DNa nr.470, 2 de Dezembro de 2005.

Restaurantes

Em Luanda

À solta na capital de Angola, COS mede o pulso a uma sociedade ainda afundada na miséria mas que cresce economicamente a olhos vistos.

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Os dois galináceos magrizelas a chafurdarem num imenso charco barrento duma das bocarras do labiríntico musseque do Rocha Pinto, parecem perguntar, um ao outro, quem os irá comer, hoje. Em que muamba irão juntar-se ao gindunguinho, à vista do funche de mandioca?

Os putos que infestam a estrada que vai para o Gamek querem vender de tudo, do que gamaram ao que lhes deram os grossistas que deles se servem, por uma miséria, para escoar o lixo que distribuem. Enquanto dois maganos entopem o trânsito, a quererem despachar uma banheira, não cedo à tentação de baixar o vidro do carro, blindado, para comprar, por uns poucos de cuanzas, uma saqueta de biscoitos com que um deles acena. Ali, podia ser fatal! Logo atrás, uns daqueles brações negros agarrava-me o pulso, chupava-me para fora, metia-se no carro e a noite, da mesma cor da pele dele, iria engolir o assunto.

Não, esta crónica não é para terras lusas, de quem vai sair tranquilamente de casa, rumo a um restaurante aconselhado, em término de semana tranquila, enquanto a reformazita do emprego público ou do poiso em feliz empresa, não traz a morte anunciada. Estas linhas são para quem terá, nos próximos anos, de dar à perna para ganhar a vida, fora do "Puto" enfezado que agora é o nosso Portugalito, sempre aflito de crises ininterruptas e de imparável decadência.

No hall do Hotel Alvalade, o mais recente da cidade, um prédio horroroso pintado com a cor da poeira que inunda Luanda, os miIhentos predadores, como lhes chama Luandino Vieira, no seu último romance, vindos de todo o mundo, parecem sorrir por saberem algo que julgam que o resto do globo desconhece. Estamos em Angola, o maior crescimento de PIB do mundo, um manto de riquezas infinitas e o actual centro dos centros da voracidade eterna.

Começou o cobiçado buffet do restaurante do hotel, o Zambeze. Voam as magníficas lagostinhas abertas a meio, ladeadas pelos palmitos em azeite. Um sorriso branco em linda face negra abana a frigideira dum bobó de camarão, enquanto o óleo de dende traga as cebolinhas picadas, os tomates e o aipim. Não se importem com os nomes que desconhecem. Ali muita coisa se desconhece. O que se congemina naquele vasta mesa de altos dignitários que se alambuzam com o cozido à portuguesa que faz de prato principal de hoje? Do que se fala naquela mesinha do fundo, em que um chinês sussurra a um americano, trincando desinteressadamente um lombinho de garoupa à minhota, ida ao forno em cebola e tomatada? Quem irá comer aquela suculenta mulata que acompanha uns alemães que escorropicham a massa italiana?

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As enormes cabeças negras que encimam as colunetas da sala, assistem à matança geral com a serenidade das infinitas savanas. Angola é nossa! - murmuram todas aquelas dentuças que não param um segundo, sequer.

Perseguem-me até à baía, o lixo, a degradação total dos edifícios e das ruas, a confusão dos movimentos humanos e do esgoto de trânsito, enchameado de candongueiros com as suas carrinhas Toyotas brancas e azuis que asseguram o sempre atado novelo do transporte público da cidade.

Na ponta da ilha, alinham-se os restaurantes-esplanadas que beijam a praia: o Miami, o Café del Mar, o Coconuts, todos guardados com segurança brutal, que não permite a mais pequena aproximação dos fedelhos que rondam as entradas como abutres à espera do mais pequeno deslize.

No Coconuts, o copo alto dos três zumbies - cockail de Bacardi, ananás e açúcar - que já emborquei, não tapa as caras das duas meninas negras como o fundo do mar, que nem doze anos devem ter e que se sentam na mesa de dois empreiteiros com pronúncia do norte de Portugal, que arrematam negociatas ao telefone, em altos berros. Nunca os velhos colonialistas sonharam com tanto desplante e alarvidade.

Os olhos delas devoram a chegada duns pratos de postas de carne tapada com uma leve fatia de queijo, o mesmo contraste que os lençóis farão com os seu corpos nus quando os empreiteiros as levarem para um quarto qualquer e se babarem sobre elas.

Como uns lombinhos de lagosta, cortados transversalmente, enquanto nadam sobre um molho de fricassé, em torno duma ilha de arroz branco. Tenho de me defender. O meu estômago de branquinho escanzelado explodiu, no outro dia, depois dum moatmá, um frango com quiabos que comi em casa duns amigos, numa ponta da ilha do Mussulo, que me esmagaram com o tamanho do seu catamaran fundeado mesmo em frente à casa que veio toda ela do Brasil, em peças de madeiras preciosas, para ser montada ali, à vista dos mangais e do mar.

Pode haver muita miséria, pode o velho liceu Salvador Correia, onde andei, em 1962, parecer uma caveira abandonada, podem aquelas avenidas com nomes de guerra feder a muito lixo e buraco, mas a verdade é que o entusiasmo que se encerra naquela pátria de trinta anos, é contagiante!

Quando a noite cai, emerge o rugido da grande terra africana, um bafo que ilumina as almas mais dolentes, como a minha. A salinha do recatado restaurante Pimm’s está cheia. É o destino ideal para os gourmets e pares românticos da cidade. Continua a ser o pequeno Portugal que ficou em África e que agora vence com os garfos o que não conseguiu com as G3's. Ele é de Ponte de Lima, ela de Bragança. A minha cataplana é bafejada pelo riquíssimo mar de Angola. Salta o pargo, afogam-se as gambas carnudas, emerge o lombo de lagosta. Ao meu lado, a Gina enfeita de gindungo um magnífico magret de pato. O Beto, um possante negro angolano, director duma construtora portuguesa, fala tranquilamente no irreconhecível que Angola será nos próximos dez anos. Acredito.

Não foi para o cherne em molho de vermute, natas e courgettes que eu olhei, na mesa ao lado, mas para a nova companhia dum conhecido comerciante de vidros.

Deus foi muito justo ao conceder ao Hemisfério Sul o direito aos mais belos e excitantes rabos femininos.

O que é que há para sobremesa?

ZAMBEZE
Hotel Alvalade
Av. Comandante Gika
Tel.(2442)327470

COCONUTS
Ilha de Luanda
Tel.(222)309241

PIMM'S
Rua Emílio M’Bídi, 102
Tel.(222)326290