os cálculos de navegação tinham, resultado perfeitos.

Às 14:05 pousava-mos suavemente as rodas do pequeno Cessna 402 na estação naval de Boca Chica, Éramos livres e com isso começava uma nova vida. A notícia da minha ruptura com o regímen de Castro percorreu mundo a poucos minutos da minha chegada à liberdade.

Realmente surpreendeu-me o trato tão amistoso e cortês recebido pelas autoridades norte americanas em Cayo Hueso. O trauma de viver durante tantos anos num estado policial não me permitiam crer que o povo norte americano não guarda ressentimentos contra alguém que supostamente tinha sido seu inimigo. A aterragem na base naval de Boca Chica foi surpresa e inesperado; portanto aquela afabilidade mostrada desde os simples soldados até os principais chefes era espontânea e sincera. Lhes estarei eternamente agradecido por este gesto humanitário, especialmente pelo que significou para os membros da minha família que desconheciam os meus planos e que de repente se viram em solo norte americano. Para a minha esposa e filhos menores a chegada aos Estados Unidos foi um impacto extraordinário.

Imediatamente depois da chegada, expliquei-lhes detalhadamente os motivos que me haviam levado a romper com o regime comunista de Cuba e porque tive que realizar os meus planos em silêncio. Todos entenderam as razões de segurança que me levaram a manter a mais restrita compartimentação. Depois de dizer-lhes que se desejavam regressar podiam fazê-lo com inteira liberdade, todos preferiram ficar junto de mim.

Os oficiais do FBI, da emigração e da alfândega que vieram mais tarde à estação naval foram também muito corteses e respeitosos. O mesmo que o pessoal de Boca Chica lhes estarei eternamente agradecido.

Ante o impacto que causou no mundo a notícia, o governo de La Habana reagiu inflexível e precipitadamente, criando mais perplexidade nos círculos políticos internacionais. O Ministério das Forças Armadas de Cuba, fazendo uso dos seus habituais esquemas, se enredava na sua própria madeixa. Nos primeiros comunicados oficiais diziam que eu sofria de padecimento de "prolongados transtornos mentais" e tratando de retirar importância ao facto, declarava que produto de esses "desajustes psíquicos" eu tinha sido designado para dirigir um suposto museu. .

La Habana necessitava tempo para tecer uma boa historieta à volta da minha pessoa que pudesse ser mais ou menos digerível tanto fora como dentro do país. A Castro logicamente lhe interessava mais a repercussão interna que externa. O primeiro que necessitava era associar-me com algum feito repugnante que feriria a sensibilidade dos cidadãos. Desta maneira, quinze dias depois da minha partida de Cuba prendem o ministro da Aviação Civil e membro do Comité Central do Partido Comunista de Cuba, senhor Luís Orlando Dominguez, acusado de corrupção. Este homem que fora durante anos o primeiro secretário da UJC (União de Jovens Comunistas) e um dos protegidos favoritos do comandante ou Chefe, servia de bode expiatório para poder calçar o psicodrama que devia expor ao "Máximo Líder" diante das câmeras de televisão.

Quase um mês necessitou a maquinaria totalitária para criar as condições da comparência televisiva do comandante..

Por fim, 29 dias depois do sucesso e uma vez preparada toda a tramóia, apareceu Fidel Castro no pequeno ecrã. Na sua prolongada intervenção de mais de quatro horas, fazendo uso dos seus velhos recursos de psicologia das multidões, dedicou primeiro mais de três horas para informar todos os latrocínios cometidos pelo seu ministro da Aviação Civil. Com isto ia acondicionando os sentimentos de indignação dos espectadores ante os factos reais e repugnantes para depois dedicar só alguns minutos a contar a história sobre as "causas" que conduziram à minha deserção. Como era de esperar, o comandante teria de expor ao povo de Cuba supostas causas que não vincularam a minha ruptura com o seu regime por motivos realmente políticos. No entanto, o presidente e a sua maquinaria totalitária na sua atropelada corrida para fabricar a historieta não contaram com uma realidade que lhes estragava os seus planos. Desde 20 de Maio de 1985, o regime tinha perdido para sempre o monopólio da informação e um dia depois da sua comparência televisiva o povo cubano podia escutar livremente por ondas de Rádio Martí, as verdadeiras e únicas razões que me levaram voluntariamente ao desterro para não continuar sendo cúmplice dos opressores do nosso povo. (...)

Tradução livre.

Entrevista ao General Del Pino.